sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

MÔNICA DE CATELLA - Entrevista

MÔNICA DE CATELLA


Biografia:

Nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 5 de maio de 1951.
Sou poeta, mãe, mulher contemporânea.
Publiquei 3 livros, escrevi, e escrevo para jornais, sou internauta: criei uma "rádio" no Orkut.
Fui reconhecida, por meio de prêmios, quando ainda tinha paciência para entrar em concursos. Fiz Letras, na UFMG.
Amo a vida, a vida me ama, quase sempre.
Sou feliz.
Canto, toco guitarra, teclado, pinto, faço tecidos em tear, tricô, crochê. Uso as mãos, o coração, o sentimento. Não paro!
Sou servidora federal: uma pequena antítese ao mundo da arte: meu preferido.
Mas, ninguém é perfeito, mesmo.....

(Mônica de Catella)


ENTREVISTA


SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

MÔNICA DE CATELLA - Sou servidora pública federal: Cefet-MG, assistente administrativa, desde 1994. Mas, tenho inúmeros hobbys: música, pintura, artesanato, criação de periquitos australianos. Pratico yoga e kung fu, e sou mística: estudo religiões esotéricas: uma quase-bruxa.


SELMO - Como surgiu seu interesse literário ?

MÔNICA DE CATELLA - Por causa da família. Eu tive dois avós eruditos, que deixaram suas bibliotecas, as quais, desde tenra idade, minha mãe me colocou para organizar.


SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

MÔNICA DE CATELLA - Transanças, 1987, A mulher que Ama, 1997, e Horizonte em Chamas, 2001


SELMO - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários ?

MÔNICA DE CATELLA - Qualquer atmosfera, me traz inspiração, mas prefiro ser inspirada por emoções fortes.


SELMO - Quais os escritores que você admira ?

MÔNICA DE CATELLA - Drummond, Adélia Prado, Machado de Assis, Antônio Barreto, etc..


SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

MÔNICA DE CATELLA - Poesia não é descrever o que você está passando, mas o que o coletivo pode passar, junto com você. Não faça poesia sobre seus problemas: ela é de abrangência universal.


Poesias:


Para Selmo

(Mônica de Catella)

Poeta, teu sonho coletivo é vivo.
Não sonhas só!
Estás no mundo, para fazer brilhar
estrelas trancadas
nas páginas fechadas
dos livros,
com todo sentimento.
No entanto, é tua estrela,
que sobe, mais bela,
rumo ao firmamento.


Destino

(Mônica de Catella)

Sou poeta
Meus olhos,
choram à toa
Meu ritmo
distoa
Me olham
de través.

Sou poeta
Minha pena
não pára
Meu coração
dispara,
vou, onde levam
meus pés.

Sou poeta,
o tempo inteiro.
Reviram meus bolsos,
caem palavras,
só não encontro
dinheiro.



(Mônica de Catella)

Meu preço,
pago em sofrimentos.
Meu ganho, gasto
em poucos momentos.
Minha pena,
é não saber calar
minha pena.

A GIRAFA

(Mônica de Catella)

a girafa,
garganta
de gargalo
de garrafa,
agarra
a folha
da árvore
mais alta
da África.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

RICARDO ALFAYA - Entrevista

RICARDO ALFAYA


RICARDO INGENITO ALFAYA, nome artístico: Ricardo Alfaya, carioca, 55 anos, divorciado, formado em Direito, pela UFRJ e em Comunicação Social, com especialização em Jornalismo, pela Facha. No início dos anos 80, atuou como jornalista para o "Informativo", da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e para o "Perspectiva Universitária" da Fundação Mudes. Trabalhou de 1974 a 1995, no Banco do Brasil S.A., no qual exerceu cargos de Gerência Média, foi Professor de Relações Humanas e corrigiu provas de Redação de concurso. De 1996 a 1998 foi sócio-gerente da Casa de Cultura Nozarte Ltda-ME. De 1998 em diante, passou a atuar como autônomo, em áreas relacionadas ao ensino, à imprensa e à edição e venda de livros. Tem dois livros publicados: "Através da Vidraça", 1982, pela Poeco, São Paulo-SP, poesia e "Sujeito a Objetos", 25 trabalhos inseridos em "Rios, coletânea de poemas", Ibis Libris, 2003, obra que reúne ainda quatro outros poetas: Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta; sob a coordenação e patrocínio de Márcio Catunda. Participou também do movimento de poesia visual e arte postal, com diversos trabalhos expostos no Brasil e no exterior, vários deles incluídos em catálogos das mostras, além de incorporados aos acervos de galerias e museus. Integra 22 antologias, das quais destaca: volumes III, V e VII de Saciedade dos Poetas Vivos, Blocos Editores, Rio de Janeiro, entre 1993 e 1995, sob a coordenação de Leila Míccolis e Urhacy Faustino. Ensaios e poemas diversos em "Literatura, Revista do Escritor Brasileiro", coordenada por Nilto Maciel. Participação em "Globus", organizada por Giovani Campisi, Edizioni Universum, Trento, Itália, 1999. Antologia Poetrix, Scortecci Editora, São Paulo, 2002, organizada por Goulart Gomes, na qual participa com 15 tercetos. Destaca ainda sua presença em "Onze Autores da Web", Ottoni Editora, 2003, organizada por Douglas Lara, da qual participa a convite, com 19 textos minimalistas , reunidos sob o título "Dez Em Cantos Sedutores e Nove Poemas ao Mar". Prefaciou livros para diversos escritores: Joaquim Branco, P.J. Ribeiro, Regina Lyra, Ronaldo Cagiano, Elaine Pauvolid, Fabio Rocha, J. Cardias, José Geraldo Neres, Adriana Zapparoli, Márcia Maia e Sérgio Gônimo. Obteve 22 prêmios literários, ressaltando sua inclusão por Leila Míccolis no projeto Brasil 500 Anos de Poesia, seleção dos mais significativos nomes da poesia brasileira, desde suas origens. Citado, em 1998, na página 05, em revista universitária da "Proler", pelo escritor, crítico literário e doutor em letras Joaquim Branco, no quadro de "Principais Autores", dentre os "poetas e ficcionistas contemporâneos". Vários textos em verso e em prosa, bem como poemas visuais, acham-se publicados em diversos sites literários nacionais e internacionais e se encontram em mais de 70 periódicos do Brasil e do exterior. De 1995 a 2006 foi editor do "Nozarte Informativo Impresso e Eletrônico".


ENTREVISTA

SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

RICARDO ALFAYA - Profissionalmente falando, trabalho com revisão de textos e ministro aulas particulares de português.Tenho também outros projetos em andamento, todos na área cultural.


SELMO - Como surgiu seu interesse literário?

RICARDO ALFAYA - Surgiu realmente muito cedo. Desde criança, livros e revistas foram meu “brinquedo” preferido, uma vez que com cinco anos já sabia ler e escrever. Daí, para começar a brincar com as palavras foi um pulo. Uma das minhas distrações preferidas era construir “cidades” sobre uma mesa gigantesca que meu pai tinha num quarto imenso (naturalmente, falo sob a perspectiva de uma criança). Eu gastava bem umas duas horas construindo a “cidade”. Nela, havia os diversos personagens: soldados e índios de plástico, miniaturas dos heróis e vilões da Disney, imitações reduzidas dos animais de zoológico, etc. Inventava enredos em que aqueles personagens interagiam no cenário da “cidade”. Inspirava-me nos livros e filmes infantis, nos desenhos animados, nas HQs.


SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

RICARDO ALFAYA - A resposta a essa pergunta se acha em minha biografia. Acrescentaria, ao que diz ali, a obra “Frutos da Paixão”, livro de poemas que será inserido em “Vertentes”, no prelo. “Vertentes” é a continuidade do projeto liderado por Márcio Catunda, que, em 2003, deu a lume “Rios, coletânea de poemas”, obra tão bem saudada pela crítica e pela quase totalidade dos escritores que dela tomaram conhecimento. Em “Rios”, participei com “Sujeito a Objetos”. Antes dele, “Através da Vidraça”, também de poesia, de 1982. No entanto, estive presente em inúmeras antologias, tanto em verso quanto em prosa, no Brasil e no exterior. Igualmente produzi trabalhos de poesia visual que tiveram boa repercussão no meio literário. Em suma, esses dados se acham melhor pormenorizados na biografia remetida.


SELMO - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários?

RICARDO ALFAYA - Tenho vivido diferentes fases em minha obra. O que serviu bem a uma certa fase talvez não caísse bem em outra. “Através da Vidraça” foi produzido durante a juventude. Expressa a vontade de poder e justiça social características desse período, que marcou a minha geração. Afinal, foi escrito ao longo do duro regime militar que marcou tanto a minha infância quanto a minha juventude. Depois dos anos 90, já passei a viver outras fases. Embora até hoje mantenha uma forte postura socialmente crítica, o que faço de 1990 a 2000 tem uma preocupação muito grande com a forma, com a estética. Foi a fase em que mais produzi poemas visuais e em que me dediquei a experimentar diversas formas e gêneros de poesia. Aprendia produzindo e produzia aprendendo. Era uma atitude bem característica daquele momento, e não dizia respeito apenas a mim. Vários outros autores viviam essa fase de “experimentação”. De 2000 a 2004, passei a associar poesia com meditação. Surgem os poemas minimalistas, de nítido sabor zen e uma poesia mais conceitual, mais filosófica, da qual resultou “Sujeito a Objetos”. A partir de 2005 volto-me para uma poesia em que o sentimento, sobretudo o de natureza romântica passa a ter um papel cada vez maior e mais relevante. Porém, mesmo nesse exercício há muita ironia, sátira e crítica social. Seja como for, trata-se da fase em que, a meu jeito, mais celebro a vida. Música, amor e dança constituem o tripé de sustentação dessa poética, cujo resultado foi o aludido “Frutos da Paixão”; além dele, mais uma série de poemas que vieram depois. De todas as fases que vivi, esta é a mais indisciplinada. Não me preocupo absolutamente com a questão da quantidade. Não tenho horário certo para escrever, nem faço questão. Isso não me está mais afligindo no momento. Todavia, os poemas periodicamente acontecem, como nos quatro exemplos que lhe enviei. Quase todos sintéticos, nascendo praticamente prontos, necessitando de mínimos ajustes.


SELMO - Quais os escritores que você admira?

RICARDO ALFAYA - Sem demagogia, muitos, muitos mesmo. Há os medalhões consagradíssimos, Machado, Borges, Clarice, Cecília, Dostoievski, Kundera, Adélia Prado, José J. Veiga, Fernando Pessoa, Drummond, Bandeira, Vinícus de Morais, Quintana, Sartre, Isabel Allende, Oscar Wilde, João Cabral, Ignácio Loyola, Humberto Eco, Beckett, Camus, Kafka, Sófocles, Shakespeare, Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Álvaro de Sá, irmãos Campos, Wademir Dias-Pino, William Blake, Baudelaire, Torquato, Roland Barthes, Cruz e Sousa, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski, e tantos outros (e sei que cometi omissões imperdoáveis). Mas, claro, admiro também diversos escritores atuais com quem tenho convivido ou cuja obra conheci. Apenas não citarei nomes porque a lista ficaria imensa e, provavelmente, acabaria por cometer esquecimentos, o que poderia causar melindres.


SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

RICARDO ALFAYA - Que busquem dentro de si uma maneira bem própria e original de se expressar. Que eliminem de seu repertório tudo que virem ter sido já feito anteriormente por outro autor. Na arte somente sobrevive o que for forte, marcante, original, impactante. O resto são fogos de artifício e aplauso fácil que em geral morre bem cedo, enquanto o ator ainda está bem vivo no palco. Outra coisa, que não levem muito a sério os dizeres da "Nota de Pórtico", de Fernando Pessoa, na qual se acha o famoso lema que adotou: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Sem essa. Nada de fazer da vida de vocês “lenha”para essa “fogueira”, que representaria sacrificar a vivência em prol da construção de uma obra, praticamente, em tempo integral. Acima de tudo, vivam. E com paixão, com amor, com intensidade. Colham os eventuais frutos maduros que nascerem dessa
vivência e os distribuam se for o caso. Não se preocupem com fama, sucesso, quantidade; mas com a qualidade da obra, a par, da qualidade da vida.


Abaixo, os quatro trabalhos para publicação. O primeiro lhe é dedicado. O derradeiro, "Nota de Rodapé" estará no meu próximo livro (o que cito na entrevista) e foi também publicado em janeiro deste ano em Poiésis. Os outros dois são inéditos e recentes.


MOMENTO

Para Selmo Vasconcellos

No céu
De Selmo
As luzes são poemas

Na terra
De Vasconcellos
O momento
É pleno movimento
Lítero-cultural

Ricardo Alfaya

***

COBRANÇA

Estou na marca do pênalti
Pronto pra me apaixonar por ti

Se não me chuta pra fora

Ricardo Alfaya

***

FIRMAMENTO

Quando eu morrer
E virar santo
Entrarei no céu
E me adaptarei
Sem qualquer espanto
Mas por enquanto
O que eu quero
É muita vida
Pouco pranto
E mais que tudo
Corpo desnudo
Ir ao fundo de você

Ricardo Alfaya

***

NOTA DE RODAPÉ

As noites dançam
Conforme a musa
As noites passam
No rodopio dos pés
Balés
Boleros
Músicas curvas
Céus que desabam
Estrelas

Ricardo Alfaya

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - Entrevista

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS
PEQUENA BIOGRAFIA

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

Advogado ( Bacharel, pela USP em 1958 ), doutor em Direito, professor, conferencista e escritor. Vários livros publicados e muitos outros em conjunto com renomados escritores e juristas, milhares de trabalhos veiculados sobre direito, economia, filosofia, política, história, literatura, sociologia e música em jornais e revistas nacionais e internacionais, com publicações em todo território brasileiro e nos países da Alemanha, Angola, Argentina, Bulgária, Canadá, Cabo Verde, Espanha, EUA, França, Holanda, Inglaterra, Japão, Portugal, Romênia, Rússia e Taiwan .Centenas de prêmios e diplomas recebidos. Participou e coordenou mais de 500 Congressos e Simpósios, dentro e fora do País sobre direito, economia e política. Presidente e membro de inúmeras entidades jurídicas e literárias. Membro da Galeria dos Grandes Amigos do Lítero Cultural / jornal Alto Madeira de Porto Velho, Rondônia.

Prêmio ESSO do IV Centenário de São Paulo, monografia "A História de São Paulo até 1930" (1954).

Doutor em Direito pela Universidade Mackenzie (1982) com a Tese: "Teoria da Imposição Tributária".

*Professor Honorário da Universidade Austral – Buenos Aires – Argentina (2005).
*“Doctor Honoris Causa” da Universidade de Craiova – Romênia.
*Professor Excelência da Universidade “Vest Vasile Goldis”, Arad/Romênia.
*Professor Honorário da Universidade San Martin de Porres – Lima – Peru (2003).
*Membro da OAP/Portugal, Lisboa (1989/2005).
*Membro Honorário da União dos Juristas Romenos (Bucarest) e do Instituto Romeno-Latino Americano de Estudos Sociais (Craiova);

Presidente do Clube de Poesia (1994/95).
Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Membro-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e do Rio Grande do Norte.
Membro do PEN Clube do Brasil.Membro Honorário da Academia Santista de Letras,2006.Membro da Ordem Nacional dos Escritores, da União Brasileira de Escritores, da Assoc. Nacional dos Escritores.

Acadêmico das: 1- Academia Paulista de Letras (Presidente 2004/2006); 2- Academia Paulista de Letras Jurídicas; 3- Academia Paulista de Direito; 4- Academia Paulista de Educação; 5- Academia Brasileira de Letras Jurídicas; 6- Academia Brasileira de Direito Tributário; 7- Academia Lusíada Ciências, Letras e Artes (Pres.1982/83); 8- Academia Internacional de Direito e Economia (Pres. 1986/88 - 1997/99; Presidente de Honra 2003); 9- Academia Internacional de Cultura Portuguesa (Lisboa) (Correspondente); 10- Academia Mato-grossense de Letras (Correspondente); 11- Academia de Letras da Faculdade de Direito da USP (Honorário); 12- Academia Brasileira de Ciências Políticas e Sociais; 13- Academia Luso-Hispano-Brasileira de Direito; 14- Academia Cristã de Letras (vice-Presidente); 15- Academia Jundiaiense de Letras (patrono); 16- New York Academy of Sciences; 17- Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris (Correspondente); 18- Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas; 19- Academia Brasileira de Direito Constitucional; 20- Academia Paulista de História; 21- Pen Clube; 22- Academia Santista de Letras (membro honor. 2006); 23- Academia Riograndense do Norte de Letras (sócio de honra); 24- Academia Sergipana de Letras (Sócio Correspondente); 25) Academia Brasileira de Filosofia (abril/2008); 26) Academia Brasileira de Direito (Presidência do Conselho Científico).

Tributarista de 1977, Homem de Visão 1987, Prêmio Melhor Conferencista ADESG-SP 1987/88/89.

Títulos de Cidadão Araraquarense, São Manuelense, Pratiano, Rio Grandense do Norte, Natalense/2004, Itapetiningano (2006).

Coordenador do Programa “Caminhos do Direito e da Economia” da Rede Vida de Televisão e da Academia Internacional de Direito e Economia desde 1997.

Produtor e Conferencista do Programa “Conheça a Constituição” da Rede Vida de Televisão e do Centro de Extensão Universitária, desde 2004.

Conselheiro da UNA-BRASIL, delegação da ONU , maio/2006;


ENTREVISTA


SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - De rigor, sou advogado. Meu decálogo do advogado que anexo mostra o quanto me sinto vocacionado para a advocacia, apesar das minhas limitações. Sou também professor de direito e integro diversas academias (27) no Brasil e no exterior, não só de literatura, mas de Direito, Filosofia, História, Cultura, Economia etc. Apesar dos meus 74 anos, atuo nestas áreas, além da advocacia.


SELMO - Como surgiu seu interesse literário ?

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - Meu primeiro interesse foi literário. Meu primeiro soneto eu o compus aos 13 anos em homenagem a Camões de quem li "Os lusíadas" com aquela idade. Segue cópia do meu soneto com as imperfeições próprias de quem não dominava o gênero. E de lá para cá sempre tenho estado às voltas com a literatura.

CAMÕES

Camões, foste da terra portuguesa,
O gênio mais fecundo, na verdade,
Quando pagaste o culto à liberdade
Pela paixão, que mantiveste acesa.

A tua vida, cheia de aspereza,
Consagraste-a, repleto de ansiedade,
Ao serviço da pátria, que a saudade
A fronte recobriu-te de tristeza.

E foste imenso, nos bravios mares,
Já naufrago, salvando dos pesares
Da tempestade, o eterno canto teu,

Em que cantaste, com fervor sagrado,
As glórias do país, que tão amado,
Somente ingratidão te ofereceu.


SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - Entre livros pessoais e em conjunto, já editei no país mais de 300 livros e no exterior mais de uma vintena, em 19 países. Livros pessoais escrevi 79, isto é livros que escrevi sozinho. Estará saindo no mês de Março de 2009 pela MP Editora, um romance que escrevi nos começos da década de 60 intitulado "Um advogado em Brasília". É o primeiro e único.


SELMO - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários ?

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - Escrevo não profissionalmente, nos fins de semana, quando leio e ouço música também. O maior impacto literário é minha mulher, com quem namoro há 55 anos e estou casado há 50 anos. Escrevi-lhe um livro de poemas (600 páginas) intitulado "O livro de Ruth", que é citado na Enciclopédia da Literatura Brasileira escrita por Afrânio Coutinho e editada pela Academia Brasileira de Letras.


SELMO - Quais os escritores que você admira ?

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - Inúmeros. Na poesia, gosto dos parnasianos (Olavo Bilac, Martins Fontes, Vicente de Carvalho e outros), entre os românticos os três gênios (Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Castro Alves), gosto dos poetas da geração de 45 (Geraldo Vidigal, Ciro Pimentel, Domingos Carvalho da Silva), gosto dos poetas paulistas de projeção nacional (Guilherme de Almeida, Paulo Bonfim e Mario Chamie). Paulo e Guilherme sucederam Olavo Bilac como príncipes dos poetas brasileiros. Entre os portugueses admiro Antero de Quental, Fernando Pessoa, Camões e Bocage. No romance, considero Machado insuperável, embora goste de Alencar. Entre os romancistas vivos, Lygia Fagundes Telles é a maior expressão. Apesar de Prêmio Nobel não gosto de Saramago, em quem reconheço, todavia, especial talento. Garcia Lorca, como poeta, e Camus impressionaram-me na juventude, mas é Victor Hugo aquele que mais admiro na literatura francesa. Gosto dos autores russos (Tolstoi, Dostoievsky, Pasternak, Soljenitsin), apesar de seu estilo pesado e histórias recheadas de personagens. Enfim, seria difícil enumerar as minhas preferências, que são muitas.


SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - Que escrevam sempre. Não para impressionar aos outros, mas como necessidade.
Passo-lhe um poema recente que sintetiza um pouco porque escrevo ("Versos de precisão" abaixo).


IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

SONETO PARA SELMO VASCONCELLOS.

Nos longínquos limites do Brasil,
Surge figura em que o talento é manto,
Que no seu gesto impávido e viril,
A beleza difunde a todo o canto.

Nas colunas impressas do jornal,
Traz valores e gentes dos distantes
Rincões deste país continental,
Como jamais houvera em tempos dantes.

Sua pena ultrapassa cordilheiras
E penetra no seio da floresta,
Descortinando sonhos sem fronteiras
E tornando o saber etérea festa.

Ele tem na cultura eternos elos
Sendo seu nome Selmo Vasconcellos.

São Paulo, fevereiro de 2009.


VERSOS DE PRECISÃO.


Eu faço versos porque preciso.
Não busco comover os outros,
Nem busco admiração.

Sinto de tudo em meus versos.

Paixão,
Dor,
Tristeza,
Solidão,
Amor,
Alegria,
Meu Deus, Minha Mãe Imaculada,
Minha amada,
Todos os meus.

E, quando, portanto, trago para fora
Toda a pressão
É porque só me resta este caminho
Do desventrar
As entranhas de minh’alma.

Eu faço versos porque preciso.

Muitos poetas –
Todos os poetas que conheço
São melhores do que eu-
Quando versejam na busca
De um modelo ideal,
Perdem tempo sem limites
Para que a forma saia
Perfeita
e
Para que todos possam admirar
Seu trabalho, seu brilho, seu valor.

Alguns chegam a tornar
A poesia
Tão erudita e tão complexa,
Que nem mesmo
Uma tábua de logaritmos bastaria
Para o intérprete interpretá-la.

É que para eles
O poeta não necessita ser compreendido,
Mas apenas
Exaltado.

E fazem versos para o mundo.

Eu, não.
Eu faço versos para mim.
E faço versos porque preciso,
Porque se não eu me sufoco,
Fico explosivo,
Sem saídas, sem estradas, sem destino.

Por isto, minha amada
Sempre os recebe
Como versos do tempo e da saudade,
Como versos de agora e do futuro,
Estes versos que se
transformam
No alento que me resta
De meus sonhos.

Decididamente,
Eu não faço versos para os outros,
Nem mesmo quando os faço
Para Deus, para a família e para a amada.

Eu faço versos
PORQUE PRECISO.

16/12/2007.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

CHRIS HERRMANN - Entrevista

CHRIS HERRMANN

Leila Míccolis e Chris Herrmann - na casa da Leila em Maricá/RJ - Outubro de 2006

CHRISTINA MAGALHÃES HERRMANN [Chris Herrmann] - Carioca da gema, nasceu e cresceu no Rio de Janeiro.

Cursou Letras [Literatura] na UFRJ, parcialmente filosofia e teologia na FACEN e cursou também Administração Básica na Fundação Getúlio Vargas e Propaganda & Marketing na ESPM. Estudou piano e teoria musical no Conservatório Brasileiro de Música [RJ].

Já compôs músicas, é poeta, já participou de diversas antologias, dentro e fora do Brasil, como EUA e Espanha.

Além disso, tem atuado na organização e divulgação de antologias e outros eventos literários.

Trabalhou no Rio como secretária executiva bilíngüe e tradutora. Mudou-se para a Alemanha em 1996 onde, com sua família alemã, vive até hoje.

Na Alemanha vem trabalhando com traduções e, atualmente, como web & graphic designer, mantém blogues de poemas, e escreve para a coluna 'Orkultural' de Blocos Online.

No Orkut, fundou comunidades de sucesso onde incluem entrevistas online e diversos projetos culturais; entre elas o Café Filosófico 'Das Quatro', a Sociedade dos Pássaros-Poetas e a Trovadores Noturnos - estas três com antologias em parceria com o Congresso Brasileiro de Poesia em 2006 e 2007, e a Orkultural, em parceria com Blocos Online e ligada à sua coluna homônima.

* Nomeada desde Novembro de 2007 Consulesa do Movimento "Poetas del Mundo " em Düsseldorf/Alemanha.

Portal ChristinaHerrmann.com
www.christinaherrmann.com

ENTREVISTA

A atriz Maria Ceiça, Chris e a cantora Ilka Vilardo, Rio 25/10/2007 - Show em homenagem à Chris Herrmann

SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

CHRIS - Trabalho também como webdesigner e tradutora


SELMO - Como surgiu seu interesse literário ?

CHRIS - Tinha a compulsão de escrever desde criança. Adorava recitar versos e já compunha alguns. Além disso, estudava piano no Conservatório Brasileiro de Música no Rio de Janeiro e comecei a compor música com a idade de 12 anos.


SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

CHRIS - Muitas antologias poéticas no Brasil, Estados Unidos e Espanha.
Cinco no Brasil foram em parceria com o Congresso Brasileiro de Poesia (2006 e 2007), com lançamento em Bento Gonçalves/RS. Algumas antologias virtuais (como Saciedade dos Poetas Vivos Digitais de Blocos Online, esta de Selmo Vasconcellos e outras). Em breve, lançarei uma antologia de haicais, que se chamará "Vôo de Borboletas".


SELMO - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários ?

CHRIS - Não há uma específica. Pode acontecer na rua, observando pessoas, objetos, natureza, dentro de casa, olhando para dentro de mim mesma...


SELMO - Quais os escritores que você admira ?

CHRIS - São tantos que não caberia neste espaço... mas listarei um pequeno grupo de autores que me impressionam positivamente até hoje, incluindo alguns amigos poetas contemporâneos, que muito contribuem e trabalham para a Cultura em nosso país: Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, Paulo Leminski, Basho, Nietzche, Omar Khayyam, George Orwell, Leila Míccolis, Valéria Tarelho, Solange Firmino, Selmo Vasconcellos, Antonio Mariano Lima, Hugo Pontes, Ademir Antonio Bacca, Luciana Pessanha Pires, Frederico Barbosa, Andréa Motta, e os casais Clauky & Gustavo Saba e Denizis & Cairo Trindade.


SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

CHRIS - Ler bastante (temas diversos), estudar e pesquisar sobre literatura (para compreender as várias correntes e tendências da poesia) e, claro, abraçar o universo da nossa língua portuguesa.

Chris Herrmann, Ademir Antonio Bacca, Thelma da Costa e Andréa Motta no lançamento da antologia POESIA DO BRASIL Vol. 6 - XV Congresso Brasileiro de Poesia - Bento Gonçalves/RS

Um Haicai para o amigo Selmo Vasconcellos

Chris Herrmann

Folhas literais,
incentivo aos escritores
: Selmo Vasconcellos


TANKA I

Chris Herrmann

Voa passarinho,
vento o livre de mansinho
do peso do homem.

Arranha-céus não conseguem
concretizar as estrelas.


POESILUA

Chris Herrmann

po-e-si-lua
fase clara
a mingo
ante o
cresce
mento
meio
cheia
meio
tua

semi
nu a
frase
ende
a pre
ende
hino
sente
gira
muda

O MAR E A MONTANHA

Eu sou o mar.
Por vezes sou rio
e deságuo no mundo,
percorro alegrias e mágoas.
Plural e natural que sou,
mato a sede do momento.
Ouço lamentos, alimento vidas,
Sou barulho e movimento.
E quem és tu, oh rocha fria
que te escondes sem pressa
e vives presa em teu silêncio?

Eu sou a montanha.
Por vezes dura ou mansa,
sou as marcas do tempo.
Massa densa que acoberta,
enriquece e dá o alento.
Sou abrigo para ti e para o vento
(vós que me visitais diariamente)
transformando-me por dentro.
Interior é meu movimento;
alma cristalizada de seres,
sementes, fúrias e medos.
E se me calo, caro mar,
é porque guardo em mim
- incluindo os teus - os mais
'cicatresloucados' segredos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ANDERSON BRAGA HORTA - Entrevista

ANDERSON BRAGA HORTA


Nasci em Carangola, MG, em 17.11.1934, filho de Anderson de Araújo Horta e Maria Braga Horta. A família morou, sucessivamente, em Manhumirim, Belo Horizonte, novamente em Manhumirim, depois em Resplendor, Mutum, outra vez em Carangola, já acrescida dos manos Arlyson, Augusto Flávio e Maria da Glória. Em 1942 fomos para Goiás, passando três anos na antiga e dois na nova capital do Estado. Em Goiás Velho nasceu o caçula, Goiano.

De volta a Minas, novo périplo em redor de Manhumirim, onde residiam meus avós maternos: Aimorés, Mantena, Lajinha, cidades que visitava nas férias, pois, tendo começado o ginásio em Goiânia, fiz, nesse período (de 1947 a 1953), as três últimas séries em Manhumirim e o clássico em Leopoldina. Já me encontrava no Rio de Janeiro, cursando Direito, quando para lá se mudou a família, em 1956.

Transferi-me para Brasília em julho de 1960, como redator da Câmara dos Deputados, a cujo serviço fora admitido em 1957 como datilógrafo. Os irmãos foram também atraídos pelo Planalto Central, a que finalmente aportaram os pais, em 15.11. 1964.

Exerci ainda o jornalismo e o magistério, tanto no Rio quanto em Brasília. Meu primeiro trabalho, contudo, foi como securitário, na Velha Capital, a não ser pelos meses em que lecionei no Seminário de Leopoldina, cidade em que prestei, após o curso clássico, o serviço militar (tiro-de-guerra).

Já radicado em Brasília, casei-me no Rio, em 1962, com a capixaba (de Cachoeiro do Itapemirim) Célia Santos. No ano seguinte nasceram os gêmeos, brasilienses, Marília e Anderson. Este e Janete Ferreira Horta nos dariam, em 1998. uma netinha, Fernanda.
Meus pais aqui faleceram, mamãe em 1980, papai cinco anos depois. Augusto Flávio os seguiria em 2007.


ENTREVISTA


SELMO – Quais as suas outras atividades, além de escrever?

ANDERSON BRAGA HORTA – Menino, comecei a me interessar por desenho. Desenhava em toda parte: em pedaços de papel, na areia da rua (em Goiânia, onde morava nessa época, depois em Manhumirim, MG)... Influência das histórias em quadrinhos, que eu devorava, sem prejuízo de adorar os livros para crianças de Monteiro Lobato e de ler tudo o que me viesse às mãos. Cheguei a redigir e desenhar, na conformidade dos modelos que consumia, uma dessas historinhas.
Que mais? Fui professor e securitário, trabalhei em jornal, diplomei-me em Direito, fiz o primeiro vestibular da Universidade de Brasília, onde iniciei (e não concluí) o Curso de Letras Brasileiras. Ainda no Rio de Janeiro, entrei para o serviço da Câmara dos Deputados, do qual me aposentei há vários anos.


SELMO - Como surgiu seu interesse literário?

ANDERSON BRAGA HORTA - Meus pais eram professores e poetas, de modo que os livros eram presença marcante em nossa casa. Descobri que também queria escrever quando mergulhei no Tesouro da Juventude, nos seus diversos volumes de variadíssimos textos em prosa e em verso, principalmente quando li pela primeira vez o Navio Negreiro, de Castro Alves. Isso foi um pouco antes dos 15 anos. Desde então venho mantendo a chama.


SELMO – Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País?

ANDERSON BRAGA HORTA – Publiquei quinze livros de poesia, dentre os quais destaco: Altiplano e Outros Poemas, Exercícios de Homem, Cronoscópio, O Pássaro no Aquário, Fragmentos da Paixão: Poemas Reunidos, Antologia Pessoal e 50 Poemas Escolhidos pelo Autor; cinco de ensaios: A Aventura Espiritual de Álvares de Azevedo, Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília, Traduzir Poesia (com grande número de traduções), Testemunho & Participação e Criadores de Mantras; e acabo de dar a lume (pela Thesaurus, de Brasília) os contos de Pulso Instantâneo. Se computar as obras em parceria, as traduções e outras, esse número mais do que dobraria. Mas foi tudo editado em nosso país; no exterior, a mencionar apenas algumas antologias de que participo.


SELMO – Qual a atmosfera propícia aos seus impactos literários?

ANDERSON BRAGA HORTA – Paz e concentração. Talvez por isso, prefiro escrever à noite.


SELMO – Quais os escritores que você admira?

ANDERSON BRAGA HORTA – São tantos que não dá para enumerar. Limito-me aos que mais entranhadamente me influenciaram, já na condição de modelos a imitar, nas diversas fases de meu aprendizado, já como objetos de desinteressada admiração. E avultam, no primeiro caso, os nomes de nossos grandes românticos, mas ainda os de alguns parnasianos e simbolistas, seguidos de uma plêiade de modernistas. Para exemplificar o segundo caso, impõe-se o de Machado de Assis. Dentre os portugueses, lembro Camões, Antero, Pessoa... Também, é claro, poderia arrolar nomes de outras literaturas, e dos contemporâneos há muitos que engrossariam a lista. Mas bastam os mencionados para testemunhar o espectro de minha formação e a recusa de radicalismos de escola em meu universo literário (e vital, acrescento).


SELMO – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

ANDERSON BRAGA HORTA – Diria que, se é verdade que a poesia tem por finalidade satisfazer um dos aspectos da necessidade espiritual, conquistada pelo Homem, de atingir ou realizar o belo; se tem sentido dizer que o poema é uma espécie de mantra, ou a palavra mágica pela qual nos pomos em comunicação com as esferas do indizíve”, ou que a poesia é a arte de tentar a fusão, na palavra, de pensamento e emoção, visando ao homem total, à realidade total, como decantação da humanidade presente e prospecção da humanidade futura, vale a pena atender ao seu chamamento e engajar-se nessa luta (que é aparentemente vã, e é sem fim, como diz o poema de Drummond), independentemente de qualquer eventual sucesso mundano.

Condensando esta jornada inconclusa, compus o seguinte soneto, que lhe ofereço cordialmente:


PÉRIPLO

A Selmo Vasconcellos

Nasci na região mais alta e fria
de Minas, entre as serras e a neblina.
Meus pais eram poetas: foi-me a sina
ter no Poema a minha estrela-guia.

De Minas a Goiás, depois ao Rio,
um périplo cumpri, cumprindo o fado;
mas, o leme nas mãos enfim tomado,
em Brasília ancorei o meu navio.

Entre zelos de esposa, filhos, neta,
entre amigos e irmãos, bendigo a via
que nos conduz à inevitável meta.

E o sentido da vida se alumia
ao sol do amor, que amor é quem completa
a dádiva sublime da poesia.

Brasília, 9 de fevereiro de 2009

***

NÓS, O HOMEM

Mineiro noturno, escavo
minhas minas de angústia.
Uma luz na testa –
um caminho, antolhos, parede de pedra.
Uno e múltiplo,
solidário e solitário, respiro
pó e treva. E esperança.
Escavo a terra,
mas de mim mesmo extraio as minhas gemas.
Elas brilham no escuro,
iluminam meus medos e meus tédios,
minha força e minha fé.
Ajo e contemplo-me.
Escavo, escravo : de antever-me
lavado em névoas matutinas.
E vou, retórico e despido,
a caminho de mim.



INVENÇÃO DA NOITE

Deste silêncio e desta treva
construo a minha noite
particular e intransferível.
Não preciso inventar as estrelas,
elas nascem e brilham por si mesmas.
E à meia-noite uma lua triste
Levanta a cara de prata no horizonte
e verte nos meus olhos um choro, um frio.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA - Entrevista

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

Emanuel Medeiros Vieira nasceu em Florianópolis, SC, em 1945. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do SUL- UFRGS, 1969.
Morou em Porto Alegre e São Paulo.

Reside há 30 anos em Brasília. É funcionário de carreira da Câmara dos Deputados.
Foi vendedor de livros, professor, jornalista, crítico de cinema, editor e redator de discursos parlamentares.

Tem 19 livros publicados e um romance no prelo.

Participou de mais de 50 antologias de contos, poemas e crônicas.

O segundo e o terceiro volume de suas memórias - "Cerrado Desterro" - serão publicados em breve.

Emanuel já foi contemplado com inúmeros prêmios literários.

Recebeu o primeiro premio literário aos 21 anos, em 1966, em concurso patrocinado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRGS.

Foi contemplado com o Troféu Candango de Literatura, promovido pelo Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, pela sua novela a "Revolução dos Ricos".

Recebeu O Prêmio Othon Gama D'Eça, da Academia Catarinense de Letras, pelo livro de contos "Os Hippies Envelhecidos".

Uma das maiores láureas que recebeu foi o "Prêmio Brasília de Literatura", concorrendo com centenas de autores de todos o Brasil, patrocinado pela Fundação Cultural do DF, pelo livro de contos "Tremores."

Sua obra foi analisada e elogiada, entreoutros, por Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Mário Quintana, Caio Fernando Abreu, Moacyr Scliar, Deonísio da Silva, Antonio Hohlfeldt, Ronaldo Cagiano, Anderson Braga Horta, Léo Gilson Ribeiro, Afrânio Coutinho, Hélio Pólvora, Antônio Olinto, Carlos Appel, Rubem Mauro Machado, Paulo Leminski, Alcides Buss, Salim Miguel, Flávio Cardozo, Silveira de Souza, Lourenço Cazarré e Assis Brasil.
Sua obra foi tema de dissertação de Mestrado na UFSC-Universidade Federal de Santa Catarina.


ENTREVISTA


SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

EMANUEL - Trabalho também como jornalista.
Fui vendedor de livros (também fundei cine-clubes e fui dirigente estudantil), crítico de cinema, professor, redator de discursos parlamentares durante mais de 10 anos, editor, funcionário público.
Sou também formado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 1969. Mas optei pelas letras.


SELMO - Como surgiu seu interesse literário ?

EMANUEL - Desde o curso primário. O que sempre amei foi ler e escrever.
Lia tudo. Li muito. Escrevi histórias. Meu primeiro romance foi escrito antes dos 18 anos.


SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

EMANUEL - Publiquei 19 (dezenove livros). O vigésimo - um romance - já está em fase de edição. Em breve, estará na rua.

Como o segundo e o terceiro volume de minhas memórias (já escritas), "Cerrado Desterro."
Participei de antologias no Canadá e minha novela "A Revolução dos Ricos" foi traduzida para o inglês.


SELMO - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários ?

EMANUEL - Qualquer ambiente, visão - minha literatura é muito "cinematográfica" - pode me tocar. Um olhar de uma moça na parada de ônibus, o jeito de algum passante, o canto de um pássaro. Conseguia trabalhar com mais ruído: hoje prefiro o silêncio.
Escrevo todos os dias, todos.


SELMO - Quais os escritores que você admira ?

EMANUEL - Admiro muitos. Influências ou confluências?
Modéstia à parte, ajudado pela atmosfera familiar - meus pais liam muitos, meus irmãos e irmãs também-, e pela formação em colégios jesuítas do Sul, li bastante. O bem que mais valorizo é a minha biblioteca.

Meu pai sempre me dizia que o único bem que não podem nos roubar é o conhecimento. Esse ninguém tira da gente.

Autores? São tantos. Releio Machado todos os anos.

Me toca muito a literatura de Doistoievski, Kafka e Camus.


SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

EMANUEL - Nunca gostei dos conselhos "oficiais".

Cada escritor terá que escolher o seu caminho. E não desistir. Lutar com fibra, garra e paixão.
Acreditar na inspiração. Mas nunca esquecer da "transpiração". Do trabalho constante. Cortar, enxugar, lapidar. E ler, ler muito.

Precisamos de escritores bem formados, bem preparados, não carentes de leituras básicas.


EMIGRADOS

POEMA de EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

PARA SELMO VASCONCELLOS

Emigrados:
seremos sempre,
emigrados

Em busca de outro mar,
da última ilha,
seguindo os pássaros,
atrás do último pássaro.

De um mar a outro,
de uma ilha à outra ilha,
e, então, dormiremos,
uma noite sucedendo-se à outra.

***

AGREGAR

Não Matarás”: não basta.
Teu mandamento será este: farás tudo para que o outro viva.
É vero sim o que quero:
não me importa o estoque de teu capital, Brasil,
mas tua capacidade de: amar
lavrar
aspirar
compreender.

Esse estatuto de miséria não é o nosso,
e a tecnologia da última geração não me sacia:
meu coração navegador quer mais.
A Ética – cuspida, debochada, no reino do simulacro,
Virou produto supérfluo porque não tem valor contábil.

Tempo dessacralizado e sem utopia:
a esperança é um cavalo cansado?
A aventura acabou no mundo?
Seremos apenas meros grãos de areia na imensa praia global?
Habitantes de um mundo virtual neste mercado sem cara?
Soará pomposo, eu sei:
não deixemos que nos amputem a alma
(e que acolhamos o outro).
Ser gente: não mera massa abúlica, informe, com os olhos colados
no retângulo luminoso de todas as noites.
O tempo é apenas dos alpinistas sociais?
Sou bom porque apareço, não apareço porque sou bom.

Na internet a solidão é planetária.,
mas do abismo – fragmento – irrompe um menino eterno,
e sentes o cheiro de uma manhã fundadora.
(A Morada do Ser é mais importante que o poder/glória.)

E o poema resiste,
singra a eternidade,
despista a morte,
seu estatuto não é mercantil.

Já não esqueces o essencial:
Na estrada de pó e de esperança, acolhes o outro.

*Este texto obteve o Primeiro Lugar no Concurso Nacional de Poemas,
promovido pela Associação de Cultura Luso-Brasileira, de Juiz de Fora,
Minas Gerais, sendo contemplado com a Medalha de Ouro “Jacy
Thomaz Ribeiro.”
O tema do concurso foi “Solidariedade: Por um Mundo Melhor”.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

LAU SIQUEIRA - Entrevista

LAU SIQUEIRA
Lau com as filhas Mariana e Mayra


Lau Siqueira nasceu em Jaguarão, Rio Grande do Sul, no dia 21 de março de 1957. Dia Internacional da Poesia. Há 23 anos reside em João Pessoa, onde possui duas filhas e uma neta. Mantém dois blogs, o Poesia Sim: www.poesia-sim-poesia.blogspot.com e o Bastidores do Parto, www.lausiqueira.blogspot.com e é colunista do portal literário Cronópios www.cronopios.com.br.


ENTREVISTA
Lau com os amigos Antônio Barros e Cecéu, autores de sucessos como “Homem com H”, “Procurando tu”, “Bate Coração” e tantos outros.


SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

LAU - Praticamente a minha vida literária acompanhou a minha experiência na labuta. Trabalho desde os 15 anos e, praticamente, nesta época consolidei a literatura como o principal vetor profissional da minha vida. Ainda que nunca tenha conseguido viver da literatura. Trabalhei muito tempo como assessor de comunicação sindical e de um tempo para cá venho desenvolvendo trabalhos no serviço público, sempre a convite. Até o ano passado eu estava na área cultural e hoje no desenvolvimento social.


SELMO - Como surgiu seu interesse literário ?

LAU - Desde antes da alfabetização fui muito estimulado em casa. E foi justamente uma das minhas leituras juvenis que me iniciou na escrita. Inicialmente, sem sequer pensar em poesia. Depois, sem pensar em criar em outro gênero que não seja a poesia. Foi imitando um personagem de um livro que acabei me tornando escritor. O interesse pela leitura foi, portanto, determinante até mesmo na minha formação cidadã.


SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

LAU - Tenho quatro livros publicados. O Comício das Veias (1993), O guardador de sorrisos (1998), Sem meias palavras (2002) e Texto sentido (2007). Também participei de algumas antologias, como "Na virada do século – poesia de invenção no Brasil (Ed. Landy-SP) e a Eispoesia, que foi uma coletânea de poetas de países Língua Portuguesa lançada em Coimbra, Portugal, em 1999. Esse livro fez parte das comemorações do centenário de nascimento do poeta português, José Régio. Este ano, provavelmente, será publicada a antologia bilíngüe "Los trazos de pandora", em Buenos Aires. Sempre tenho poemas publicados no Livro da Tribo (Editora Tribo-SP) e por aí vai.


SELMO - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários ?

LAU - Essa atmosfera obedece uma disciplina rigorosa. Escrevo praticamente todos os dias. Ou melhor: praticamente todos os dias eu experimento escrever um poema. Eu lanço permanentemente provocações pra mim mesmo. Infelizmente nem sempre a atmosfera interior, que é determinante, contribui. Mas, eu insisto no suor. Poesia é, sobretudo, trabalho com a linguagem. Sou um ser em permanente ebulição, em permanente inquietação. Tanto em relação à literatura quanto em relação à vida.


SELMO - Quais os escritores que você admira ?


LAU - Vários. Vou citar apenas alguns: Ezra Pound, Mallarmé, Bandeira, Pessoa, Quintana, Drummond, Maiakovski, Leminski, Kaváfis, Hopkins, Dante, Morin, Bachelard, Umberto Eco, Li Pó, Baudelaire, Ginsberg, Cacaso, Caio Fernando Abreu, Virgílio, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Augusto de Campos, José Paulo Paes, João Cabral, Octavio Paz, Borges, Lezama Lima, Sarduy, Lorca, Mário Faustino, Galeano e muitos outros.


SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

LAU - Leiam muito e experimentem sempre. Não tenham medo do ridículo. Escrever é sempre um risco. Leiam mais ainda. Leiam muito mais e leiam sempre. Sejam abertos às influências, mas não se permitam contaminar. E, principalmente, duvidem muito do que estou dizendo. Leiam, leiam, leiam... escrevam!


POESIA

balada para o amigo

selmo vasconcellos

existem palavras guardadas
palavras seladas n'alma

palavras não ditas em
entonações destiladas na desdita

no devaneio das luas antigas

colagens que me transportam
ao abrigo dos rincões de
um país inteiro de vontades
exclusas e certezas mudas

através dos anos
cortei estradas para chegar num
porto velho e descer pelas ondas
afluentes do rio madeira

empunhando versos
colhidos dum horizonte incerto

simulando poemas cerzidos
na margem de um pampa
arrastado comigo até a paraíba

então fui subindo
nadando contra as correntes

até chegar nas cordilheiras

como uma jaguatirica que
não permite estragos no manto
invisível da perenidade

no que seja fome de identidade

seja na flor de maracujá
no boi-bumbá
na banda do vai quem quer

em tudo que nos devora
e mais ainda na guerrilha literal
de um país que se permite ao
esquecimento

(e em tudo isso tive o amparo
na pertinência da luta
do nosso mano selmo)

- corrente como o rio madeira
afluente de palavras brasileiras

onde pássaros perdidos pousam
e guardam o repouso de vôos
em extinção

farejando o que some na floresta
na busca dos rincões
desfalecidos

como um cipó de aroeira
que resiste ao desmando dos
homens

distúrbio
de uma história que não
deixará de ser escrita

para uma memória
brasileira destituída de suas
verdades

vertentes das folhas de um pé
de laranja-lima

sentidos que sustentam o clima
num planeta que esgrima
com a sorte

num país cuja cultura
arma suas tocaias num
cotidiano de lutas

contra a morte

lau siqueira – paraíba, 01/02/09
09h20min
**
razão
nenhuma

o que escrevo
é apenas parte
do que sinto

a outra parte
finjo que minto
e acredito
***
Poesia extraído do livro “texto sentido”Edições Bagaço, Recife, PE, 2007.


Escala

Às vezes, quando estou de um jeito
que nem mais a tristeza incomoda
penso que minh’alma é uma escada.

Então vou subindo, palavra por
palavra... Separando as sílabas
conforme a capacidade de
armazenagem dos meus bolsos. Até
que a poesia acena para mim de
alguma janela.

E depois some como o vôo que fica na memória
tamanha a beleza do pássaro.