
BIOGRAFIA
Samantha Abreu é de Londrina (PR), onde estudou Letras e estuda Marketing. Já tem 30 anos e não se lembra mais quando foi que caiu nas graças da literatura. Tem um livro na gaveta, já foi publicada em antologias, sites e revistas literárias. Escreve os blogues Haute Intimité, a série Mulheres sob Descontrole e é uma das garotas dos Versos de Falópio. Além disso, tem um projeto de vídeo poemas no Youtube.
Haute Intimité: http://samanthaabreu.blogspot.com/
Mulheres sob Descontrole: http://mulheressobdescontrole.blogspot.com/
Versos de Falópio: http://versosdefalopio.blogspot.com/
Canal no Youtube: http://www.youtube.com/saabreu
ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?
SAMANTHA ABREU - Costumo brincar com isso, pois quando se trata de trabalho, de vida profissional, eu digo que me divido em duas pessoas completamente diferentes. É uma vida dupla, de fato. Para fins financeiros, sem deixar de gostar disso também, é claro, trabalho como gerente de callcenter. Uma loucura, correria total e adrenalina o tempo todo. Paralelo a isso, estudei Letras, na universidade estadual de Londrina (onde nasci e vivo até hoje), e agora faço faculdade de marketing. Depois, para fins passionais, como costumo dizer, me envolvo até o pescoço com literatura. Participo de eventos literários, de saraus e procuro, na medida do impossível, participar de todos os programas e projetos relacionados à cultura e à literatura que encontro pela frente.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?
SAMANTHA ABREU - Não sei dizer com exatidão em que momento aconteceu. Lembro apenas que me dei conta muito cedo de que havia comigo algo relacionado à escrita. Desde pequena escrevia cartas e textos parecidos com crônicas. Depois, quando comecei a cursar a faculdade de letras, senti de verdade e com mais capacidade de entendimento que eu tinha algo a dizer através de textos. Estudar teoria literária foi muito importante e determinante para que eu pudesse dar o passo inicial na produção, ainda tímida, de pequenos contos e algumas poesias. Na mesma época, participei de dois concursos literários nacionais pela empresa para a qual trabalho, e esses concursos ofereciam oficinas preparatórias de criação. Nessas oficinas, recebi em Londrina e tive oportunidade de trocar idéias e experiências interessantíssimas com gente como Marçal Aquino, Alice Ruiz, Cintia Moscovich, Marcelino Freire, Frederico Barbosa, Nelson de Oliveira, João Silvério Trevisan e outros. O contato com essa gente me despertou uma fascinação ainda maior pela literatura, pela poesia, pela capacidade de expressão textual. Fui vencedora dos dois concursos, um em primeiro lugar e outro em segundo. Foi a partir daí que, definitivamente, não consegui mais parar. E a internet também ajudou muito no contato, na divulgação e relacionamento com gente que, assim como eu, também estava muito a fim de escrever e ler coisas novas.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País?
SAMANTHA ABREU - Meu livro, que já está pra se dividir em dois, ainda está na gaveta, quase pronto e esperando pra ser publicado. Tenho textos integrando duas antologias nacionais, escrevo meu blogue ‘Haute Intimité’ há seis anos e estou em alguns sites e revistas web literárias como Germina, Escritoras Suicidas, Minguante, Lasanha, etc. Além disso, tenho texto também na edição nº20 da Revista Coyote.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia?
SAMANTHA ABREU - Acho que todos. E, embora possa parecer clichê, sinto mais dificuldade (o que não quer dizer impossibilidade) de produção quando as coisas estão rotineiramente sob controle e em uma constância confortável. Quero dizer com isso que sinto mais facilidade quando possuo qualquer tipo de incômodo latente.
No entanto, percebi em mim uma veia cômica com idéias que apareciam independente do cenário. O que fiz foi separar bem as coisas e criei uma série chamada ‘Mulheres sob Descontrole’. É nela que me divirto tentando satirizar as dúvidas, anseios e loucuras das mulheres que conheço, das que observo e das que tenho dentro de mim.
Mas, talvez por possuir uma temática relativamente intimista, normalmente as fases tranqüilas não me trazem boas atmosferas de produção. Só que isso não é regra, é claro. A poesia acontece por vontade própria... o que a gente faz depois é aparar as arestas, desenhar um lado, apagar outro e por aí vai.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?
SAMANTHA ABREU - Os que eu admiro são muitos... é claro que temos os indiscutivelmente invejáveis como Drummond e Clarice, minha musa maior. Também gosto muito da literatura beat e da poesia brasileira de Adélia Prado, Ana C., Hilda Hilst. Procuro ler muita literatura contemporânea e posso dizer que existe, sem dúvida, muita coisa boa sendo produzida. Além disso, minha cidade tem uma produção intensa e de ótima qualidade, o que me mantém constantemente em contato com produção moderna e com quem está produzindo isso tudo.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?
SAMANTHA ABREU - Tenho pra falar o que falo pra mim mesma: poesia é um exercício quase diário. E não está ligada apenas à produção, mas, principalmente, à assimilação. Por isso é tão importante ler, ler, ler muita poesia, seja em verso ou em prosa. Mesmo quando se tem o que dizer, a linguagem é o que define a poética. E essa linguagem, nós adquirimos através do constante contato com ela. Assim, é necessário conhecer tudo o que for possível, buscar diferentes formas de expressão, até que se construa a própria. Digo também que não se faça poesia por dinheiro, pois o risco de frustração será grande. Como qualquer arte genuína, no Brasil principalmente, deve-se fazer por paixão, por necessidade e esforço. Clarice disse que é transpiração. Pois é, transpirar exige esforço e entrega intensa, daquelas em que não se cogita desistir nunca.
POEMAS

Miss Mulherzinha
Percebo que, afinal,
sou apenas uma mulherzinha
cheia de pequenos
detalhes.
Uma Miss Dalloway
simulando uma festa de vida,
mas amando
o desejo de morte.
Mulherzinha do tipo que não se nota.
E você procura tanto
pelas ruas
a desgraça de um bom drama,
que não me suporto mais ser.
Arreganho, pois, a alma, depois
das pernas,
e te mostro como um bom drama
se traveste de hábitos.
Pequenas Mortes
De tudo o que me resta e que não seja
amor,
seja
o portão de partida
despedida,
de pequenas causas diárias.
Eu sangro momentos,
derreto venenos,
e morro nos cotidianos fins.
Ainda prefiro
a mortalha
envolvendo
afazeres não entranhados.
Quero a devastação
irreversível
de qualquer pequena vida
vã.
Universo Particular
Existe um universo particular ainda desconhecido.
Podem-se saber algumas cores e dores, sem esperar com isso qualquer tipo de segurança que garanta autodomínio. A ribanceira depois da curva é sempre inesperada.
Desse mundo, até agora não se sabe se redondo, se planície ou pra que lado se deve ir. A única certeza é de que no limite da razão, ainda somos perdoáveis. Mas a um passo depois da linha, não.
O Avesso
A pele lisa, o cabelo solto, o sorriso esticado.
Sou toda ostentação da ventura.
Minhas próprias formas de me aconchegar em máscaras.
A conversa proposta,
a gargalhada dissimulada,
a satisfação inventada.
Sou toda arquitetura:
com sacada, paisagem e brisa.
Sou a brisa,
o copo gelado,
o arrepio dos pelos.
Aqui fora, claridade.
Mas o avesso está coberto de sangue.
De febres e guerras
Uma carne exposta para que ele acaricie. É assim que sinto quando, meticulosamente, ele me despe de todas as peles e me toma por todas as raízes e nervos.
Vamos construir um palácio, ele diz, vamos mudar pra Veneza, vamos rir pelas ruas, dormir embriagados. Vou te arrancar todas as dermes, todas as noites, vou te tirar as máscaras, te deixar como és, ele diz. Faremos baderna em igrejas, gritaremos palavrões da janela, levaremos os cachorros da rua pro nosso apartamento. Vou lhe fazer um filho e uma tela expressionista.
Eu ainda não entendi se é loucura ou arrebatamento. Meus pés suam, não consigo correr sem cair e ele me alcança, me retoma aos beijos. Ele me mantém no laço ardido do amor e ódio, do bem e do mal. Esse amor é filho da guerra, eu digo, somos inimigos. Ele ri, toma calmamente outro gole, me pega pelo braço e me arrasta até o quarto mais próximo. Ali entendo como sou sempre o país mais fraco. Terrorista, eu grito. Ele me lambe todos os vãos, me morde as sobras, me engole. Nossa febre é vida, meu amor, ele sussurra me arrancando a orelha.
Fadigamos abraçados por alguns minutos, depois levantamos e saímos rindo pela rua, chutando pedrinhas e falando obscenidades para que as velhotas de portão nos escutem.
5 comentários:
meu querido,
é uma honra pra mim estar aqui.
Muito obrigada!
BeijO!
Ótima entevista!
Gostei da entrevista!
É bom te conhecer mais um pouco,a coragem, a inteligência...
Parabéns, Samantha!
Beijão do,
José Calvino
RecifeOlinda
Samantha, mulher!
Adoro seus textos. Tenho acompanhado sempre. A entrevista ficou ótima. Saudades de pessoas como você aí de Londrina. Beijos...
Interessante a entrevista. De certa forma aqui se desnuda o outro lado da artista. Como a Samantha, também levo uma vida profissinal oposta(ou seria duas vidas paralelas?) à vida literária, áreas totalmente diferentes. Sou operário e apaixonado por literatura! Abraços!
Ótima entrevista. Parabéns!
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