sexta-feira, 30 de outubro de 2009

RONALDO CAGIANO - Entrevista

RONALDO CAGIANO

Eu, minha esposa (escritora Eltânia André), e meus filhos Murillo e Rebecca, na data do meu casamento em 1/8/09, em Cataguases.

Ronaldo Cagiano, nasceu em Cataguases, MG. Diplomado em Direito. É escritor, ensaísta e crítico literário.
Viveu em Brasília de 1979 até recentemente, quando se transferiu definitivamente para São Paulo. Trabalha na Caixa Econômica Federal desde 1982. Cagiano publica em diversos jornais e revistas do país e do exterior, dentre os quais Jornal do Brasil, Hoje em Dia, Jornal de Brasília, Correio Braziliense e revista Cult. Obteve o primeiro lugar no concurso Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com o livro de contos Dezembro indigesto. Organizou as coletâneas Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, Brasília, 2001), Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, Brasília, 2001) e Todas as Gerações - O Conto Brasioliense Contemporâneo (LGE Editora, Brasília, 2006).


ENTREVISTA

No túmulo de Proust, no cemitério Père Lachaise, em Paris.

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

RONALDO CAGIANO - Sou funcionário da CAIXA há 28 anos e também advogado (profissão que exerci autonomamente por muito tempo, mas que abandonei por absoluta incompatibilidade de tempo e ideológica, pois minha praia é a literatura, não os tribunais).


SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

RONALDO CAGIANO - Desde a mais tenra infância. Eu sempre detestei futebol e religião, então, como nada disso nunca me deu prazer ou satisfação, foi na leitura de livros e jornais que encontrei farol, lição, exemplo, refúgio e fortaleza. Minha fé está na ficção e na poesia. A literatura é meu único evangelho e ele não me impõe um deus único e soberano, porque todos os dias crio meus próprios deuses e ergo para eles um novo altar: Machado, Rosa, Clarice, Lygia, Camus, Tolstoi, Kafka, Graciliano, Drummond, Bandeira etc. Meu céu é povoado de tantos deuses e com eles me entendo a cada momento. E com o tempo só esse caminho me levava a alguma verdade. Tanto que assimilei integralmente uma profunda mensagem de Kafka: "Tudo que não é literatura me aborrece".


SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

RONALDO CAGIANO - Publiquei ao longo dos anos alguns livros de poesia e prosa e algumas antologias que organizei, além de participar de algumas antologias nacionais e estrangeiras. São eles:

Palavra Engajada (poesia, SP, 1989)

Colheita Amarga & Outras Angústias (poesia, SP, 1990)

Exílio (poesia, SP, 1990)

Palavracesa (poesia, Ed. Cataguases, Brasília, 1994)

O Prazer da Leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos juvenis, Ed. Thesausus, Brasília 1997)

Prismas – Literatura e Outros Temas (crítica literária, Ed. Thesaurus, Brasília, 1997)

Canção dentro da noite (poesia, Ed. Thesaurus, Brasília, 1999)

Espelho, espelho meu (infanto-juvenil, em parceria com Joilson Portocalvo, Ed. Thesaurus, Brasília, 2000).

Poetas mineiros em Brasília (antologia, organizador, Varanda Edições, Brasília, 2001)

Dezembro indigesto (Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária de 2001 da Sec. de Cultura do DF)

Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, 2004, organizador).

Concerto para arranha-céus (contos, LGE Editora, Brasília 2004)

Todas as Gerações – O conto brasiliense contemporâneo (LGE Editora, Brasília, 2006, organizador)

Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)


SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

RONALDO CAGIANO - A realidade quotidiana e minha experiência pessoal (afetiva, psicológica, geográfica, íntima, histórica e cultural) sempre são fonte de matéria e circunstância para minha criação literária. Nada me escapa, seja uma lembrança do passado, um fato inusitado da vida presente ou o inconsciente coletivo.Há sempre o que (re)colher dessa trajetória que percorremos. E muitas vezes a verdade nua e crua da vida é mais inusitada que a ficção.


SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

RONALDO CAGIANO - Há aqueles escritores que são recorrentes leituras. Não digo influência, porque isso seria demasiada presunção, mas sempre volto a escritores cujas obras são primordiais em minha vida, como Camus, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Bandeira, Pessoa, Faulkner. Eles são a minha maior janela. Eles me mostram que quando a vida se torna insuportável, é pelas suas páginas que a arte ajuda-nos a aguentar e fazer a necessária catarse de nossos dilemas contemporâneos, de nossas inquietações e mergulhos existenciais.


SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

RONALDO CAGIANO - Que a literatura não muda o mundo, mas nos ajuda a refletir sobre eles e tentar tornar menos penosa nossa trajetória. Mas, é capaz de mudar as pessoas, porque a literatura deve representar para quem escreve e para quem lê, além do compromisso estético, um compromisso ético. E assim, se puder mudar um pouco as pessoas, sua visão de mundo, impor um novo olhar sobre o que está ao redor, aí creio que as coisas podem também ser transformadas pelo caráter cirúrgico de um poema ou de um conto ou romance. Fica aqui uma reflexão, a partir do que disse Borges: "A literatura é revanche de ordem mental contra o caos do mundo." Que essa dimensão de toda palavra seja o verdadeiro eco em nossas consciências criativas, despertando sempre no escritor um senso de responsabilidade estética, pois ele sempre deve ir fundo, doa a quem (e o que) doer.


POEMAS

Com o escritor Alaor Barbosa, às margens do rio Zuyandé, em Isfahan, Irã.

Diante de um quadro de Di Carrara

Deito-me no quadro
- e sonho.
Cassiano Nunes


Quando a cidade dorme diante da beleza,
contemplo o que é humano
e indivisível.

Há um verso clamando nos teares noturnos
das tecelagens de Cataguases,
como uma gota de sangue
nas galochas dos operários que desviam da enxurrada
e um feixe de espantos na falta de censura à miséria.

Há poesia em tudo,
porque a nudez das coisas
traz em si uma raiz serena de cumplicidade
com o mundo e seu destino.

Esses meninos esquálidos
que freqüentam as ruas menos que os nossos corações
compõem o quadro mais que habitam a vida
e eu vou contemplando a suspeita jornada
das pessoas corretas e detidas em seu dia-a-dia,
enquanto o cemitério contabiliza perdas
e a rodoviária em frente nos dá lições de ausência.

Esses corpos escassos que me inquirem da tela
falam do imponderável, vão além do amor
e aqui fora
mar insuspeito de indigências
viceja a tristeza ofensiva do destino coletivo.

O artista escreve outra vez
um Natal impossível
mas que renasce
nos olhos dessa infância entre espinhos
dos que ainda acreditam
na transformação do betume em rosa,
cristal sem rugas garimpado na sarjeta.


RESIDÊNCIA PROVISÓRIA

para Eltânia André

Viajei mundos,
mas ainda não me (re)conheço:
duro é o trajeto por dentro.

Registro de um percurso inacabado.

As solas intactas dos sapatos
resumem o muito que não andei.

O cansaço de existir
interdita o reconhecimento
do futuro.

Escravo da solidão eletrônica
nessa era de pastores mercenários
(mascates da salvação improvável)
em quantos me divido
para me tornar inteiro?

Quantos deuses hão de morrer
para ressuscitar o Deus que tantos, em vão,
procuram nos shoppings centers de uma fé inócua?

As fotos na parede me desmentem:
esse rio que me leva,
cemitério de anzóis,
sabe mais do que não viu.

A pele da solidão não envelhece
– inúteis as plásticas –
nenhum bisturi
reduzirá o seu império,

e ela reverberando pelos cantos
seu canto de cisne da inutilidade existencial.

Até quando conseguirei unir as margens do abismo?


Exílios

para Armin Mobarak
A cidade se perde em seus próprios labirintos:
pelas serpentes de pedra e asfalto
corre fatigado um rio de animais metálicos.
Não há mais lugar para os homens,
perdidos na noite súbita.

Anônimos, como areia na ampulheta,
vamos em busca da utópica Pasargada.
enquanto a história nos atravessa como um raio.
Como um ventre,
a metrópole oriental guarda o desconhecido
e na sua intangível solidão geométrica
exilo-me nos labirintos dos bazares
onde florescem catedrais de ausências
e escorre um fluxo divergente de homens e mulheres
sem notícias do outro lado do mundo.
O tempo, enxame de bactéria a nos roer,
me levou a mundos que sonhei um dia:
De Cataguases a Isfahan
de Brasilia a Teerã,
quanto de mim vai ficando nesses caminhos
com sua orfandade de margens.

Quando contemplo
os picos nevados das montanhas Alborz
ou reivindico os longes caminhos de Persépolis, Shiraz e Burujerd
os barcos da infância,
que lancei no rio Pomba rumo ao insondável,
ressuscitam nas águas do Zuyandé,
prisioneiros do vento, cativos da geografia.


O ritmo das coisas

Quanto de nós é o que não somos?
Ésio Macedo Ribeiro

O sol aceso em meus olhos
fere a estrangeira gestação dos vazios.

Há tempo demais nos relógios da cidade:
eternidade com seus cupins de aço
varando nossas entranhas
para o triunfo do imponderável.

Estamos purgando a existência
com esses ponteiros insolentes
condenando-nos a um destino de fadigas
ou a nenhum registro nos obituários.

Pedra dentro do tempo,
a morte, como a mó,
impõe o ritmo das coisas:
pacientemente nos esfarinha,
grãos de nada num pomar de bactérias.


GÊNESE

Busco na palavra sua unção,
labirinto de paradoxos
em que mergulho
como escafandrista a garimpar (im)possibilidades.

Território de invenções,
ela me estende a ponte
entre o sagrado
e o profano

Em cada manhã
rompe com sua insistência de rio.
Meticuloso engenho do verbo
que se faz silêncio
ou boato

Rumino a sua nudez
ou desvelo as suas rugas.

Entre a fuga
e os deslizes
o poema vinga

rosa intimorata no asfalto

nutre-me do que é míngua
recicla-me do que é sangue.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

GERALDO CARNEIRO - Entrevista

GERALDO CARNEIRO


PEQUENA BIOGRAFIA

Geminiano, carioca por amor à “cidade-esplendor”, dramaturgo, escritor de telenovelas, roteirista, tradutor, letrista,, com mais de 30 anos de poesia publicada, nasceu em Belo Horizonte, foi aluno dos cursos de Letras e Filosofia.

Em 1967 ( aos 15 anos ) compôs canções sobre poemas inéditos que lhes foram dados por Paulo Mendes Campos. No ano seguinte escreveu letras para canções de Eduardo Souto Neto, seu colega de colégio, e do compositor Piry Reis. Em 1969, suas canções com Eduardo Souto Neto foram gravadas por diversos intérpretes. No mesmo ano, formou a banda O Poder Assolador da Lapa (PAL, para os íntimos), juntamente com Danilo Caymmi, Piry Reis e Paulo Jobim. O PAL fazia parte de um movimento mais ambicioso, Compositores Universitários (C.U.). Redigiu, com Danilo Caymmi, o manifesto do Movimento: "O C.U. está aberto a todas as tendências." Contanto que não fosse o deles, ça va sans dire

Publicou seu primeiro poema em 1970, no jornal O Estado de Minas.

Em 1971, começou a compor com Egberto Gismonti. Água & Vinho, a primeira canção composta pelos dois. E deu origem a uma parceria de mais de trinta anos. Entrou para o curso de Filosofia da UFRJ e em 1972, para o curso de Letras, na PUC. Tornou-se produtor e autor da maior parte das letras de Água & Vinho, de Egberto Gismonti, de quem também produziria os três discos seguintes. Com Gismonti, escreveu canções para a peça Encontro no Bar, de Bráulio Pedroso.

No ano de 1973, iniciou parceria com o compositor argentino Astor Piazzolla, com quem escreveu duas dezenas de canções.

Em 1974, lançou seu primeiro livro de poesia, Na Busca do Sete-Estrelo, pela Mapa Editora.

Em 1975, a convite de Piazzolla, passou quatro meses em Roma, escrevendo letras para suas canções.Vinicius de Moraes e Toquinho gravaram a canção Choro de Nada, das primeiras que havia composto com Eduardo Souto Neto, em 1969.

Em 1976, começou a compor com John Neschling. A primeira canção Rita Baiana, escrita para o filme O Cortiço, foi gravada por Zezé Motta. Produziu e escreveu a maior parte das letras do disco Durante o Verão, da banda A Barca do Sol, que tinha entre os integrantes o compositor Nando Carneiro, seu irmão, com quem compôs dezenas de canções. Escreveu, com Egberto Gismonti, canções para o espetáculo Festa de Sábado, texto de Bráulio Pedroso.

No ano de 1978, em parceria com Bráulio Pedroso, escreveu o musical Lola Moreno, inspirado na vida de Carmem Miranda e nos bastidores do rádio. Começou a colaborar em revistas e jornais. Tom Jobim e Miúcha gravaram também o Choro de Nada. Quando Tom lhe contou da intenção de gravar a canção, alertou-o que Vinicius já a havia gravado. Ao que Tom respondeu, sorrindo: "Tudo que eu quero fazer, o Vinicius já fez antes.

Em 1979, escreveu com John Neschling as canções do musical Lola Moreno, encenado no Teatro Ginástico, com Lucélia Santos, Nei Latorraca e Grande Otelo nos papéis principais, direção de Antonio Pedro. Produziu e escreveu a maior parte das letras de Corra o Risco, disco de estréia de Olivia Byington.

Em 1980, publicou Verão Vagabundo, seu segundo livro de poesia, Editora Achiamê.

Em 1981 traduziu, a convite do grupo de teatro Pessoal do Despertar, a peça A Tempestade, de W. Shakespeare, encenada durante os dois anos seguintes, no Parque Lage.

Em 1983, escreveu a maior parte dos textos de Apenas Bons Amigos, encenado no Teatro de Arena, com direção de Antonio Pedro. Por encomenda do grupo teatral Marxmellow International Troupe, escreveu o espetáculo Folias do Coração. A convite da Editora Brasiliense, escreveu Vinicius de Moraes: A Fala da Paixão, editado no ano seguinte.

Em 1984 traduziu, a convite da atriz Maria Padilha, a peça As You Like It, de Shakespeare, encenada em 1985, com direção de Aderbal Freire Filho. Com Bráulio Pedroso, escreveu a minissérie Tudo em Cima e a série Tamanho Família, ambas encomendadas e exibidas pela TV Manchete.

Em 1985 escreveu A Bandeira dos Cinco Mil Réis, encenada no ano seguinte, com direção de Aderbal Freire Filho e tendo no elenco Marco Nanini, Maria Padilha e Diogo Vilella.

Em 1987, a convite de Miguel Falabella, adaptou Lúcia McCartney, de Rubem Fonseca, para o teatro, com Maria Padilha e Tony Ramos nos papéis principais. Escreveu, com Millôr Fernandes, o roteiro do filme O Judeu, direção Jon Tob Azulay. Adaptou, com Antonio Pedro, a peça Pluft, de Maria Clara Machado, convertida em musical. A convite de Wagner Tiso, escreveu o poema Manu Çaruê, que daria origem a CD e espetáculo homônimos.

Em 1988, escreveu a novela Olho por Olho, parceria com José Louzeiro. Lançou o livro Piquenique em Xanadu, Ed. Arte e Expressão, pelo qual recebeu o Prêmio Lei Sarney de melhor livro de poesia do ano. Escreveu a cantata Carnavais, com Francis Hime, encomendada para a abertura do Festival de Inverno de Campos do Jordão. A cantata é recusada, por obscena, pelo maestro Eleazar de Carvalho, diretor do festival, mas encenada pelo maestro Benito Juarez. Escreveu, com Márcia de Almeida, o roteiro do filme Eternamente Pagu, direção de Norma Bengell.

Em 1990, escreveu diversos especiais para TV, entre os quais uma História da MPB para a TV espanhola, com direção de Roberto Talma.

No ano de 1991, em parceria com Walter Negrão, escreveu a minissérie O Sorriso do Lagarto, baseada no livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro, que se tornou seu grande amigo. Publicou a tradução de A Tempestade, Relume-Dumará. Publicou em livro A Bandeira dos Cinco Mil Réis. Escreveu Imaginária, texto teatral encomendado pelo diretor Marcio Viana, encenado (às escuras) no Espaço Sérgio Porto.

Em 1992, escreveu, para a TV Globo, os dois primeiros episódios do programa Você Decide, do qual se tornou supervisor de texto durante quase todos os oito anos seguintes.

Em 1993, escreveu o primeiro texto da série Terça Nobre, da TV Globo, para a qual adaptaria clássicos da literatura, como O Santo que não acreditava em Deus, Lúcia McCartney, e A Desinibida do Grajaú. Publicou Pandemônio, pela Arte Editora.

Em 1995, publicou Folias Metafísicas, Relume-Dumará.

Em 1996, publicou Leblon: Crônica dos Anos Loucos, Relume-Dumará

Em 1997, publicou Sonhos da Insônia, Editora Impressões do Brasil, em parceria com Carlito Azevedo. Entre os poemas do livro, há cinco traduções suas de sonetos de Shakespeare.

Em 1999, escreveu o poema Por Mares Nunca Dantes.

Em 2000, lançou Por Mares Nunca Dantes, Editora Objetiva. Por encomenda do diretor Mauro Mendonça Filho, fez adaptação de A Megera Domada, de W. Shakespeare, a partir da tradução de seu grande amigo Millôr Fernandes. A convite de Olívia Hime, registrou em CD seu poema Por Mares Nunca Dantes, no selo Biscoito Fino. Estréia, no Teatro Municipal, a Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião, música de Francis Hime e letras de Geraldo Carneiro e Paulo César Pinheiro.

Em 2002, lançou na Espanha a tradução de seu livro sobre Vinicius de Moraes. Lançou o CD Por Mares Nunca Dantes, em março. Em agosto, teve o mesmo poema encenado a bordo de uma escuna, durante três meses, dirigido por Moacir Chaves, com Tonico Pereira, Oran Figueiredo e Márcia Moraes. Lançou Lira dos Cinqüent'anos, Editora Relume-Dumará.No ano de 2003, traduziu a primeira parte de Fausto, de W. Goethe, por encomenda de Moacir Chaves, encenada no mesmo ano.

Desde 2004 colabora com o Centro Cultural Cartola, coordenando a oficina de poesia Escola das Rosas que Falam.

Em 2004, traduziu cenas de Antonio e Cleópatra, de Shakespeare, a convite de Maria Padilha, para um ciclo de leituras encenadas nas favelas do Rio. Escreveu episódios para o programa Carga Pesada, da TV Globo.Participou do Projeto Arca das Letras, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, coordenado por sua irmã, Maria Elizabeth Carneiro e por Cleide Soares, que implantou bibliotecas em comunidades rurais. Comemorou 30 anos de poesia publicada, a convite do Teatro do Jockey, cercado de parceiros, amigos, poetas, cantores e seus heróis da vida inteira.

Em 2005, traduziu a peça a Baque, do dramaturgo norte-americano Neil Labute, dirigida por Monique Gardemberg. No elenco, Debora Evelyn, Emílio de Mello e Carlos Evelyn. Participou da elaboração da minissérie JK, da TV Globo, a convite de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. Arrematou a tradução de Antônio e Cleópatra, que começou a ensaiar com direção de Paulo José e elenco formado por Maria Padilha, Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Ana Kutner, Clarice Niskier, Nicolas Trevijano, Lourival Prudêncio, Paulo Hamilton, Mario Borges e Marcio Vito. Escreveu nova safra de canções com Francis Hime, entre elas Gozos da Alma, gravada por Francis e também por Leila Pinheiro, e Arquitetura da Flor, canção-título do futuro CD de Francis Hime. Escreveu a letra de A Flor e o Cais, cantada por Cauby Peixoto no Teatro Municipal, na comemoração dos 60 anos do compositor Wagner Tiso, o autor da música. Escreveu canções com diversos novos parceiros, como o compositor Moacyr Luz e o grupo AfroReggae.

2006, em 25 de janeiro, data do aniversário de Antonio Carlos Jobim, o evento Folia nas Estrelas comemorou o lançamento do site, projetando suas imagens na cúpula do Planetário da Gávea. Na ocasião, Francis Hime apresentou em público, pela primeira vez, a música Gravitação dos Corpos, sua parceria com Geraldo Carneiro. O espetáculo Leitor por Horas, de José Sanchis Sinisterra, dirigido por Cristine Jathay, estreou no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro com tradução de Geraldo Carneiro, Antônio e Cleópatra, de William Shakespeare, estreou no Teatro Ginástico, com direção de Paulo José.Lançou Balada do Impostor, Editora Garamond. Gravou o CD Gozos da Alma, lançado em 2007.

Em 2007, escreveu em parceria com Luis Gleiser, o especial Eu sei que vou te amar, comemorativo dos 80 anos de Antonio Carlos Jobim e em parceria com João Ubaldo Ribeiro, o piloto da série Faça a sua história, exibidos pela TV Globo.

De 2008 até os dias atuais inúmeros trabalhos foram realizados por Geraldo Carneiro. Parar como ? Com tanta inspiração.


ENTREVISTA


SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

GERALDO CARNEIRO - Não tenho outra atividade além de escrever. A não ser participar de debates que tenham como tema a própria atividade. Desde os 18 anos, vivo de escrever.


SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

GERALDO CARNEIRO - O interesse literário surgiu junto com a aquisição da linguagem. Já na primeira infância, segundo os depoimentos de minha família, eu era um aficionado das palavras. Sobre isso, nunca tive dúvida igual à do Hamlet, entre sê-lo ou não sê-lo. Ainda segundo o folclore familiar, quando completei um ano de idade, pronunciei a palavra liquidificador. Nunca mais deixei de ser liquidificado pelas palavras.


SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

GERALDO CARNEIRO - Se não me falha a memória ( e ela falha muito), publiquei oito livros de poesia com meu nome, e um nono com heterônimo. Acabo de publicar um livro de poemas para crianças, que está sendo lançado por estes dias, pela Editora Lazuli, chamado "Como um Cometa". Também publiquei traduções de poemas e peças de Shakespeare e dois livros de prosa, um deles sobre o Leblon, por encomenda da Prefeitura e da Editora Relume-Dumará, outro uma pequena biografia de Vinicius de Moraes, em 1984, por encomenda da Editora Brasiliense. Fora do Brasil só publiquei poemas esparsos, em inglês, francês e italiano. E a biografia do Vinicius, traduzida na Espanha.


SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

GERALDO CARNEIRO - Todos. O amor, a dor, os acontecimentos, e sobretudo as volúpias da linguagem. Ao contrário do que se costuma pensar, acredito que a poesia é escrita pela linguagem. Somos apenas seus cavalos-de-santo.


SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

GERALDO CARNEIRO - Todos. Mas sobretudo John Donne, William Shakespeare, Augusto dos Anjos e os transgressores dos cânones de todas as eras, que assim fundaram novos cânones.


SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

GERALDO CARNEIRO - Escrevam sempre, porque é a melhor forma de combater a realidade, essa alucinação provocada pela falta de poesia.


POEMAS


a coisa bela

BALADA DO IMPOSTOR (EDITORA GARAMOND, 2006)

toda beleza é sempre uma alegria.
eu sei, não foi bem isso que o John Keats
/disse,
mas cada língua escolhe as afeições
e imperfeições que lhe compete ser,
o ser da língua sendo o seu amar
o mar com cada qual sargaço seu
o espaço que se sonha na amplidão
do que se quer mais vasto.
um sonho vai fundando um outro sonho
até talvez um horizonte, ou não.
a palavra inaugura uma alegria
voa auspicia pássara
o que passou, o que ainda vai passar
o que se funda agora
e na hora da nossa vida-morte:
o resto só será palavra-além.


balada do impostor

BALADA DO IMPOSTOR (EDITORA GARAMOND, 2006)

sou um impostor, um dia saberão
que simulei tudo o que sempre fui.
sou uma ficção, meu sangue é só linguagem
meu sopro é uma explosão que vem de dentro
em forma de palavra.
quando já não for mais, serei eu mesmo.
enquanto tardo, trapaceio contra o tempo
a máquina que vai me devorando
invento meus adventos e meus ventos
e vou passando como tudo passa
em busca de uma graça que ultrapasse
o círculo da minha circunstância
o espelho que não seja senão o outro
esse que me habita e que me espreita
e, não sendo eu, me acata os meus espantos


eternidade

LIRA DOS CINQÜENT'ANOS (EDITORA RELUME-DUMARÁ, 2002)

para os estóicos o tempo não era
a mera caravana dos sucessos,
essa aventura quase sempre sem sentido
no rumo da anti-Canaã,
a terra onde não há qualquer Moisés
extravagando no Deserto dos Sinais

existe assim um outro tempo, imóvel,
no qual paira a palavra impronunciada,
o mito, sendo tudo e nada,
e idéias como flores ainda à espera
de outra Era ou só da primavera
e da decifração posterior

em suma, se os estóicos não criaram
um sistema solar irresistível
capaz de orientar a órbita dos astros
e as caravelas do conquistador,
em troca talvez tenham inventado
a melhor metáfora do amor


nevermore

PANDEMÔNIO (ARTE EDITORA, 1993)
FOLIAS METAFÍSICAS (EDITORA RELUME-DUMARÁ, 1995)

fizemos piqueniques em Pasárgada
tratamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões d'além mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)


sobre a verdura

VERÃO VAGABUNDO (EDITORA ACHAMIÉ, 1980)
LIRA DOS CINQÜENT'ANOS (EDITORA RELUME-DUMARÁ, 2002)

os insetos voavam estranhamente
sobre a verdura e a barraca de peixe
permanecia um momento intocada
em seus reflexos de luz e de prata
e você a ver navios percorria
o tormentoso labirinto da feira
se imaginava um conquistador espanhol
que se perdeu no rumo das Índias
e construiu um castelo à beira-mar.
vendedores vendedoras ficções sonoras
verdes vegetais como se houvesse
uma deusa sonhadora em cada alface
e os dragões cuspissem fogo e silêncio
emaranhados numa réstia de cebola.

domingo, 25 de outubro de 2009

LEILA MÍCCOLIS - Entrevista

LEILA MÍCCOLIS


CURRÍCULO RESUMIDO DE LEILA MÍCCOLIS:

Bacharel de Direito pela UFRJ (exercendo a profissão por dez anos), Mestre em Teoria Literária/Ciência de Literatura pela UFRJ e Doutoranda na mesma área de Teoria Literária pela UFRJ.

Diversos prêmios literários. Participação em debates em congressos literários, tendo participado, como convidada, em 2007, do 8º Salão do Livro e Encontro de Literatura, Câmara Mineira do Livro e Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte/MG, e como homenageada no 21º Salão Nacional de Poesia Psiu Poético de Montes Claros, MG.

Ministrou Curso de Carpintaria Poética em 2003, outubro, no "2º Fórum Brasileiro de Literatura de Blumenau”. Workshop de Poesia (7h/aula) fundação Cultural de Blumenau/SC.

30 livros publicados (poesias, prosa e ensaios). Seu livro de poesia mais recente: "SANGUE CENOGRÁFICO" tem prefácios de Ignácio de Loyola Brandão, Heloísa Buarque de Hollanda, Gilberto Mendonça Teles e Nélida Piñon. O de contos, “ACHADAS E PERDIDAS”, tem prefácio de Aguinaldo Silva. É autora do "Catálogo da Imprensa Alternativa" (pesquisa, elaboração e redação dos verbetes). Capa: Rubem Grilo (EUA), Ed. RioArte, Secret. Munic. de Cultura, RJ, 1986 e elaboração de verbetes para a Enciclopédia de Literatura Brasileira, MEC/OLAC, 1990 e 2001. Em 2005 seu acervo particular de jornais da imprensa alternativa brasileira foi adquirido pela Biblioteca da Universidade de Miami, cujo setor “Leila Miccolis Brazilian Press Alternative Collection" será inaugurado em 2008. Consta do Banco de Dados Informatizados — Módulo Literatura Brasileira, categoria "Tendências Contemporâneas", do Instituto Cultural Itaú (SP). Sua obra no Brasil, é citada e analisada por literatos como: AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA, em "Música Popular e Moderna Poesia Brasileira", Ed. Vozes, RJ, 1978, GLAUCO MATTOSO, em "O que é poesia marginal" Ed. Brasiliense, SP, 1982; JAIR FERREIRA DOS SANTOS, em "O Que É Pós-Moderno", Ed. Brasiliense, SP, 1986; PEDRO LYRA, em O Real no Poético, Ed. Cátedra e Pró-Memória (INL), DF/RJ, 1986; ASSIS BRASIL, em "A Poesia Fluminense do Século XX", Ed. Imago/FBN/UMC, RJ/DF, 1998; WILBERT CLAYTON FERREIRA SALGUEIRO em “Militância e humor na 'Poesia de Testemunho' de Leila Míccolis", em Estudos Brasileiros de Literatura Contemporânea, vol. 27, Brasília/DF; ROGEL SAMUEL, em "Novo Manual de Teoria Literária", 4ª ed., Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 2007, entre outros. Em 2004, foi convidada a integrar o Projeto Celulivros (lançamento de livros de poesia através de telefonia celular). A partir de 2006, tem publicações acadêmicas em sua bibliografia.

No exterior, destaca, entre as publicações que contém sua obra ou a análise dela: 1977: "BRASILEIRAS", org. Maryvonne Lapouge et Clelia Pisa, Ed. Des Femmes, Paris/França; • 1980: "A BOOK OF WOMEN POETS FROM ANTIQUITY TO NOW", Schocken Booke, New York/EUA; • 1982: "A (MÁS)CARA DIANTE DA CARA (DOS SÍMBOLOS DO HOMEM E DO HOMEM COMO SÍMBOLO)", de Alberto Pimenta (ensaios e debates sobre Semiologia), Editorial Presença, Lisboa/Portugal; • 1982: "ANTOLOGIA DA NOVÍSSIMA POESIA BRASILEIRA", seleção e notas de Gramiro de Matos e Manuel de Seabra, col. Horizonte de Poesia, Lisboa/Portugal; • 1991: "EL PLACER DE LA PALABRA - LITERATURA ERÓTICA FEMININA DA AMÉRICA LATINA" (Antologia Crítica), org. Margarite Fernández Olmos e Lizabeth Paravisini-Gebert, Editorial Planeta Mexicana, México/D.F.;• 1993: "PLEASURE AND THE WORD - EROTIC WRITINGS BY LATIN AMERICAN WOMEN", org. Margarite Fernández Olmos & Lizabeth Paravisini-Gebert, translated by Paula Milla-Kreutzer, White Pines Press, Estados Unidos; • 1994: "CULTURAL DIVERSITY IN LATIN AMERICAN LITERATURE", David William Foster, University of Mexico Press, Albuquerque/Mexico • 1998: “HAÏKUS SANS FRONTIÈRES - une anthologie mondiale”, org. André Duhaime, Les Éditions David, Canadá.

Para cinema, adaptou o premiado romance de Paulo Jacob, "Dos ditos passados nos acercados do Cassianã". Tem também dois curtas, com João Luiz Pacheco Mendes, adaptação de poemas homônimos da autora: “ORAÇÃO INFANTIL” e “DEVASTAÇÃO”, além da adaptação-solo “HORÁRIO NOBRE”. Em 2003: roteiro final do longa-metragem de Pery De Canti, “TERRA PROMETIDA”. Diretor de Fotografia: Walter Carvalho; Música-Tema: João Bosco. Diretor de Arte: Tião Fonseca. Produtor Executivo: Iberê Cavalcanti.

Para teatro tem encenadas as seguintes peças: "SE O CASAMENTO VAI MAL... PIMENTA, ALQUIMIA E SAL", dir. Guilherme Corrêa (com Ana Rosa) (1993), "FORA DE FORMA" (juvenil), dir. Maria Cristina Furtado (1994) e “POESIA.BR”, dir. Jo Martin (2001). Em 2005, participou do Projeto “Drama Tempo Ciclo de Leituras Dramaturgia Contemporânea” – Leituras dramatizadas de peças + debates sobre arte e contemporaneidade, como mediadora e debatedora do tema “Carnavalização – o ufanismo na criação” (a utilização de citações e referências históricas e mitológicas na criação artística, e como ela pode retratar e discutir uma nação), com Benita Prieto, tema derivado da peça: “As traças da paixão”, de Alcides Nogueira, lida por Arlete Salles e João Vitti. Direção: Lucianno Maza. Teatro do Jóckey/Centro de Referência do Teatro Infantil RJ. Em 2006, leitura de sua peça: “QUATRO PEÇAS NO VARAL”, direção de Lucianno Maza, no Centro Cultural Sérgio Porto (Botafogo/RJ), dentro do Projeto Drama Tempo Ciclo de Leitura / Dramaturgia Contemporânea. Obteve o Prêmio de dramaturgia: "Os Melhores de 1997 - Teatróloga do Ano", conferido pela Sociedade de Cultura Latina do Brasil, edição nº 5 (ano II), SP e consta do Catálogo de Dramaturgia Brasileira, de Maria Helena Kühner, disponibilizado pela Internet.

Para televisão escreveu: "PAIS PROBLEMAS" ("Caso Verdade", 1983/TV Globo), "MANIA DE QUERER", com Silvan Paezzo (novela, 1987/TV Manchete ), "RAINHA DA VIDA", com Marina Cicogna (minissérie, 1987/TV Manchete), "OLHO POR OLHO", com Wilson Aguiar Filho, (novela, 1988/TV Manchete), "KANANGA DO JAPÃO", com Wilson Aguiar Filho e José Louzeiro (novela, 1989/TV Manchete), "BARRIGA DE ALUGUEL", com Glória Perez (novela, 1990-1991/TV Globo), "74.5 - UMA ONDA NO AR" (novela, 1994/versão internacional), “MANDACARU” (com Yoya Wursh Clóvis Levy, Gregorio Bacic), TV Manchete, 1997/1998). Diversos cursos de teledramaturgia ministrados à distância e presencialmente, em Universidades Brasileiras, inclusive três na UFRJ (Curso de Extensão).

ENTREVISTA


SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

LEILA MÍCCOLIS - Ler, meditar, ensinar (carpintaria poética e dramaturgia), fazer ginástica, dedicar-me aos nossos animais no sítio (principalmente meus gatos), assistir filmes e/ou seriados, acabar meu curso de Doutorado em Teoria Literária na UFRJ, atualizar nosso polo/portal cultural Blocos Online e fazer contatos com escritores de todo o Brasil, principalmente.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

LEILA MÍCCOLIS - Fui considerada garota prodígio aos três anos, quando escrevi minha primeira quadrinha de pé quebrado... Porém, prodígio mesmo era minha mãe, que me orientou desde cedo por estes caminhos.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

LEILA MÍCCOLIS - Livros individuais ou em parceria com mais um autor, tenho vinte. Os mais recentes foram: em poesia, "Sangue cenográfico", prefaciado por Ignácio de Loyola Brandão, Gilberto Mendonça Teles, Heloísa Buarque de Holanda e Nélida Piñon; em prosa, o livro de contos: Achadas e Perdidas, prefaciado por Aguinaldo Silva e, este ano (2009), acaba de sair "Passagem de Calabar", baseado em minha tese de Mestrado, abordando o poema dramático Calabar, de Lêdo Ivo, pela Academia Brasileira de Letras e Topbooks, prefaciado por Affonso Romano de Sant'Anna. Tenho participado de muitas antologias e meus poemas foram publicados em obras na França, Estados Unidos, México, Angola, Colômbia, Portugal.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

LEILA MÍCCOLIS - Vivo e respiro literatura quase que tempo integral, então em qualquer lugar ou a qualquer momento pode surgir uma idéia, uma palavra, um insight que deflagrará o texto.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

LEILA MÍCCOLIS - Para limitar-me apenas à minha Geração Poética de 70, meus poetas preferidos são Glauco Mattoso, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Nicolas Behr, Ulisses Tavares, Antonio Carlos Secchin, Ana Cristina César, Touchê e Paulo Véras.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

LEILA MÍCCOLIS - Não se atenham apenas à poesia romântica... Escrevam muito, ousem experimentar novas formas e formatos, leiam outros poetas, e não deixem de ler teoria literária também... ajuda a entender movimentos poéticos e propostas estéticas. Por fim, não ouçam os que aconselham você a parar de escrever, ninguém tem este direito. É através deste exercício de sensibilidade e crítica, que nos aprofundamos mais em nós mesmos e compreendemos melhor o outro.

POEMAS


VÃ FILOSOFIA

(Ciclo familiar)

Falas muito de Marx,
de divisão de tarefas,
de trabalho de base,
mas quando te levantas
nem a cama fazes...


ORAÇÃO INFANTIL

(Ciclo infantil)

Quando vem gente conversar com meus pais
eles não me batem;
sorriem muito pra mim,
falam num tom bem baixinho,
me enchem de tanto carinho,
não me botam de castigo
não ralham nunca comigo
e até minhas traquinadas
viram "excesso de energia"...
Por isso, Senhor, dai-me, ao menos,
uma visita por dia...


A SECO

(Ciclo bar)

Tem coisas que a gente só diz de porre,
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à-toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao “estado normal”,
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.


DEVASTAÇÃO

(Ciclo ecológico)

Vêm os jovens
e escrevem nas árvores seus nomes entrelaçados;
voltam adultos
e destróem esses corações apaixonados.


Missão cOmprida

(Ciclo Ditaduras)

Você conseguiu tudo na vida:
uma grande barriga bem alimentada
uma amante infiel
uma esposa comportada
carro do ano
filhos rebeldes ao teu jugo tirano
casa própria, emprego com crachá
um sítio em Visconde de Mauá
um ufanista amor pelo país
tudo como manda o figurino
(de Paris).
E morrerá, cumprindo a sua parte,
de tensão ou de enfarte,
de repente,
sem nem ao menos de longe perceber
que podia ter sido diferente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

JEAN-PAUL MESTAS - Entrevista

JEAN-PAUL MESTAS
VICHY - FRANCE


O MAIOR DIVULGADOR DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA NA FRANÇA E EM MUITOS PAÍSES EUROPEUS. JEAN-PAUL MESTAS É MUITO AMADO PELOS ESCRITORES BRASILEIROS.

Mestas com o grande amigo e escritor português MIGUEL BARBOSA

Traduções : Neusa Zanirato

Formação profissional: Graduação em Letras pela Unesp / Campus Assis, nas disciplinas de Francês e Italiano.
Professora das duas línguas na escola de idiomas Wizard há 5 anos. Traduziu livros para a editora Larousse do Brasil e participou como revisora na elaboração da gramática Francês + Fácil, também da Larousse.
Ministrou curso de Français des Affaires para funcionários de empresa francesa sediada em São Paulo.
Faz traduções ou versões de livros e textos em qualquer desses idiomas, bem como revisão de livros e textos em português, francês e italiano. Trabalha como tradutora para grandes editoras multinacionais, tendo diversos títulos publicados no Brasil.
Maiores informações : http://franceseitaliano.blogspot.com/


ENTRETIEN / ENTREVISTA

Mestas com a tradutora portuguesa FERNANDA BARBOSA

SELMO VASCONCELLOS - Quelles sont vos autres activités, outre écrire?
Quais as suas outras atividades, além de escrever ?


JEAN-PAUL MESTAS - Telles activités soutiennent les requêtes du savoir et de la recherche, dans le souci de favoriser la Création. On retiendra :

- Participation à des Associations ayant pour objectif la mise en valeur de la Poésie, de la Peinture et de l’Histoire, sans d’autant négliger la part légitime de la Philosophie et de la Littérature :
Arts et Jalons que j’ai moi-même créé en 1977 : Paris
L’A. S.A.L.A - Paris
Ecrivains du Rhône - Lyon

- Conférences, séminaires et échanges avec de nombreux pays des cinq continents dont plusieurs ont favorisé des liaisons constructives patronnées par une équitable réciprocité indispensable pour enrichir le savoir général avec justesse et amitié :

- Albanie, Belgique, Espagne, Grèce, Hongrie, Pologne, Portugal, Roumanie.
- Brésil, Chili, Cuba, Mexique, Uruguay, Venezuela.
- Sénégal, Tunisie, Maroc,
- Canada, Etats-Unis,
- Corée, Inde, Mongolie.

- Professeur, à Paris / La Sorbonne, de l’Histoire de la littérature roumaine.
Cette intervention est terminée aujourd’hui.


JEAN-PAUL MESTAS - Tais atividades sustentam os anseios do saber e da pesquisa, na preocupação de favorecer a Criação. Selecionamos:

- Participação em Associações tendo por objetivo a valorização da Poesia, da Pintura e da História, sem esquecer, porém, a parte legítima da Filosofia e da Literatura:

Arts et Jalons, que eu mesmo criei em 1977 - Paris
L´A. S.A.L.A - Paris
Escritores do Rhône - Lyon

- Conferências, seminários e intercâmbio com numerosos países dos cinco continentes, dos quais vários favoreceram criações construtivas, moldadas numa equilibrada reciprocidade indispensável ao enriquecimento do saber geral, com justiça e amizade:

- Albânia, Bélgica, Espanha, Grécia, Hungria, Polônia, Portugal, Romênia;
- Brasil, Chile, Cuba, México, Uruguai, Venezuela;
- Senegal, Tunísia, Marrocos;
- Canadá, Estados Unidos;
- Coréia, Índia, Mongólia.

- Professor da Universidade de Sorbonne em Paris, de História da Literatura
Romena. Esta atividade não é mais exercida hoje.



SELMO VASCONCELLOS – Comment est né votre intérêt literaire?
Como surgiu seu interesse literário ?


JEAN-PAUL MESTAS - L’intérêt littéraire s’est naturellement révélé dès l’enfance. Pour vrai, j’ai toujours été captivé par les mots – leur prestance, leur capacité émotionnelle et figurative ainsi que les chemins qu’ils offrent à la pensée comme aux réflexes conducteurs capables de vivifier le goût, les aspirations et les choix de fondement.
Tel, l’intérêt littéraire m’a fidèlement ouvert des voies en tant qu’agent essentiel, lui, aux parcours de l’esprit et du cœur sans aucune formulation intempestive ou abusive. Après des années de réflexions, je crois pouvoir dire que la retenue et ses commandes m’ont efficacement soutenu dans ma démarche.

JEAN-PAUL MESTAS - O interesse literário manifestou-se naturalmente, ainda na infância. Na verdade, sempre fui cativado pelas palavras - sua utilidade, sua capacidade emocional e figurativa, bem como os caminhos que elas oferecem ao pensamento e aos reflexos condutores, capazes de vivenciar o gosto, as aspirações e as escolhas de fundamento.
Esse interesse literário abriu-me caminhos como agente essencial nos percursos do espírito e do coração, sem nenhuma formulação intempestiva ou abusiva. Após anos de reflexão, creio poder dizer que sua manutenção e seus princípios me sustentaram fortemente em minha caminhada.


SELMO VASCONCELLOS – Combien et quels sont vos livres publiés dedans et dehors votre pays?
Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?


JEAN-PAUL MESTAS :

3) PUBLICATION DES LIVRES
3A - Na França

3A1 - Coletâneas de Poesia : 31

Soleils Noirs; Part de Vivre; Réssurgences; Romance Limousine; Château de Paille; Plaise au Souvenir; L'aventure des Choses; Treize Ballades; Le Retour d'Ulysse; Traduire la Memoire; Pays Nuptial; Mémoire d'Exil; Cette Idée que ne Vivra pas; Entre Deux Temps; Ismème / seguida de: Au Cadran des voyelles; Entre les Colonnes du Vent; Dans sa Harpe d'Oiseau Lilas; Chambourg à Deux Voix; L'Ancre et le Cyclone; La Terre Est Pleine de Haillons; La Lumière Arriva des Mains; Roses de Sable; Aliénor; Le Livre des Crépuscules; Le Livre de la Retenue; Le Livre des Visages; Suite en Gris sur Fond d'Aube; Magique; Confession des Confidences; Automnal;Ailleurs le Temps Expire.
(Ces livres sont généralement illustrés par Christiane Mestas)
(Esses livros , em sua maioria, foram ilustrados por Christiane Mestas)

3A2: Ensaios : 6

D'Après Ritsos ; Poètes en France ; Pour une Apologie de Pierre Corneille ; D'Après la Mémoire ; Péguy en Notre Temps de Monde ; L'Ilusion Lyrique.

3A3: Livretos e Fascículos : 23

3A4: Traduções/Adaptações: 16

Brasil : Aracy Curvello; Mara Guimarães; Alice Spíndola; SELMO VASCONCELLOS.
Grécia: Georges Thémélis; Agnès Sotiracopoulou Shina.
Itália: Ferdinando Banchini; Bruno Rombi.
Portugal: Miguel Barbosa; Cristino Cortes; Anabel Paul; Fátima Pitta Dionísio; Isabel Gouveia; Antonio Salvado.
Uruguai: Gloria Vega de Alba.
Venezuela: Jean Aristeguieta

3B - Fora da França

3B1: Coletâneas de Poesia: 12

Alemanha / 1: Lange Danach;
Grécia / 1 : Anamesa se Duo Kairous;
Polônia / 1 : Dlugo Potem;
Portugal /7 : Cantico para Chris; Dizer Simplesmente; Poema Esquecido na Madrugada; Através de uma Nuvem; Eterna Poeira; Athalos; Sob o frio Olhar do Tempo;
Estados Unidos /1 : Among the Sillent Violins;
Índia / 1 : Jean-Paul Mestas Poeta

3B2: Antologias : 5
Albânia / 1 : Deti I Pakrehur;

Portugal / 3 :

Reflexos da Poesia Contemporânea do Brasil, França, Itália e Portugal ( Selmo Vasconcellos como convidado );

Um mundo no Coração ( Selmo Vasconcellos como convidado );

Povos e Poemas ( Selmo Vasconcellos como convidado ).


Coréia / 1 : Paisagens Poéticas

3B3: Ensaios : 1

Itália / 1 : Alcune Tendenze della Poesia Francese.


SELMO VASCONCELLOS - Quels sont les impacts que produisent les atmosphères capables de produire la litérature?
Qual o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?


JEAN-PAUL MESTAS - Les impacts, voire les motivations qui entretiennent – à vrai dire – la littérature, sont les plus divers que l’on puisse mobiliser ou imaginer dans l’univers intellectuel. Par logique ou surprise, leurs points de départ sont liés aux pressions naturelles ou imposées, tenaces sinon violentes, qui en déclenchent les effets. Ainsi leur diversité va de pair avec les tendances millénaires comme implantées dans le paysage que manipulent l’inattendu, l’instinctif, hélas des velléités ou fatalités inévitables…
Ainsi, leur diversité embrasse les inclinations ou impératifs aux commandes dans les chemins que dessinent l’imprévisible, l’instinct, le désir , hélas des surprises maléfiques en des circonstances pour le moins choquantes ou dramatiques comme la révolution, la guerre, les heurts de certes inévitables dans l’actualité et ses héritages. En quelque sorte, la littérature est l’indéracinable usufruitière de la plus longue des automnes dans le temps qui s’éloigne…

JEAN-PAUL MESTAS - Os impactos ( ver as motivações que possuem) na verdade, na literatura, são os mais diversos que se possa mobilizar ou imaginar no universo intelectual. Por lógica ou surpresa, seus pontos de partida estão ligados a pressões naturais ou impostas, tenazes senão violentos, que acionam os efeitos. Assim sua diversidade vai ao lado das tendências milenares, como implantadas nas paisagens que manipulam o inesperado, o instintivo, infelizmente veleidades ou fatalidades inevitáveis...
Assim, sua diversidade envolve as inclinações ou imperativos nos caminhos
que desenham o imprevisível, o instinto, o desejo, não obstante as surpresas maléficas em circunstâncias pelo menos chocantes ou dramáticas, como a revolução, a guerra, problemas certamente inevitáveis na atualidade, e suas conseqüências.
De qualquer forma, a literatura é a enraigada usufruição do mais longo dos outonos que se distancia.


SELMO VASCONCELLOS - Quels sont les écrivains qui vous admirez?
Quais os escritores que você admira ?


JEAN-PAUL MESTAS - Par tempérament, j’évite de classer les écrivains selon mes goûts et instincts ; par pudeur comme par respect envers les témoins qui nous entourent. Il va de soi que chacun a des raisons naturelles ou inspirées d’établir un répertoire des attirances ; pour ma part, je donnerai seulement quelques noms de ceux dont, en France, je me suis senti proche vraisemblablement à cause de mon caractère et ses regards. En France donc, je dis Charles Péguy et Paul Valéry, pour ce qui concerne la matière à penser ; je dis François Villon, Jean de la Ville de Mirmont et Luc Bérimont, pour ce qui concerne le domaine de la Poésie. De certes, il va de soi que de nombreux autres écrivains me tiennent à cœur, en France et hors de ses frontières, pour toutes les motivations que l’on peut imaginer, au Brésil, comme de source, avec ses fleuraisons de poètes nonpareils.

JEAN-PAUL MESTAS - Por temperamento, evito classificar os escritores conforme meus gostos e instintos; por pudor como respeito para com as testemunhas que nos cercam. Evidente que cada um tem razões naturais ou inspiradas de estabelecer um repertório de atrações. De minha parte, darei somente alguns nomes daqueles que, na França, eu me senti verdadeiramente próximos em razão de meu caráter e a maneira de encararem as coisas. Na França, portanto, eu cito Charles Péguy e Paul Valéry, no que concerne à maneira de pensar; cito François Villon, Jean de la Ville de Mirmont e Luc Bérimont, no que diz respeito ao domínio da Poesia. Com certeza numerosos outros escritores me estimam, na França e além de suas fronteiras, por todos os motivos que se possa imaginar, sobretudo no Brasil, como nascente, com suas florações de poetas ímpares.


SELMO VASCONCELLOS – Quels sont les messages que vous donneriez aux nouveaux poètes?
Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?


JEAN-PAUL MESTAS - Sans bien sûr adopter le ton et la suffisance des parvenus habituels, je dirai aux nouveaux venus :
Patience, simplicité, modestie
Mais
Enthousiasme, volonté, application…
D’où :
Eviter les confusions, la poésie n’étant ni un instrument dominateur ni une arme mais
Une ouverture sur la vie
Un pacte avec les soifs de l’avenir.

JEAN-PAUL MESTAS - Sem estar bem certo de adotar o tom e a objetividade habituais, eu diria aos recém-chegados:
Paciência, simplicidade, modéstia,
Mas
Entusiasmo, vontade, dedicação...
Por fim:
Evitar as confusões. A poesia não pode ser nem um instrumento dominador nem uma arma, mas
Uma abertura para a vida
Um pacto com o anseio do futuro.

JEAN-PAUL MESTASOctobre 2009 / Outubro de 2009.

POEMAS

CHRISTIANE MESTAS ESPOSA DE JEAN-PAUL MESTAS
PROPHÉTIE

Il fera froid dans ce pays
dont les palmes sont tristes
elles mangues amères.

Un jour ses plages s’enfuiront,
ses refuges se fermeront
sous un ciel devenu aphone.

Ne l’oublie pas quand tu iras
au-devant d’une autre lumière
enfin paisible, enfin comblée
par d’indiscutables victoires.

PROFECIA

Estará frio nesse país
em que as palmeiras são tristes
e as mangas amargas.

Um dia as suas praias fugirão
os seus refúgios fechar-se-ão
sob um céu tornado áfono.

Não o esqueças quando fores
ao encontro duma outra luz
afinal pacífica, afinal cheia
de indiscutíveis vitórias.

***

FINAL

Pour Christiane

Cet homme dont j’ai le nom
tu ne le reverras jamais
qu’au bord d’un océan
de questions sans réponse
et d’amours souterraines.

Mes yeax, femme, seront à toi
jusqu’à la fin des temps.
Les tiens,
depuis la naissance du jour,
sont le rachat de ma poussière.

Do livro A Travers un Nuage / Através de uma NuvemTradução : Fernanda Barbosa, Lisboa, Portugal

FINAL

Para Christiane

Aquele homem de que tomei o nome
só o tornarás a ver
na margem dum oceano
de perguntas sem respostas
e de amores secretos.

Os meus olhos, mulher, serão teus
até ao fim dos tempos.
Os teus,
depois do nascer do dia
são o resgate da minha poeira.

Do livro A Travers un Nuage / Através de uma Nuvem
Tradução : Fernanda Barbosa, Lisboa, Portugal.


*** +++ ***

Traduções : Neusa Zanirato

CADASTRE IMAGINAIRE

Ici resteront les murmures
avec un peu de terre
empruntée aux vieux temps;

à côté seront les silences
entourés de souffles discrets
comme celui des femmes
aux avant-postes de l'amour;

ailleurs, beaucoup plus loin,
revivront les statues
qui dormaient dans notre mémoire.

CADASTRO IMAGINÁRIO

Aqui ficarão os murmúrios
com um pouco de terra
emprestada dos velhos tempos;

ao lado estarão os silêncios
cercados por sopros discretos
como aqueles das mulheres
nos postos avançados do amor;

longe, bem mais distantes,
renascerão as estátuas
que dormiam em nossa memória.

***

BRONISLAW KAMINSKI

Revenu au point de départ.
Ici les rues
sentent l'aurore
et les maisons fredonnent,

on rattrape les mois vécus
par les cheveux de la lumière.

Au fond j'aurais aimé m'asseoir
devant la mer avec ton ombre
enfin libre de racconter
les siècles du poème.

Il ne pleuvra plus entre nous.

BRONISLAW KAMINSKI

Volto ao ponto de partida.
Aqui as ruas
sentem a aurora
e as casas cantarolam,

recupera-se os meses vividos
por entre os raios de luz.

No fundo, eu amaria sentar-me
frente ao mar com tua sombra
livre, enfim, para contar
os séculos do poema.

Não mais choverá entre nós.

***

APRÈS

Nous ne reviendrons pas.

Les pierres savent le pourquoi
de même les jours vides
en qui l'on aura entendu
seulement les cris du silence.

Où êtes-vous
qui ne nous avez regardés
qu'au bornes de l'oubli?

Le fleuve du dédain
retient peut-être la réponse.

DEPOIS

Nós não voltaremos.

As pedras sabem o porque
assim como os dias vazios
onde se ouviriam
somente os gritos do silêncio.

Onde está você
que nos enxergou
apenas nos limites do esquecimento?

O rio do desprezo
talvez possua a resposta.

***

RENGAINE

Il fait ses comptes
en évitant les parenthèses.

La vieille horloge avoue
enfim des heures creuses
ou d'autres sans visage.

Dans son jardin secret
qualques orties persistent
à caresser le point sensible.

Autour de lui des gens
qu'il eut aimé ne pas connaître.

LENGA-LENGA

Ele faz suas contas
evitando os parênteses.

O velho relógio confessa
enfim horas roubadas
ou outras sem rosto.

Em seu jardim secreto
algumas urtigas teimam
em acariciar o ponto sensível.

À sua volta pessoas
que ele gostaria de não conhecer.

+++ *** +++

POESIAS PARA JEAN-PAUL MESTAS E CHRISTIANE

Por Selmo Vasconcellos

( tradução : Neusa Zanirato )

Pour Jean-Paul Mestas

Le planète Terre
suit
en tournand
en tournand
en tournand
En tournand dans sa même trajectoire
à l’infini
infini
infini...

On ne sait pas s’il suit
vers Dieu
ou s’il s’éloigne
chaque fois plus
de Lui.

Heureux?
Jamais!!!

Para Jean-Paul Mestas

O planeta Terra
continua
girando
girando
girando…
Girando em sua trajetória
pelo espaço infinito
infinito
infinito…

Ignoramos se ele segue
em direção a Deus
Ou se afasta Dele
cada vez mais.

Feliz ?
Jamais !!!

( Selmo Vasconcellos )

***

Pour Christiane Mestas

L’inspiration
c’est la création
création
créature
sublime et pure.

Musicalité
des pinceaux
aux toiles

Et dans vos mains
bénites
par Dieu.

Para Christiane Mestas

A inspiração
é a cria
cria
criatura
sublime e pura.

Musicalidade
dos pincéis
nas telas.

E nas suas mãos
abençoadas
por Deus.

( Selmo Vasconcellos )

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

SÉRGIO GERÔNIMO - Entrevista

SÉRGIO GERÔNIMO


Biobibliografia em maio de 2009

SÉRGIO GERÔNIMO ALVES DELGADO, Carioca nascido a 25 de maio de 1952. Na década de 70, editou o boletim estudantil GURUS. Cursou a AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras (Resende/RJ/Brasil) - Arma de Cavalaria. Serviu no Rio Grande do Sul (São Gabriel e Rosário do Sul) quando teve a oportunidade de conversar com o poeta Mário Quintana. Serviu, também, em Pernambuco (Recife) onde conversou por diversas vezes com o ‘’Mestre de Apipucos’’, Gilberto Freire. Sua ocupação profissional, até 2000, foi a de Coronel de Cavalaria. Também Psicólogo (1992, UGF - Universidade Gama Filho, Rio/RJ) com especialização em Gestalt-terapia, pela Clínica Vita e pós-graduação em Psicossomática Contemporânea, pela UGF. Editor-chefe da OFICINA.

Obra literária

Poesia: "Profanas & Afins" (1992, Oficina Letras & Artes, Rio/RJ, também em K7, para deficientes físicos da visão, na Biblioteca Pública de Jacarepaguá – Cecília Meirelles, Rio/RJ); "Outras Profanas" (1998, Oficina Cadernos de Poesia, Rio//RJ, também em K7, para deficientes físicos da visão, na Biblioteca Pública de Jacarepaguá – Cecília Meirelles, Rio/RJ); "Calendário de Poesia – Poesia Plural 2000" (1999, Oficina Editores, Rio//RJ); ''Enfim Afins'' (2000, livro virtual, no saite da poesia, Livron-line, www.geocities.com/livronline); ''Coxas de Cetim'' (2000, Oficina Editores, Rio/RJ e 2a edição em 2003), lançado, também, em Lisboa/Portugal (na SLP - Sociedade da Língua Portuguesa, em 2001); “PANínsula” (2002, Oficina Editores, Rio/RJ; 2ª edição 2006), também lançado na SLP, em 2002; “Gemini, Agenda personalizada – 2004” (2003, Oficina Editores, Rio/RJ); “Belabun” (2006, Oficina Editores, Rio/RJ); “Código de Barras” (2007, Oficina Editores, Rio/RJ); “Cadernos de Poesia Oficina” (participação em 25 cadernos, de 1987 a 2007, Oficina Editores, Rio/RJ) e inúmeras outras coletâneas, destacando-se, também, "Antologia da Nova Poesia Brasileira", organização, seleção e apresentação de Olga Savary (1992, Editora Hipocampo/RJ), "Athena – Antologia di Letteratura Contemporanea Multilingue" – Trento / Itália (1998, Edizioni Universum), ''Poemas Cariocas'', organização, seleção e apresentação de Thereza Motta (2000, Íbis Libris Editora/RJ). Participou do DVD de poesia (voz) “Para Além do Rio” (2004, Edição da Liga de Amigos da Casa-Museu Maria da Fontinha, Castro Daire/Portugal), do poeta português Arménio Vasconcelos. Organizador do Roteiro da Poesia (abrangência nacional) no site da Oficina Editores, www.oficinaeditores.com.br e do Roteiro da Poesia (Rio de Janeiro) no site da APPERJ – Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro www.apperj.com.br . Participante da equipe de organização e preparação de verbetes do "Dicionário de Poetas Contemporâneos de Francisco Igreja" (1988, 1a. ed / 1991, 2a. ed, Oficina Editores, Rio/RJ). Publicação de poemas em três cartões telefônicos, da empresa Telemar, Rio/RJ, com tiragem de 400.000 exemplares cada. Editor da “Revista Literária Plural – n° 1 (2004, Oficina Editores, Rio/RJ); “Revista Literária Plural – n° 2 (2006, Oficina Editores, Rio/RJ); “Revista Literária Plural – n° 3 (2008, Oficina Editores, Rio/RJ). Tem verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, vol. 1, da Oficina Literária Afrânio Coutinho (2001).

Ensaio: "Inda que de névoa disfarçado", sobre o poeta Francisco igreja, in “Revista Brasília” (1993, Clube Literário de Brasília/DF); "A importância das Academias do Estado do Rio de Janeiro na Literatura e na Arte Brasileira", in o "Descortínio Acadêmico" (Geraldo Magella Rosa, 1998, Editora Luzes, Rio/RJ); "Paulo de Frontin - patrono municipal!", in “Cia Melhoramentos”, da Academia de Ciências, Letras & Artes de Engenheiro Paulo de Frontin" – (ACLAEPF – 1991, Oficina Editores, Rio/RJ).

Conto: "Tomate, cebola & pimentão", in “Oficina Mais Prosa” (1999, Oficina Editores, Rio/RJ); “O ex-peito que virou 44”, in “Oficina Mais Prosa Ainda” (2000, Oficina Editores, Rio/RJ); “A hóstia profanada”, in “Oficina Quanto Mais Prosa Melhor” (2003, Oficina Editores, Rio/RJ).

Didático: Projeto de Ação Integradora e Multiprofissional aos Pacientes com Possibilidades de Amputação (PRACIMA); Psicossomática no Hospital Geral, in “Atendimento Psicossomático Hospitalar” (2000, coordenação acadêmica da Profa. Dra. Eunice Verçosa Rocha Delamônica, CEPAC/UGF/RJ).

Artigo: Psicossomática no Hospital Geral, in “Consciência Psi” (2000, Revista do Conselho Regional de Psicologia 5a. Região, Rio/RJ).

Conferência: "Clínica Cirúrgica de Homens – uma escolha de vida e de morte", in Fórum de Psicossomática do Rio de Janeiro, Universidade Gama Filho/RJ (1999); ''PRACIMA - Psicossomática Contemporânea'', in Encontro Nacional de Práticas em Psicologia, Anhembi, São Paulo/SP (2000).

Dinâmica de Grupo: "PIC – Poesia Instantânea Coletiva – I", in VI Encontro de Poesia do Vale do Paraíba, ACLAEPF – Município de Engenheiro Paulo de Frontin/RJ (1994); "PIC – Poesia Instantânea Coletiva – II", in Universidade Gama Filho/RJ (1999); ''PIC - Poesia Instantânea Coletiva”– APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), in Papo Poético, produção de poemas on line, mensalmente, na internet (2000/2001/2002). “PIC – Poesia Instantânea Coletiva” – CMRJ (2000).

Teatro: “À LUZ DO CABARÉ” - Cia Teatral Catarse, encenação de poemas dos membros da APPERJ (Sérgio Gerônimo 9/23 poemas) com adaptação e direção de Paulo Telles, um espetáculo de música e dança que narra, através de poemas, a realidade da vida de cinco mulheres que vivem num prostíbulo. Esteve em cartaz no SESC – Tijuca (setembro de 2006); em cartaz no Teatro Ipanema (outubro de 2006), Rio de Janeiro/RJ. A cada encenação foi aberto um espaço para que poetas da platéia pudessem apresentar suas obras. “CONVERSA PROIBIDA” – leitura e dramatização de poemas de Sérgio Gerônimo & Flávio Dórea em cartaz, no ano de 2008, nos eventos poéticos: Poeta saia da Gaveta (Teatro Armando Gonzaga, Rio/RJ); A Poesia conversa com o Verso (Teatro Arthur Azevedo, Rio/RJ); Terça conVerso no Café (Teatro Glaucio Gill, Rio/RJ); X Festival Carioca da Poesia (Teatro Glaucio Gill); Sarau Conecte (Bar Estilo da Lapa, Rio/RJ); Revira João (Sesc São João de Meriti/RJ).

Programador visual dos sites da APPERJ; OFICINA Editores; Livronline. Capista, Webmaster, Designer gráfico.

Sérgio Gerônimo Alves Delgado é membro do SEERJ - Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro; é o atual presidente, também co-fundador, da APPERJ – Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro (2006/08); membro efetivo da ACLERJ - Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro; presidente-fundador da ACLAEPF – Academia de Ciências, Letras & Artes de Engenheiro Paulo de Frontin/RJ; vice-presidente de honra da ALAP – Academia de Letras e Artes de Paranapuã; membro correspondente da ABP – Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni; membro colaborador da ABI – Associação Brasileira de Imprensa; Diretor social da UBE - União Brasileira de Escritores 2007/2009; membro do Pen Clube do Brasil. Nome escolhido para compor a galeria de patronos da Academia de Letras e Artes de Brasiléia/AC, cadeira n° 37, em 14 de setembro de 2007.
Participante ativo dos movimentos de poesia desde a década de 80. Atualmente coordena os eventos poéticos: ‘’Te Encontro na APPERJ’’, Bar do Ernesto, no bairro da Lapa/RJ e o “Todas Elas & Alguns Deles’’, no Espaço Cultural do CEDIM – Conselho Estadual dos Direitos da Mulher/RJ, no Centro/RJ.

Vários prêmios, moções, diplomas e certificados destacando-se: Melhor Poeta da I Mostra de Poesia do Rio de Janeiro (1988, Centro Brasileiro de Letras e Artes); Destaque Cultural (1992, UBE); Prêmio Margarida Lopes de Almeida – poesia interpretação (2001, UBE); Prêmio ALAP de Cultura (2001, ALAP); Destaque Cultural (2006, APALA – Academia Panamericana de Letras e Artes); Destaque com o poema “Mary Columbus”(3° lugar interpretação na vozes das poetas Gladis Lacerda e Laura Esteves), no V Festival de Poesia Falada de Campos/RJ (2003, Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, concorreram cerca de 1000 poemas); poema “Febre” dentre os 20 melhores textos do VII Festival de Poesia Falada de Campos/RJ (2005, Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, concorreram cerca de 1100 poemas); 5° lugar com o poema “Juízo final”, no VIII Festival de Poesia Falada de Campos/RJ, (2006, Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, concorreram cerca de 1100 poemas); Troféu Marcio Carvalho, destaque cultural IX Festival Carioca da Poesia, Rio/RJ (coord. do Grupo Poesia Simplesmente, 2007); indicado ao Troféu Aimberê, personalidade do ano 2008, SEERJ. Medalha Jorge Amado – Jubileu de Ouro da UBE.

Utiliza apenas o nome de Sérgio Gerônimo nos meios literários.

Endereço para correspondência: Av. Mal. Henrique Lott, 270/1111, 22631-370, Rio/RJ
Tel: (21) 3328-4863 / 9924-3906
e-mails:sergiogeronimo@oficinaeditores.com.br ; delgadosergiogeronimo@hotmail.com
ou oficinaeditores@oficinaeditores.com.br
apperj@apperj.com.br
HP: www.oficinaeditores.com.br , www.apperj.com.br e www.geocities.com/livronline

ENTREVISTA


SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

SÉRGIO GERÔNIMO - Atualmente escritor e editor de livros em tempo integral (OFICINA Editores). Muita leitura, um pouco de malhação (bicicleta), praia, cinema e o circuito literário do Rio de Janeiro, principalmente.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?

SÉRGIO GERÔNIMO - Sempre li muito, tive em meu pai, Irênio Delgado – jornalista, um fervoroso incentivador. Na juventude criei o jornal estudantil O GURUS, com alguns amigos, que publicou meus primeiros poemas e contos, crônicas de outros jovens. Participei de concursos literários, mas somente na década de 1980, foi que ao conhecer o poeta luso-carioca Francisco Igreja foi que surgiu o compromisso literário, complementando o interesse.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País?

SÉRGIO GERÔNIMO - Possuo 7 livros de poemas publicados, mais crônicas na coleção MAIS PROSA da OFICINA Editores, todos no Brasil e um virtual. São eles: “Profanas & Afins” (1992); “Outras Profanas” (1998); “Enfins afins” (2000, virtual); “Coxas de Cetim” (2000, também lançado em Portugal); “PANínsula” (2002, também lançado em Portugal); “Belabun” (2006); “Código de Barras” (2007) e “Conversa Proibida” (2009, teatro/poesia em coautoria a Flávio Dórea).

SELMO VASCONCELLOS - Qual(is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura?

SÉRGIO GERÔNIMO - Difícil responder. O que me leva a escrever é muito difuso. Qualquer acontecimento é capaz de me provocar: de um por do sol a uma lágrima tem muitos sins e nãos a sentir. Em uma crítica à CONVERSA PROIBIDA, o poeta Naldo Velho diz textualmente: “...Conversa Proibida é, certamente, um dos melhores livros de poesia que tive a oportunidade de ler, uma obra que deve servir de referencial e fonte de inspiração para muitos outros, pela coragem, pela profundidade e pela sinceridade de seus autores...” . Convivo com escritores de diversos matizes e certamente esta coexistência é muito propícia à minha produção literária.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

SÉRGIO GERÔNIMO - Minha leitura básica é poesia, principalmente a contemporânea. Recebo muitos livros para divulgação e costumo devorá-los um a um. Citarei: Francisco Igreja (onde aprendi); Casimiro de Abreu (primeiras leituras); Machado de Assis (após a minha juventude); Antonio Cícero; Leila Míccolis; Tanussi Cardoso; Márcia Leite; Flávio Dórea; Olga Savary; Nicodemos Sena (um amazonense fabuloso) mais Fernando Pessoa (mestre dos mestres); Neruda; Shakespeare...

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

SÉRGIO GERÔNIMO - Poesia sempre, ainda que por pura teimosia.

POEMAS


Coxas de Cetim

sugo tua nuca seca
subo nas tuas ancas santas
sumo nas tuas coxas
desarrumo todas as colchas
de cetim
mas, de certo, só o deserto
da cama
e a escama saída
da minha marota manobra
que se amarrota na mesma
rota-peixe
e sinta...
e deixe...
o sulco na tua nuca
que desarruma tuas ancas luciferanas
não mais secas as colchas
sumo, uma vez mais, nas tuas coxas
de cetim

Do livro COXAS DE CETIM, 2000, Oficina Editores.

PANínsula

Este céu azul de inverno-primavera abril
anil riscado pelo sutil branco do pássaro
a jato
ele já foi só azul
e agora, como dantes, deito meu leito
em vinhas, mais vinhas que venham vinho
escorrendo sono pelas colinas de minhas coxas
colchas ondulantes em línguas latinas
que nesta panínsula parecem ser seculares
PANínsula sim! pois ela é minha
ulisses, luso, baco-dioniso
portucalenses e castelães
galegos, madrilenos, andaluzes e catalães
não se assustem!
esta é minha intrépida família
criam rochedos, encantam árvores
escondem labirintos de paixões
e quantas paixões nesta panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
é fecunda, inteligente, instigadora
de risos vira-zarzuelas alegres
a choros santo ofício terríveis
sombras e luzes
naturalmente em noite e dia
e assim freqüento há eras travestido de eros
as arenas em flauta de sete tubos excitados
a incitarem castanholas, rendas e olhares
seios arfantes, leques de peitos couraças
malícias, malícias, malícias
religiosamente ávilas e ávidas
teresas e marias da panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
dizem ser eu guerreiro olímpico
de face mortal e terreno
contraceno romanos, gregos, sarracenos
celtas, visigodos – exércitos em procissão
minhas ordens desfiguram flancos
encantam minhas têmporas chifres
são raios do sol – força e pura invenção
perdão, este trejeito da minha tez
fez vivacidade cantar em litorais
reentrâncias, rias e alturas na panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
às vezes cobram-me ser cabra,
mas sou rebanho e pastores
urbana história também me queiram como sou
tenho via-láctea no estômago
de rios, laranjas, sal e pescado
não disfarço em pecado meu umbigo
nem planícies e planaltos que correm nos meus cascos
que movem diana amores, diana de éfeso
diana de évora, já nem sei mais
amores possíveis e passíveis de improbabilidades
imprevistos por certa panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
sonho pirineus e arrábidas
degusto guadarramas e estrelas
perfumo atlânticos e mediterrâneos
estreito-me
expando-me
sou eixo seixo assim
faunos, sátiros, silenos
frades, santos, deuses
danço, gargalho, enterneço
choro granada às cinco horas
por ora tudo vale a pena
nesta minha alma de menino
pense nisto pessoa
sou mais fantástico do que divino
surreal romântico poeta
aqui na panísula
PANínsula sim! pois ela é minha

código de barras

Nenhum tempo é suficiente
o facho de luz verde/vermelho
senvergonhamente lê espaços
escala linhas verticais
escaneia do topo ao sopé
horizontal lente
integra indistintamente números e letras
páginas e rótulos
é soberano
não existe leitura igual
nem sentimentos desprezíveis
sequer expressões do tipo
já conheço!
são únicos
demonstra surpresa no ato
quando desata os nós dos vocês
individualmente marca
registra a tatuagem − você
manifesta-se ao mundo por extensão
vértices vindo em algarismos
se zero ou um − binariamente não sei
xis, ípisilon ou zê de séries inimaginávies
em vademecuns perdidos talvez

mas você é código
(inviolável)
ser código é até plausível
puras exclamações
barra é ser poeta

Código de barras, Oficina Editores, Rio/RJ, 2007

belabun

encontrei belabun em uma segunda-feira
olhos de corisco
sentinela armada de artifícios
em um banco de versos
adereços entre sons e aromas
descreve círculos de hieróglifos

dô? nundô?
dô? nundô?

faíscas metafóricas
de uma redondilha maior
trovadores cruzando-se
em um shopping de olhares
descreve círculos de hieróglifos

dô? nundô?
dô? nundô?

um poema descontroladamente
livre
sem pudor
sem regras
sem meias sentenças
branco
e descreve círculos de hieróglifos

dô! nundô!
dô! nundô!

belabun puro desejo
belabun pura poesia

belabun?
desejo em poesia
e descreve círculos de hieróglifos

dô... nundô...
dô... nundô...

dô... nundô...
dô... nundô...

e pisca letrinhas entre estrofes

Expectativa

Sérgio Gerônimo

a vida é tão curta
e minha capacidade de criar tão intensa
quase me perco e delirante misturo
da imaginação abuso e peco
mas não impeço o futuro aclopado
contigo em denso nevoeiro
em sons plenos do conhecido desejo
em cores ar-
dor cintilantes
olhos extasiados à visão turva
cabelos armados qual louca
ao teu ouvido o ardente silêncio de minha boca
minhas mãos adelgaçam tua cintura
as tuas tragam no aperto minha nuca
tu me amas!
a vida é tão curta
e minha alma tão tensa de viver
que permaneço dopado
desequilibrado - sei
me esforço para não contrariar o devaneio
às vezes me rebelo o elo arrebentar quero...
porem não importa
se não for teu corpo...
ao meu dorso - tua força
suprema chama
e de olhos estrelados sou desmaterializado
ardo sobre tua cama
acorrentado por teus anseios sou
escuto teus lábios siderantes
aperte - sugue - beije
a vida é tão curta
e minha capacidade de criar
tão intensa
e minha alma tão tensa de viver
e minha vida?.................
............é tão curta........

Do livro PROFANAS & AFINS, 1990, Oficina Letras & Artes.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

ROGÉRIO SALGADO - Entrevista

ROGÉRIO SALGADO


BIOGRAFIA

Rogério Salgado nasceu em Campos dos Goytacazes(RJ). Passou sua infância e parte da adolescência vendo com frequência, sua mãe, a pianista Glória Salgado, tocar piano. Aos sete anos, seu pai veio a falecer, deixando-lhe de herança, uma grande biblioteca. Em 1974 participou do Teatro Escola de Cultura Dramática, onde descobriu a arte. Em 1975 escreveu seu primeiro poema. Participou de muitos festivais de música em sua terra natal. Em 1979 criou com os poetas Fernando Leite Fernandes, Guilherme Fernandes e Anthony Garotinho (este último, atual político de renome nacional) o Grupo Abertura de Artes e Estudos, escrevendo a peça teatral Retorno a 200 metros, em parceria com eles.
Em 1980, com a morte da mãe, mudou-se para Belo Horizonte/MG. Em 1983 criou com Ecivaldo John e Virgínia Reis, a revista Arte Quintal, um dos mais importantes veículos culturais da época.
Em 1993 criou o projeto In/Sacando a Poesia, que consistia em colocar poemas dentro de saquinhos de embalar pães nas padarias, recebendo pelo projeto, o Prêmio Capital Nacional-Categoria Poesia, em Aracaju/SE, em 1998.
Em 1994 teve um conto de sua autoria, adaptado para o extinto programa Você Decide, da Rede Globo de Televisão.
Em 2000 foi editor e orientador de pesquisa do livro Uai Poético Pesquisando as Raízes e Veias Poéticas, de Virgilene Araújo, uma reunião de poetas atuantes na capital mineira. Neste mesmo ano, criou com Wal Souza e outros poetas, o Sarau da Lagoa do Nado, dando inicio a efervescência poética que iria crescer nos próximos anos na capital mineira. É idealizador e realizador, juntamente com Virgilene Araújo, do Belô Poético-Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte e Poesia na Praça Sete, este realizado com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de BH, já em sua 3ª edição.
Figura em muitas antologias, entre elas: A Poesia Mineira no Século XX (Imago Editora-1999), organizado por Assis Brasil.
Tem publicado mais de 20 livros.
Em 2008 Virgilene Araújo Publicou o livro Trilhas, uma seleção de 70% de toda a obra poética de Rogério Salgado.
Em 2010 estará comemorando 35 anos de carreira poética.
Contatos: poetarogeriosalgado@yahoo.com.br

ENTREVISTA


SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

ROGÉRIO SALGADO - Depois que escrevo, participo de toda editoração de meu trabalho literário e o vendo de mão em mão, essa é uma de minhas atividades favoritas: vender o meu próprio trabalho e dele sobreviver. Como Gestor/produtor cultural realizo anualmente o Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte, o Poesia na Praça Sete e oficinas de poesia. Como jornalista, escrevo críticas em diversos jornais e no meu blog: (artistasencena.blogspot.com). Mas meu orgulho mesmo e como gosto de ser reconhecido é como poeta.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

ROGÉRIO SALGADO - Desde menino, quando meu pai faleceu e me deixou muitos livros, entre esses vários de poesia: Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Camões... a partir dali fui me interessando pela leitura e pela escrita. Sempre tive o total incentivo de minha mãe que me sustentou até os 26 anos de idade, sempre acreditando na minha poesia e me dando apoio como poeta.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

ROGÉRIO SALGADO - São mais de 20 livros publicados, sendo: Tontinho (Contos –1982), Meu Íntimo (Poesia – 1984), Lagoa do Nado-Uma luta pela Natureza (Cordel – 1984), O Encontro que deu certo (Cordel – 1985), Menor, esse abandonado (Cordel –1987), Jesus Cristo Cego (Poema – 1987), Afinidades (Poesia – Co-autoria com Tânia Gabrielli e Jorge Luiz Jorge – 1987), Textículos (Poesia – 1989), Meu romance com Greta Garbo (Contos – 1992), A/Penas Dois (Poesia – Co-autoria com Said Oliveira – 1992), In/Sacando a Poesia (Poesia – Co-autoria com 5 autores -1993/1995), Cinzas (Poesia – 1995), Verdes Sons Azuis (Poesia – Co-autoria com Wilmar Silva, Said Oliveira, Flávio César Andrade de Freitas e Marcello Biancalana – 1995), Três Contos Reais (Contos - Co-autoria com Aníbal Albuquerque e Said Oliveira – 1996), Depois de uma dose de gim (Poesia – 1996), Treze canções de amor e amor pra montanha que vejo (Poesia – Arte – 1997), Uma canção de amor para Luiza & um poema de saudade para Isabella (Poesia – 1997), Re-In/Sacando a Poesia (Poesia – 1997/1999), Poemia & Dezesseis Poemais (Poesia – 1999), Um quarto de ofício (Poesia – 2000), A caminho de Liverpool (Contos – 2000), O Pagode da 17 (Romance – 2000), Completa Ceia (Poesia – 2001), Brincando de representar (Teatro – Co-autoria com Virgilene Araújo – 2001), Re-In/Sacando a Poesia-Especial poetas mineiros (Poesia- Co-autoria com 4 autores – 2001), Ainda Menino (Poesia – 2002), In/Sacando a Poesia-Saco solo-Volumes I, II e III (Poesia – 2003), Tipo Exportação (Poesia – Co-autoria com Virgilene Araújo – 2004), Quermesses (e Outros Poemas Profanos) (Poesia – 2005), In/Sacando a Poesia (Saco último – Poemas engavetados) (Poesia – 2006), Exalando Cheiro de Lua Nova (Poesia – 2006) e No Brasil tudo acaba em... (Poesia – Co-autoria com Virgilene Araújo - incluído na coletânea Trilhas - – 2001).

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

ROGÉRIO SALGADO - Na minha literatura: os sociais, políticos, religiosos, humanos... Tenho uma peça teatral: Lodo que se passa no submundo da prostituição, o conto Tontinho que se passa no morro do Salgueiro, Rio de Janeiro. O meu livro de poesia: Quermesses (e outros poemas profanos) critica o capitalismo religioso e por aí vai...

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

ROGÉRIO SALGADO - Extasio-me com o humor inteligente do Luiz Fernando Veríssimo.
Tenho muita admiração pela literatura dos saudosos José Cândido de Carvalho e Osório Peixoto Silva.
Da literatura universal me encanto com Dom Quixote de Miguel de Cervantes. Os poetas/escritores são tantos: Drummond, Quintana, Bandeira, Mário de Sá carneiro... Mas o primeiro poeta a fazer minha cabeça foi o poeta Artur Gomes, meu conterrâneo e meu primeiro livro de cabeceira foi um cara chamado Carlos A. A. de Sá e o livro se chamava “Canto Tentado”. Todos eles e muitos outros tem a minha admiração.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

ROGÉRIO SALGADO - Leiam, leiam, leiam muiiito. Tenham curiosidade, participem dos movimentos poéticos pelo Brasil e fora dele, na medida da possibilidade de cada um. Conheçam os poetas vivos, estudem sobre os que já não estão mais entre nós. Procurem compreender a história da poesia brasileira e outras.
E o mais importante: tenham tolerância com as preferências poéticas de cada um e sejam humanos.

POEMAS


Poema sem metáforas

Para Maiakovski

Um corpo inerte na calçada
vítima de bala perdida
ao redor da morte
pessoas desesperançadas
esperam um novo milagre
que lhes tragam algo novo

... e o poeta em sociedade
preocupa-se com o poema alheio...

a violência violenta as estruturas
humanas que habitam dentro
de cada um de nós
como se vivêssemos
num vietnã metropolitano
em pleno século XXI

... e o poeta em sua toca
sonha com o seu próprio umbigo

pessoas dormem nas ruas
sem metas e sem destinos
suas camas são papelões
espalhados em desalinho
como animais quaisquer
num zoológico concreto

... e o poeta afinal
só quer ver
sua foto num jornal!

Rogério Salgado


Manhãs Encobertas*

Chove em BH amargamente
assim como no Rio e em tantas capitais
como em Bagdá, há homens desprotegidos
crianças nuas e mulheres descobertas
cobertos pelo véu da noite
que vem encobrir todas as manhãs

é desarmônico que algum soldado
se desarme em lágrimas neste momento
diante de uma fotografia amiga

e enquanto estômagos vazios
agonizam-se à espera de um milagre
pregamos a paz em outros locais
bebendo Coca-Cola, consumindo mais e mais.

Rogério Salgado
*Escrito em parceria com Virgilene Araújo.



Um samba curto sem rima

para Benjamim Moloise

A afro descendência
é um nó cego
engravatado numa corda
em que há numa extremidade
um ideal
e na outra extremidade
uma vida desfeita em dizer verdades
com poesia.

Rogério Salgado


Quadrilha
(ou Como diria hoje, Drummond)

Partido que amava senador
que amava propina
que amava mensalão
que amava congresso
que amava poder
que amava eleitor
que amava samba cachaça e futebol.

Rogério Salgado


Sonata contemporânea da ausência

Pra Vi

Meu coração mais parece um caroço de ervilha
perdido no campo
quando se encontra na sua ausência

é como se exprimido estivesse
em manifestar a solidão
de não ver você tão próxima

é um longo vazio
enchendo-me de nada.

Quando você não está presente
sinto-me um náufrago sem bóia
um dicionário sem sinônimos
um poema sem palavras.

Solidão é um sorvete
derretendo numa taça
em pleno sol escaldante
numa sorveteria
na avenida central da cidade
com tantos transeuntes passantes
e a gente sem percebê-los.

É um poema sem nexo
num desconexo total
é um nada mais que real
é um nada total.

Rogério Salgado