terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

RICARDO ALFAYA - Entrevista

RICARDO ALFAYA


RICARDO INGENITO ALFAYA, nome artístico: Ricardo Alfaya, carioca, 55 anos, divorciado, formado em Direito, pela UFRJ e em Comunicação Social, com especialização em Jornalismo, pela Facha. No início dos anos 80, atuou como jornalista para o "Informativo", da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e para o "Perspectiva Universitária" da Fundação Mudes. Trabalhou de 1974 a 1995, no Banco do Brasil S.A., no qual exerceu cargos de Gerência Média, foi Professor de Relações Humanas e corrigiu provas de Redação de concurso. De 1996 a 1998 foi sócio-gerente da Casa de Cultura Nozarte Ltda-ME. De 1998 em diante, passou a atuar como autônomo, em áreas relacionadas ao ensino, à imprensa e à edição e venda de livros. Tem dois livros publicados: "Através da Vidraça", 1982, pela Poeco, São Paulo-SP, poesia e "Sujeito a Objetos", 25 trabalhos inseridos em "Rios, coletânea de poemas", Ibis Libris, 2003, obra que reúne ainda quatro outros poetas: Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta; sob a coordenação e patrocínio de Márcio Catunda. Participou também do movimento de poesia visual e arte postal, com diversos trabalhos expostos no Brasil e no exterior, vários deles incluídos em catálogos das mostras, além de incorporados aos acervos de galerias e museus. Integra 22 antologias, das quais destaca: volumes III, V e VII de Saciedade dos Poetas Vivos, Blocos Editores, Rio de Janeiro, entre 1993 e 1995, sob a coordenação de Leila Míccolis e Urhacy Faustino. Ensaios e poemas diversos em "Literatura, Revista do Escritor Brasileiro", coordenada por Nilto Maciel. Participação em "Globus", organizada por Giovani Campisi, Edizioni Universum, Trento, Itália, 1999. Antologia Poetrix, Scortecci Editora, São Paulo, 2002, organizada por Goulart Gomes, na qual participa com 15 tercetos. Destaca ainda sua presença em "Onze Autores da Web", Ottoni Editora, 2003, organizada por Douglas Lara, da qual participa a convite, com 19 textos minimalistas , reunidos sob o título "Dez Em Cantos Sedutores e Nove Poemas ao Mar". Prefaciou livros para diversos escritores: Joaquim Branco, P.J. Ribeiro, Regina Lyra, Ronaldo Cagiano, Elaine Pauvolid, Fabio Rocha, J. Cardias, José Geraldo Neres, Adriana Zapparoli, Márcia Maia e Sérgio Gônimo. Obteve 22 prêmios literários, ressaltando sua inclusão por Leila Míccolis no projeto Brasil 500 Anos de Poesia, seleção dos mais significativos nomes da poesia brasileira, desde suas origens. Citado, em 1998, na página 05, em revista universitária da "Proler", pelo escritor, crítico literário e doutor em letras Joaquim Branco, no quadro de "Principais Autores", dentre os "poetas e ficcionistas contemporâneos". Vários textos em verso e em prosa, bem como poemas visuais, acham-se publicados em diversos sites literários nacionais e internacionais e se encontram em mais de 70 periódicos do Brasil e do exterior. De 1995 a 2006 foi editor do "Nozarte Informativo Impresso e Eletrônico".


ENTREVISTA

SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

RICARDO ALFAYA - Profissionalmente falando, trabalho com revisão de textos e ministro aulas particulares de português.Tenho também outros projetos em andamento, todos na área cultural.


SELMO - Como surgiu seu interesse literário?

RICARDO ALFAYA - Surgiu realmente muito cedo. Desde criança, livros e revistas foram meu “brinquedo” preferido, uma vez que com cinco anos já sabia ler e escrever. Daí, para começar a brincar com as palavras foi um pulo. Uma das minhas distrações preferidas era construir “cidades” sobre uma mesa gigantesca que meu pai tinha num quarto imenso (naturalmente, falo sob a perspectiva de uma criança). Eu gastava bem umas duas horas construindo a “cidade”. Nela, havia os diversos personagens: soldados e índios de plástico, miniaturas dos heróis e vilões da Disney, imitações reduzidas dos animais de zoológico, etc. Inventava enredos em que aqueles personagens interagiam no cenário da “cidade”. Inspirava-me nos livros e filmes infantis, nos desenhos animados, nas HQs.


SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

RICARDO ALFAYA - A resposta a essa pergunta se acha em minha biografia. Acrescentaria, ao que diz ali, a obra “Frutos da Paixão”, livro de poemas que será inserido em “Vertentes”, no prelo. “Vertentes” é a continuidade do projeto liderado por Márcio Catunda, que, em 2003, deu a lume “Rios, coletânea de poemas”, obra tão bem saudada pela crítica e pela quase totalidade dos escritores que dela tomaram conhecimento. Em “Rios”, participei com “Sujeito a Objetos”. Antes dele, “Através da Vidraça”, também de poesia, de 1982. No entanto, estive presente em inúmeras antologias, tanto em verso quanto em prosa, no Brasil e no exterior. Igualmente produzi trabalhos de poesia visual que tiveram boa repercussão no meio literário. Em suma, esses dados se acham melhor pormenorizados na biografia remetida.


SELMO - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários?

RICARDO ALFAYA - Tenho vivido diferentes fases em minha obra. O que serviu bem a uma certa fase talvez não caísse bem em outra. “Através da Vidraça” foi produzido durante a juventude. Expressa a vontade de poder e justiça social características desse período, que marcou a minha geração. Afinal, foi escrito ao longo do duro regime militar que marcou tanto a minha infância quanto a minha juventude. Depois dos anos 90, já passei a viver outras fases. Embora até hoje mantenha uma forte postura socialmente crítica, o que faço de 1990 a 2000 tem uma preocupação muito grande com a forma, com a estética. Foi a fase em que mais produzi poemas visuais e em que me dediquei a experimentar diversas formas e gêneros de poesia. Aprendia produzindo e produzia aprendendo. Era uma atitude bem característica daquele momento, e não dizia respeito apenas a mim. Vários outros autores viviam essa fase de “experimentação”. De 2000 a 2004, passei a associar poesia com meditação. Surgem os poemas minimalistas, de nítido sabor zen e uma poesia mais conceitual, mais filosófica, da qual resultou “Sujeito a Objetos”. A partir de 2005 volto-me para uma poesia em que o sentimento, sobretudo o de natureza romântica passa a ter um papel cada vez maior e mais relevante. Porém, mesmo nesse exercício há muita ironia, sátira e crítica social. Seja como for, trata-se da fase em que, a meu jeito, mais celebro a vida. Música, amor e dança constituem o tripé de sustentação dessa poética, cujo resultado foi o aludido “Frutos da Paixão”; além dele, mais uma série de poemas que vieram depois. De todas as fases que vivi, esta é a mais indisciplinada. Não me preocupo absolutamente com a questão da quantidade. Não tenho horário certo para escrever, nem faço questão. Isso não me está mais afligindo no momento. Todavia, os poemas periodicamente acontecem, como nos quatro exemplos que lhe enviei. Quase todos sintéticos, nascendo praticamente prontos, necessitando de mínimos ajustes.


SELMO - Quais os escritores que você admira?

RICARDO ALFAYA - Sem demagogia, muitos, muitos mesmo. Há os medalhões consagradíssimos, Machado, Borges, Clarice, Cecília, Dostoievski, Kundera, Adélia Prado, José J. Veiga, Fernando Pessoa, Drummond, Bandeira, Vinícus de Morais, Quintana, Sartre, Isabel Allende, Oscar Wilde, João Cabral, Ignácio Loyola, Humberto Eco, Beckett, Camus, Kafka, Sófocles, Shakespeare, Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Álvaro de Sá, irmãos Campos, Wademir Dias-Pino, William Blake, Baudelaire, Torquato, Roland Barthes, Cruz e Sousa, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski, e tantos outros (e sei que cometi omissões imperdoáveis). Mas, claro, admiro também diversos escritores atuais com quem tenho convivido ou cuja obra conheci. Apenas não citarei nomes porque a lista ficaria imensa e, provavelmente, acabaria por cometer esquecimentos, o que poderia causar melindres.


SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

RICARDO ALFAYA - Que busquem dentro de si uma maneira bem própria e original de se expressar. Que eliminem de seu repertório tudo que virem ter sido já feito anteriormente por outro autor. Na arte somente sobrevive o que for forte, marcante, original, impactante. O resto são fogos de artifício e aplauso fácil que em geral morre bem cedo, enquanto o ator ainda está bem vivo no palco. Outra coisa, que não levem muito a sério os dizeres da "Nota de Pórtico", de Fernando Pessoa, na qual se acha o famoso lema que adotou: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Sem essa. Nada de fazer da vida de vocês “lenha”para essa “fogueira”, que representaria sacrificar a vivência em prol da construção de uma obra, praticamente, em tempo integral. Acima de tudo, vivam. E com paixão, com amor, com intensidade. Colham os eventuais frutos maduros que nascerem dessa
vivência e os distribuam se for o caso. Não se preocupem com fama, sucesso, quantidade; mas com a qualidade da obra, a par, da qualidade da vida.


Abaixo, os quatro trabalhos para publicação. O primeiro lhe é dedicado. O derradeiro, "Nota de Rodapé" estará no meu próximo livro (o que cito na entrevista) e foi também publicado em janeiro deste ano em Poiésis. Os outros dois são inéditos e recentes.


MOMENTO

Para Selmo Vasconcellos

No céu
De Selmo
As luzes são poemas

Na terra
De Vasconcellos
O momento
É pleno movimento
Lítero-cultural

Ricardo Alfaya

***

COBRANÇA

Estou na marca do pênalti
Pronto pra me apaixonar por ti

Se não me chuta pra fora

Ricardo Alfaya

***

FIRMAMENTO

Quando eu morrer
E virar santo
Entrarei no céu
E me adaptarei
Sem qualquer espanto
Mas por enquanto
O que eu quero
É muita vida
Pouco pranto
E mais que tudo
Corpo desnudo
Ir ao fundo de você

Ricardo Alfaya

***

NOTA DE RODAPÉ

As noites dançam
Conforme a musa
As noites passam
No rodopio dos pés
Balés
Boleros
Músicas curvas
Céus que desabam
Estrelas

Ricardo Alfaya

9 comentários:

Chris Herrmann disse...

Ricardo,

que prazer ler a tua entrevista. Aprendi mais um pouco com sua experiência e sua bondade em compartilhá-la conosco.

"As noites dançam
Conforme a musa
As noites passam
No rodopio dos pés
Balés
Boleros
Músicas curvas
Céus que desabam
Estrelas"

Amei esse poema. Dancei como uma musa e viajei nele como se atingisse as estrelas!

Obrigada a você também, Selmo, por deixar-nos saber mais um pouco sobre esse querido poeta.

Beijos de borboleta e poesia!

Chris

Neusa disse...

Grande ícone da nossa poesia, Ricardo Alfaya nos brinda com sua sensibilidade e concisão poéticas. São poemas que lemos muitas vezes, como deleite e como alimento para a alma.
Parabéns, Ricardo, parabéns Selmo!!!

Ricardo disse...

Caro Selmo,

Grato pela excelente edição de minha entrevista e poemas. Valeu. Também, as mensagens carinhosas aqui encontradas. Ricardo Alfaya.

lau siqueira disse...

Muito boa a entrevista com esse guerreiro que eh o Ricardo Nozarte. Parabens, Selmo. Grande abraço!

Marisa Zanirato disse...

Obrigada, Ricardo por estes frutos maduros, de excelente qualidade, com que você nos presenteia.
Obrigada, Selmo por nos permitir conhecer um pouco mais esse grande poeta.
Abraços aos dois!
Marisa.

Regina Lyra disse...

Selmo,
Sempe é um prazer
visitar esta página.
Agora encontro meu amigo,
o poeta Ricardo Alfaya.
Parabens.
Beijos,
Regina

Ricardo disse...

Cláudio Leal (Cacau), poeta carioca, deixou o seguinte comentário relativo a esta entrevista, na minha página do Orkut:

"Parabéns pela entrevista e obrigado pelos poemas. A gente sempre aprende alguma coisa com as experiências do outro e as suas, tanto em relação à forma quanto ao conteúdo, não deixam por menos.
Avante, amigo! Que sua estrela brilhe sempre!!!
Abração, Cacau Leal"

Vanessa disse...

É com enorme prazer que deixo o meu scrap p/ o amigo Ricardo Alfaya, tenho que lhe contar, que seus poemas, entram em meus ouvidos como música, fica no pensamento; escorrega p/ o coração e anda pela minha alma, como um vinho...Acordar e lêr seus poemas é divino! Parabéns! Que deus te proteja e abençõe sempre esses lindo pensamento.

Vanessa Alfaya

Carmen Regina Dias disse...

Minha nossa!!!
adorável!
leria mil poemas deste poeta
inspirado e lúcido.