LÍLIAN MAIAL
PEQUENA BIOGRAFIALÍLIAN MAIAL é carioca, médica, escritora e poeta. Publicou, em 2000, “Enfim, renasci!”, com 135 poemas, e tem mais 4 livros no prelo. Participação em dezenas de antologias, desde 1999.
Coordenadora Regional no Rio de Janeiro para o MIP (Movimento Internacional Poetrix), teve poetrix publicados, em 2002, na “Antologia Poetrix”, e em 2007, na “Antologia Poetrix II”, além de ter organizado um e-book com poetrix de 10 participantes do MIP.
Filiada à REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras), participou de 4 antologias lançadas nas Bienais do Livro de São Paulo.
Filiada à APPERJ (Associação de Poetas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro).
Consulesa do Rio de Janeiro para o movimento POETAS DEL MUNDO.
Tem seus trabalhos divulgados em inúmeros sítios nacionais e internacionais, é colaboradora de revistas eletrônicas em vários Estados do Brasil e no exterior.
Homepages: www.lilianmaial.com - http://lilianmt.zip.net - http://lilian.maial.zip.net
E-mail: lilian.maial@gmail.com
ENTREVISTA
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?LILIAN MAIAL - Sou médica, de profissão; mãe, de vocação; mulher, por formação; poeta, sem opção... rsrsrsrs
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ? LILIAN MAIAL - Acho que já nasci fazendo poesia, ou, quem sabe, peguei esse vírus quando criança. Tenho um poema - Droit & Croissant - que em um verso eu menciono: "todo mundo tinha catapora, eu tinha poesia". Creio que assim que aprendi a lidar com esses símbolos, que são as letrinhas, passei a escrever os poemas que já fazia.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ? LILIAN MAIAL - Livro inteiramente meu foi o “Enfim, renasci!”, que reúne 3 livros, com um total de 135 poemas, todos de fase inicial da minha poesia. Tenho inúmeras participações em antologias, algumas como prêmio de concursos, outras por adesão. Tenho ainda e-books, inclusive um que organizei só de poetrix, de membros do MIP (Movimento Internacional Poetrix). Tenho 4 livros prontos, ainda aguardando publicação: um de contos, um de poetrix, um de poemas livres, um de crônicas e contos.
SELMO VASCONCELLOS - Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários ? LILIAN MAIAL - Aquela em que meu olhar se fixar. Ando sempre com papel e lápis, porque pode ser a qualquer momento. Agora, por exemplo, me deu vontade de escrever. Vou parar de responder para escrever algo que brotou, depois eu volto. Brincadeiras à parte, eu gosto de calma e silêncio para escrever e, de preferência, algum lugar em contato com a natureza, como uma praia vazia, um dia de chuva num canto da varanda, quando faço caminhadas na floresta da Tijuca, coisas assim.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?LILIAN MAIAL - Na época do segundo grau, na escola, tive oportunidade de conhecer profundamente alguns escritores nacionais e internacionais, e cheguei a sofrer influências por conta deles e seus questionamentos. Os mais destacados foram: Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Mário Quintana, Manoel Bandeira, Drummond, João Cabral. Depois fui descobrindo outros, como Sylvia Plath, William Blake, T.S.Elliot, Manoel de Barros, Maiakóvski, Eduardo Alves da Costa, Adélia Prado. Com o advento da internet, alguns poetas me chamaram a atenção, como: Nathan de Castro, Márcia Maia, Silvana Guimarães, Selmo Vasconcellos, Lau Siqueira, Goulart Gomes, Líria Porto e tantos outros, com a felicidade de poder me tornar amiga de muitos deles.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?LILIAN MAIAL - Creio que o mais importante para os novos poetas e escritores é o mais difícil, que é não ter pressa. A maioria dos novos autores (e me incluo no grupo) comete o mesmo pecado, que é o da quantidade. Você escreve tudo e mostra logo, publica no blog, no site e quer ver tudo publicado em livro. Livro é coisa séria, fica para a posteridade. Então há que ser cuidado com carinho, visto e revisto um sem número de vezes, com uma autocrítica bem austera, para que o controle de qualidade não deixe passar nada que não seja o melhor. Se eu fosse republicar o “Enfim, renasci!”, certamente muitos poemas ficariam de fora. Não que não goste deles, mas porque foram publicados de impulso, sem o devido amadurecimento. Sugiro que os novos poetas leiam bastante os clássicos, para saberem distinguir o joio do trigo de sua própria lavra.
POEMAS
CARTA PARA ALGUM POETA PERDIDO EM PENSAMENTOS SOBRE SEU CAVALOI.
Sei que te devo uma carta, um verso, uma palavra.
Sei que estou te devendo.
Sei que estou.
Sei.
No fundo, tenho um certo temor do que escrever.
Hoje as palavras me assustam.
Não passo pela boca e pela pena o que me vai
por dentro.
Tu sabes o que me vai por dentro.
Tu sabes o que me vai por dentro?
II.
Corro o risco de não alcançar o objetivo.
Há algo de atávico nessa mania de buscar objetivos.
Não há objetivos hoje. Há apenas.
Queria te dizer que há algo de mar em nós.
Algo. Alga. Mar: infinito e curvo,
profundo e inconstante,
enchente e vazante.
Estou vazante, inconstante e profunda.
Há uma janela para um mundo que não me deixei penetrar,
tangenciei, curiosa e indolente.
E a janela se abriu, como um portal,
de interrogação em forma de poesia,
contestação em verso branco,
folha virgem, ansiando por um poema profano.
Do meu mar vi um outro tempo,
vastidão de dúvidas, senões, sentidos e música.
Pressinto escuridão e luz.
Duas portas.
Muitas portas e duas pernas.
Duas pernas e uma mente octópode.
Do outro lado, a fragilidade da poesia,
a paixão fugaz de um verso de areia.
Grão de sonho.
Sílica e lágrima.
É o mar: sílica e lágrima.
Dissolvo-me em sílica e lágrima e verso e saudade.
III.
Canta sempre, que a música me embala e me enleva!
Mas deixa teus dedos tocarem como lhes vierem os sentidos.
Sei que virão bem, virão carinhosos, delicados, atrevidos,
violentos, despudorados, quem sabe castos?
Mas que venham inteiros.
Eu sei essa coisa de vísceras, entranhas, sangue, nervos, carne.
Tenho caninos nos versos e na mente.
Loba, vampira e profana. Poeta.
Eu te mato e te faço o parto em cada verso.
Dou-te vida e agonia.
E tu anseias pela dor e pelo gozo.
Tu me fazes poesia.
E me sinto mais nua.
E gosto de me despir para teus olhos.
Um dia te surpreendo pudica,
noutro absolutamente devassa.
Mas sei que tu me sabes apenas poesia.
IV.
Preciso do teu grito, berro, ódio.
Preciso da adrenalina e do ópio,
da paz da lembrança e da agonia da espera.
Devo-te a adrenalina, o ópio, o beijo, o verso,
a estaca no peito, o nó na garganta,
a leveza da meninice, o peso da idade,
o gozo da fêmea,
o colo da mãe.
Não! Não devo nada, eu sugo!
Buraco negro,
que suga e devolve em poesia!
Não sei o que tu és,
mas me pego ouvindo música
e indo a ti em notas suaves e fragrâncias doces,
ao tempo em que me vejo em transe,
em sintonia cósmica com a perplexidade de nós.
Te quero por perto e à distância,
que matéria é ânsia e perda.
Não quero me acostumar a ti,
mas preciso te ler sempre por perto,
te sentir me observando,
captar teus medos e teus lapsos,
tuas meninices absolutamente infantis
e tuas verdades senis.
Caso pensado.
Toma lá, dá cá.
V.
Ousei me apagar do tempo,
e tu te aderiste, me foste receptor.
Hoje não tenho referência dimensional.
Tenho versos, reversos, inversos, anversos.
Tenho esses amontoados de palavras,
onde sou mais eu que eu mesma.
Tenho e dou e recebo mais.
Só sei que adoro dizer teu nome.
VI.
É isso o que somos um para o outro:
impossíveis, imprevisíveis, arrebatadores,
surpreendentes, instigantes, misteriosos,
irritantes, descartáveis e funda-mentais.
Nem o (a)mar consegue nos conter.
Somos dicotomia elementar.
Coisa básica, coisa quântica, exemplo do inexplicável.
Quero a palavra que nos nomeia.
Simples assim: quero.
Sei o que sentes, mas não direi,
a palavra vem adquirindo vontade própria,
evito contato mais íntimo com ela.
Sou pagã, herege, profana,
absolutamente atéia,
mas sei mais de deus que ele de si ou dos homens.
Sei mais de amor, que os amantes shakespeareanos.
Sei mais de ti, que tua mãe, teu pai e teu ego.
E nada sei.
Não te quero confortável.
Quero beber tua agonia, tua dor e tua poesia.
Quero teu suor, tua espera e teu sangue.
VII.
Se atrapalho sonetos friamente construídos,
até o último terceto,
tu os escreves avessos aos sentidos,
mergulhas neles e surfas na paixão que eles instigam.
Sorves a dor que eles descrevem,
gargarejas com as lágrimas que deles rolam,
sorris ao enxugares os olhos de mar.
E dás de comer aos tubarões...
VIII.
Eu conheço a criança e o velho,
o medíocre e o brilhante,
o homem e mulher que tu me és,
e não sei dizer qual gosto mais.
Mostro o tornozelo da dama da noite,
da senhora dos versos,
da deusa dos ventos,
da dona da saudade.
Abro-me e me fecho,
mostro e me escondo,
ouso e me retraio.
E te traio.
Mas grito teu nome,
que nem me lembro de cor.
IX.
Há o débito, confesso.
Porém não sei nem se pretendo pagar.
Quem sabe não prefira
esperar que me seja arrancado à força e com suavidade...
O teto que protege, a parede profanada, o chão que piso,
o peito que esfolo e que escrevo versos de distância e de insolência.
O corpo que acaricio e arranho,
o falo que não falo,
mas que ensino o caminho da paciência e da tortura.
As facas de dois gumes!
Facas de tatuar a loucura.
X.
Mas se tudo falhar, ainda há o mar.
E os olhos.
E a lua.
E os poemas.
Depois nos vestiremos de gente,
consumiremos abraços, carinhos
e coisinhas infantis.
Brincaremos com as palavras,
com a pele, a carne, a unha, o (a)mar.
XI.
Nua...
É assim que seria: nua.
Sei como seria te encontrar.
Coisa de bichos se reconhecendo:
olhar, como a mãe que acabou de parir,
que despe o filho suavemente,
que repara em cada dobra de seu corpo,
percebe o tom da pele, a textura,
o jeito dos olhinhos, o cheiro,
o contorno da boca, os dedinhos, as mãos, os pés...
Dissecaria - em silêncio cruel - cada pedacinho teu.
Saborearia cada movimento respiratório,
sentiria o teu batimento cardíaco.
Repararia se tens sopro no coração.
(coração de poeta tem suspiro).
Eu me sentiria divina.
Me sentiria mãe.
Me sentiria nua.
Me sentiria culpada.
Me sentiria livre.
Me sentiria velha.
Me sentiria menina.
Me sentiria responsável e inconseqüente.
Me sentiria segura e descontrolada.
Teria medo.
O que vomito em ti é tão meu,
que não caberia exibir nem mesmo a ti.
Se teus olhos me encarassem,
não conseguiria, talvez, sustentar meu olhar.
Saberia que me verias despida,
meu pudor me enrubesceria tanto,
que sangraria na tua frente.
Não se trata de mim.
Não dessa que sou, que tem a minha fisionomia.
Não dessa que tem meu corpo.
Mas estranhamente é a que tem meu cheiro,
meu sangue, meu suor e minha poesia.
“Poeta em pele de cordeiro"...
Eu te devoro todos os dias e tu deixas,
Tu gostas,
Tu esperas.
Tu estás espalhado em minha vida... Ou não!
XII.
Meu cheiro é só meu.
É mistura do que me consome e do que te apetece.
Teu cheiro é só teu.
Bom é esse nosso cheiro de coisa esquisita
e, ao mesmo tempo, tão familiar.
Esse ódio que nos batiza.
Essa louca vontade de doer e deixar escapar gemido.
Sim! Somos instintos despudorados,
pré-palavras escancaradas,
clandestinos num comboio.
E tu: meu neanderthal nouveau!
Eu quero esse arrepio!
...
Aquela, que te possui.
Rio, 16/08/07
INCONTÁVEIS E QUENTES MADRUGADASAs incontáveis quentes madrugadas,
em busca da palavra nunca certa,
de nada adiantaram ser varadas,
dilacerando o sonho da poeta.
Nossos dragões: defesas desarmadas,
ante a ternura que esse olhar desperta,
de tantas chances tão bem camufladas,
nas sombras dos sonetos – dor secreta.
Enfim a perseguida rima rica,
teu nome, sussurrado no papel,
balbuciado em doses de quimera..
Covarde esse papel que não se arrisca,
só inscreve rocha, mar, estrela e céu,
pois rasgo-te, que o tempo não espera!
DOAÇÃO (Para Selmo Vasconcellos)Acima de todas as coisas,
das fogueiras, das veleidades,
um gesto inesperado,
um salto,
a mão de calmaria.
O mesmo par de olhos a observar estrelas,
e, apesar do brilho próprio,
reluz na madrugada das letras.
Guardião dos versos,
brota de rochas para aspergir fragrâncias.
Destino de magos,
teu nome engloba a imensidão do céu,
a proteção do elmo,
a imponência grave do violoncelo,
e a ligação dos sonhos, como um elo.
Em sua grandeza,
O universo sustenta astros,
os que iluminam e os que são iluminados.
No fim das contas,
apenas luz.
Re-volverNo peito-húmus,
um músculo ávido de palavras.
Revolver a terra,
adubo em gotas,
versos irrigados.
O verbo cala,
o solo seca,
racha-se a criança -
migalha de pão dormido.
Fome e chão,
pisa descalça
em brasas da indiferença.
Pele e sangue ressequidos,
aridez de lágrima,
espinho e barro
a maquiar a pele,
manchas de verde e amarelo.
Chora a pátria,
pétrea de matas pálidas,
alopécia de cores,
extensas clareiras.
Terra vermelha
coberta do pó,
rugas no mapa,
pistas de pouso -
Clan-destinos.
Onde o branco,
a pureza,
a promessa?
Traída a terra,
ouro de tolo,
sorriso de icterícia,
parcos dentes
de mastigar solidão.
Céu de anil,
nuvens sanitárias,
homem esquálido
a plantar pesticida.
Traída a terra,
clamor rouco e abafado,
fumaça dos charutos cubanos,
pendurados nas bocas patronais,
sem lei e sem letra.
Traída,
a terra lamenta por seus filhos,
amamentados de esmola,
de enteados cuspindo confeitos,
mordendo,
com presas de ouro,
o amanhã e a decência.
Traída a terra.
Punhal enterrado no seio,
mãe órfã de rebento raquítico.
Abre-se a fenda,
engole o que resta:
homem e praga,
riso e lágrima,
orgulho e carbono.
Num futuro fóssil,
tropical tupiniquim,
semear e colher...
Milagre!
O SEIO ESQUERDO Aconteceu.
Ninguém espera
E, na primavera,
Foi-se o seio esquerdo.
Foi-se o toque,
Ficou a sensação fantasma
Foi-se o alimento,
Ficou o vazio no peito.
Como ser mulher, sem o seio esquerdo?
Como ser mãe, sem a mama esquerda?
Como ser profissional, sem o outro par?
Como se olhar no espelho nua?
O seio direito, encabulado,
Só e pendurado,
Emoldurando o luto
Do parceiro canhoto.
Está faltando o outro.
São dois.
Originalmente dois.
Há que ser dois.
Nunca mais seus dedos
Apertando a carne macia e rosada
Nunca mais sua boca
A brincar de trincar e arrepiar
Nunca mais a dança sensual
Dos pares no banho
E entre lençóis de cetim.
Há um imenso vazio
Bem maior que a mama
Que atinge camadas profundas
Da própria natureza fêmea.
Há a ausência constante
Lembrada todo o tempo
Pelo traço da cicatriz
Dessa ferida que não fecha.
Há a dor, os ductos, os lutos
Mágoa infiltrante, ingrata, infeliz.
Dias vividos sem perceber...
E para quê viver?
Olhos que nunca repararam,
Agora se recusam a olhar.
Não tem remédio.
Não tem escolha.
Tem alopécia, náusea e dor,
Tem quimioterapia.
Tem agonia,
Solidão de espinho e flor.
Tão falso o enchimento,
Disfarça a roupa,
Como peruca da alma,
Que dribla olhares piedosos
De mulher barbada de circo
Que extirpa seus próprios caroços.
Os dias arrastados, as horas contadas...
Quando volta ao normal?
Quando se acorda do pesadelo?
Ou tentar esquecê-lo?
É tão desigual, tão caolha!
Fica sem sentido, tão velha!
Um robusto, imponente, desejável,
Outro, um traço doente, indelével, lamentável.
Luta diária e desanimada
Para sobreviver.
Corpo sem jeito,
Mulher sem peito, que cala o grito
Tempo finito, seio bonito
Que se foi.