
BIOGRAFIA
Délio Pinheiro é jornalista. Natural de Serranópolis, norte de Minas Gerais. Tem um livro de poesia lançado e está com um novo, um romance, no prelo. Foi um dos finalistas do Concurso Nacional de Novos Contistas da Revista Bravo!, tendo seu texto publicado no site da prestigiada revista de artes. É estudante de Direito, casado com a também jornalista Camila Chaves, e trabalha na afiliada Globo de Montes Claros, cidade onde mora. Seu blog: www.deliopinheiro.blogger.com.br
ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?
DÉLIO PINHEIRO - Sou jornalista profissional, trabalho na InterTV, afiliada da TV Globo no Norte de Minas Gerais, como repórter. Trabalho também com assessoria de comunicação da organização não governamental CAA, Centro de Agricultura Alternativa, que se dedica à luta das comunidades tradicionais em busca de seus direitos. Quilombolas, indígenas, vazanteiros e geraizeiros são alguns destes povos tradicionais de Minas.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?
DÉLIO PINHEIRO - Fui despertado para os encantos das letras ainda criança. Sempre fui muito curioso. Minhas primeiras leituras foram os gibis da Disney e os livros de Monteiro Lobato. Com o tempo passei a ser um leitor compulsivo, do tipo que não consegue ficar um dia sequer sem ler um bom livro. E pretendo ser assim até o último dia de minha existência.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País?
DÉLIO PINHEIRO - Até agora lancei somente um livro: “Não há rumos, só há rimas- poesias desvairadas e sonetos imprecisos”, de poesia. Mas já tenho o próximo prontinho para ir para o prelo. Este será um romance.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?
DÉLIO PINHEIRO- A atmosfera ajuda bastante, mas curiosamente alguns dos poemas mais densos que escrevi foram em lugares paradisíacos. Acredito que o pano de fundo temporal ajuda mais que o ambiente físico. Se estamos em um tempo de trevas é possível uma poesia libertária mais interessante, ou se estamos em um tempo como esse que passa na janela, sem grandes inquietações e repleto de mesmice, é possível costurar versos que despertem a juventude do estranho limbo em que se meteram. Nunca vi uma juventude tão alheia como essa que está aí, com suas músicas péssimas e papos canhestros. É preciso reviver o espírito político e social, por exemplo, dos anos 1960. Não vivi essa fase, pois acabo de contornar a curva dos trinta anos de idade, nem tampouco concordo com essa “juventude bundalizada” que está por aí, nas micaretas e no shoppings. Esta inadequação, além de outros fatores, certamente me leva a escrever.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?
DÉLIO PINHEIRO - São muitos, centenas de nomes interessantes estão por aí à espera de minha atenção, e também da sua. Tenho profunda e especial admiração por Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, dois mineiros geniais.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
DÉLIO PINHEIRO - Escrevam mesmo sabendo que seus versos se perderão nos vãos, nos desvãos, nas esquinas apressadas, e nos torvelinhos da vida. Um dia, quem sabe, depois que o vazio sobrevier, alguns nos ouvirão. E mesmo que não ouçam, paciência...
Texto inédito: Um capítulo de meu próximo livro

Nos meses de setembro e outubro os ipês floridos rebentavam por toda parte e cobria de amarelo e rosa todos os cantos da fazenda, em especial a alameda que dava acesso à casa-grande.
A via, pavimentada com pedras geometricamente encaixadas, era constituída em suas margens, por palmeiras imperiais e uma dúzia de ipês, que emprestavam ares palacianos ao casarão colonial da estância, que se destacava por suas paredes brancas e suas mais de vinte janelas frontais, dispostas em dois andares.
No oitão outras dezenas de janelas se perfilavam e muitas delas eram ornamentadas com flores vistosas, regadas todas as manhãs pelas serviçais da fazenda. A sede tinha mais de quarenta cômodos, contando com dezoito quartos.
Na frente do casarão duas imponentes escadas, apontadas para lados opostos, ressaltavam a beleza e o luxo da habitação. Em uma das encostas estava o lustroso canhão inativo, talvez à espera de um outro canhão, que o coronel não se cansava de procurar, mas sua busca teimava em se mostrar infrutífera.
Não era possível notar nenhum traço de sujeira ou abandono, por menor que fosse, em qualquer cantinho da fazenda, mesmo se um visitante se esforçasse para descobrir eventuais escorregadelas no capricho zeloso das serviçais. A fazenda era como as luxuosas botas do coronel, limpa e reluzente.
Entretanto, havia algo de jocoso naquele homem riquíssimo, que nunca fora visto sorrindo por ninguém naquelas redondezas, exceto quando ele ouvia os programas humorísticos da Nacional em seu enorme rádio de válvulas, cercado pelo séquito de dezenas de empregados, em seu enorme alpendre apinhado de samambaias, orquídeas e outras plantas ornamentais.
O coronel era visto como um homem justo em alguns particulares e extremamente maldoso noutros. A sua sanha por terras, onde pouco importava os meios empregados para convencer os eventuais vendedores, se encaixava nesta última característica. Mas havia um quê de benevolência também, só que essa faceta era discreta demais para se destacar.
Ele mandara construir uma capela para os agregados de sua fazenda, na Vila dos Colonos, mas nunca pisara as botas encomendadas no Pantanal por lá.
As negras que moravam na fazenda só podiam fazer suas preces a São Benedito nas dependências da minúscula capela. Jamais na sede da fazenda, nem em seu imenso terreiro. Eram ordens expressas do coronel, que não queria saber de rezação com ele por perto.
O coronel amparava o povo da região, como seus serviçais tratavam de divulgar, pagando dez centavos a mais que os outros fazendeiros nas diárias dos lavradores que plantavam e cuidavam das diversas culturas de sua fazenda.
Para as lidas diárias eram necessários muito mais serviçais que aqueles que moravam na Vila dos Colonos. Por essa razão eles chegavam de longe e se arranjavam em Jatobá, onde um bairro sem nenhuma estrutura abrigava-os.
O bairro era chamado pelos detratores do coronel - que não eram poucos - como bairro das Almas Penadas, já que, além das péssimas condições, o bairro era vizinho do cemitério do pequeno arraial. Não havia água nem esgoto tratado. Viviam numa penúria de dar dó e o coronel fazia vista grossa e ouvidos moucos para essa situação.
A maior parte das casas do bairro fora construída incluindo o muro do cemitério como uma de suas paredes, muitas vezes a única, uma vez que a habitação era concluída com folhas de coqueiro trançadas e lonas pretas, entregues por um político mau intencionado que foi lá certa vez, com a autorização do coronel, e deu-lhes aquele paliativo infeliz.
O político, em seu périplo por votos, fez questão de almoçar em latas de banha nas casas dos agregados do coronel, embora estes tivessem bons pratos e talheres em suas modestas residências. O encantamento foi imediato. Finalmente eles estavam diante de um deles, um político que falava a língua simples daquele povo. Mas, depois de eleito, o tal deputado nunca mais pisou os pés na fazenda. Só as tais lonas pretas ficaram pra trás, lembrando o infortúnio de se votar em políticos mequetrefes como aquele.
O coronel não movia uma palha sequer por aquela gente, que vivia à sua sombra.
Apenas a imensa fazenda despertava verdadeiramente sua benevolência e sua atenção.
Para morar nas dependências da Fazenda das Almas era preciso obedecer algumas regras claras: o coronel mantinha, na Vila dos Colonos, apenas famílias onde pelo menos três pessoas trabalhassem. Se o chefe da família morresse, e só ficasse a mulher e um filho adolescente, esses tinham que deixar a propriedade.
Nessas ocasiões, o coronel abria uma disputada vaga e uma família eleita se mudava do bairro das Almas Penadas para a Vila dos Colonos.
Para seu lugar, no bairro arruinado, provavelmente se mudaria a viúva e o filho daquele que tivera o azar de morrer e deixar de ser útil para o delírio do coronel, que sonhava comprar toda aquela região até abocanhar beiradas de seu estado natal.
Tal expediente cruel fazia com que crianças trabalhassem como adultas para cumprir a cota de produtividade exigida pelo fazendeiro.
Muitos moradores pobres de Jatobá, em número superior a sessentas miseráveis, se dirigiam até o curral da fazenda, no fim de cada dia, para buscar o leite, muitas vezes talho, que sobrava da manufatura de queijos, doces e requeijões. Evidentemente que essa oferenda somente era sacramentada depois que os robustos porcos da fazenda se fartassem de tanto leite. O leite que sobrava, portanto, era distribuído gratuitamente, mas o coronel pedia a seus empregados que lembrassem o povo que no ano seguinte teria pleito para governador, e que era, como sempre, para apoiarem o candidato que ele escolhesse.
O povo nunca decepcionara o prócer matuto, que se tornara o fiel da balança nas eleições que aconteciam naquela região norte das Minas Gerais. E seu poder era tanto que, muitas vezes, políticos importantes da capital, e seus automóveis empoeirados, em turnê pela região, passavam os fins de semana na sede da fazenda, inclusive senadores e um ex-governador, que pretendia retornar ao Palácio da Liberdade, na longínqua Belo Horizonte.
Apesar de apreciar a política com seus sucessivos êxitos eleitorais, o coronel jamais se candidatara a qualquer cargo eletivo. O fato da sede do município em que sua fazenda estava instalada ser na distante Grão Mogol o levou a preferir controlar os votos de uma região extensa, que ia de Jatobá até os arredores do estado da Bahia, de onde viera ainda na juventude.
O processo eleitoral era totalmente controlado pelo coronel. A única urna da região era instalada na sede da fazenda, e os criados do fazendeiro recebiam as cédulas devidamente preenchidas com o voto no candidato que ele apoiava naquele pleito.
O mesmo não era possível fazer com os eleitores de Jatobá e, por isso, o coronel lançava mão de pequenos gestos como distribuir o leite de graça para conseguir seus índices invejáveis de votação, que beirava, obviamente, a totalidade.
O poder dos votos de cabresto que ele arregimentava na época das eleições era tanto que os políticos mandavam generosas quantias em dinheiro, antes e depois das contendas, para o coronel, como forma de retribuí-lo pelo apoio imprescindível.
O fato de o fazendeiro preferir apoiar homens ao invés de ideologias ou partidos fazia com que seu apoio fosse disputado a preço de ouro, seja pela situação ou pela oposição.
Quem pagasse mais teria os votos de Jatobá e região.
Aos moradores da região ele dizia que aquele sujeito da vez era o mais honesto de todos daquela disputa, pois ele sentia cheiro de gente honrada de longe. E as pessoas votavam sem contestar e sem ao menos conhecer o rosto do candidato.
O coronel não permitia que ninguém colasse nas paredes das casas da Vila dos Colonos qualquer tipo de santinho de candidatos. Só precisavam saber o número do sujeito, e nada mais.
Candidatos que, a julgar pelas condições do abandonado bairro das Almas Penadas em Jatobá, não moviam uma palha sequer para aquela gente sofrida, que convivia com as privações da fome e da seca todos os dias.
Excetuando-se, evidentemente, aqueles que se alimentavam da fortuna descomunal do coronel, nem que fosse apenas das migalhas que se desprendiam de sua imensa riqueza, e que caíam desabridas no solo magicamente fértil da Fazenda das Almas.
Certa vez, ao ouvir o coronel comentar que o voto era secreto, um capataz da fazenda indagou-o sobre o nome do candidato da vez em que ele iria votar.
O serviçal estivera fora da Vila dos Colonos nos últimos meses, após conduzir uma imensa boiada ao mangueiro mais distante do coronel, e não ficara sabendo o nome do candidato a prefeito de Grão Mogol que ele apoiava naquele pleito.
O coronel, após matutar por um instante, comentou:
- Mas como é que você quer saber o nome do candidato, se o voto é secreto? Ora...

3 comentários:
OI DÉLIO? GOSTEI MUITO DA SUA ENTREVISTA. MEU NOME É RAQUEL LOPES. FIZ ALGUNS POUCOS ANOS DE JORNALISTA. MAS, TRABALHEI EM JORNAL, RADIO E FIZ UM POUCO DE TV.
PARABÉNS POR SER JORNALISTA NO ARRAIAL DAS FORMIGAS -COMO DIZ REGINAURO- QQ DIA CONVERSAMOS NO MSN. raqueldlsantos @hotmail.com
até mais...
Délio é, sobretudo, uma pessoa especial. Especial por ser simples, humilde, humano, amigo e portador dos melhores predicados que um jornalista pode ter!
Sou admiradora, seguidora, fã incondicional desse profissonal e amigo maravilhoso!Parabéns pela entrevista.
Cyntia Pinheiro
DÉLIO P COMO EU O CHAMO, É UM SER HUMANO BRILHANTE, SUPER ESPECIAL, AMIGO, E TEM UMA INTELIGÊNCIA INCONTESTÁVEL, SOU FÃ DESSA FORMA NATURAL QUE ELE TEM DE INTERPRETAR AS COISAS, OS SERES, OS SENTIMENTOS, E DA GARRA QUE TEM DE SEMPRE QUERER SER MAIS, APRENDER MAI. APRENDI A GOSTAR DA LEITURA COM ELE E O AGRADEÇO POR FAZER ESSE DESPERTAR EM MIM. PARABÉNS AMIGO!!!
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