NICODEMOS SENA
DADOS BIOGRÁFICOS NICODEMOS SENA nasceu no dia 8 de julho de 1958, em Santarém, Pará, Amazônia brasileira, passando parte de sua infância entre índios e caboclos do rio Maró, na região de fronteira entre os estados do Pará e Amazonas. Dessa experiência – que marcou para sempre a sensibilidade do escritor identificado com a terra e as gentes amazônicas – extrairia a matéria-prima com que comporia os seus romances.
Em 1977, vai para São Paulo, formando-se em Jornalismo, pela PUC (Pontifícia Universidade Católica), e em Direito, pela USP (Universidade de São Paulo).
Repórter e Redator em órgãos da imprensa de São Paulo. Durante o ano de 2000, retorna ao Pará, exercendo o cargo de Diretor de Redação de “A Província do Pará”.
Em 1999, faz sua estreia literária com o romance “A espera do nunca mais – uma saga amazônica” (Editora Cejup, Belém, 876 pág.).
A crítica recebe “A espera do nunca mais” com entusiasmo. No Pará, proclamou Vicente Salles: “Com A Espera do Nunca Mais, pela primeira vez temos, na ficção, o caboclo como agente da história, o índio que se destribalizou, que vive entre dois universos que se opõem e se excluem”. (“O caboclo como agente da história”. A Província do Pará. Belém, 15 mar. 2000).
No Rio de Janeiro, escreveu Olga Savary: “É uma alegria quando nos deparamos com um livro como A Espera do Nunca Mais, esta extraordinária saga amazônica, narrada com sedução, seriedade, poesia. Forma e estilo são impecáveis nessa estréia, que nem estréia parece, de tão madura. Uma lição de literatura e brasilidade”. (“Amazonense faz boa ficção com ‘anos de chumbo’ e choques entre culturas”. O Globo. Caderno Prosa & Verso. Rio de Janeiro, 3 mar. 2001).
Em São Paulo, escreveu Oscar D’Ambrosio: “A Espera do Nunca Mais desafia e devora o leitor desde o início. Feito sucuriju, abre sua bocarra e obriga a penetrar num universo denso. Não adianta resistir. Uma vez dentro da boca deste livro-serpente, o destino é conhecer os seus interstícios plenos de um fazer artístico solidamente urdido, elaborado com mãos de mestre”. (“Uma extensa e densa aula de Amazônia”. Jornal da Tarde. Caderno de Sábado. São Paulo, 20 maio 2000).
Em 2000, “A espera do nunca mais” conquista o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro). Em 9 de novembro do mesmo ano, profere a palestra “Mito e imaginação no romanceiro amazônico” (na Academia Paraense de Letras). E, em 14 de outubro, a palestra “O romance e o processo de criação” (na Faculdade de Letras da UFPA na cidade de Castanhal).
Em 2001, é um dos escritores convidados pela IV Feira Pan-Amazônica do Livro (Belém).
Em 2002, Nicodemos Sena aparece no ‘Dossier Amazónico’ publicado na revista literária portuguesa “Construções Portuárias” (nº01), no qual foi incluído um trecho do seu segundo romance A noite é dos pássaros, ao lado de importantes escritores da Amazônia, entre os quais Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Franz Cecim, Age de Carvalho, Benedicto Monteiro e Benedito Nunes.
Em 2003, “A noite é dos pássaros” é publicado em forma de folhetim, em dezoito episódios semanais, de 3 de abril a 31 de julho, no jornal “O Estado do Tapajós” (Santarém do Pará) e na revista eletrônica portuguesa “TriploV”. Ainda em 2003, “A noite é dos pássaros” é publicado em formato livro (Editora Cejup, 136 pág.). No mesmo ano fragmentos de “A noite é dos pássaros” são publicados nas revistas “Palavra em Mutação” (nº02) e “Storm-Magazine”, ambas de Portugal.
Ainda em 2003, “A noite é dos pássaros” conquista o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).
Em outubro de 2003, Nicodemos Sena participa, como escritor convidado, do II Simpósio Multidisciplinar promovido pela UNIFAI/Centro Universitário Assunção, em São Paulo, onde profere palestra sobre o tema “A função da literatura em face da ética e as novas tecnologias”.
Os romances de Nicodemos Sena mereceram comentários em grandes jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Brasília e Belém do Pará (“O Globo”, “O Estado de São Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Estado de Minas”, “Hoje em Dia”, “A Tarde”, “O Liberal”, “A Província do Pará”, “O Diário do Pará”, “Jornal Opção”, “Caderno Brasília” etc) e da cidade do Porto, em Portugal (“O Primeiro de Janeiro”).
Sobre a ficção de Nicodemos Sena já se manifestaram importantes críticos e escritores brasileiros, entre os quais Antonio Olinto, Olga Savary, Nelly Novaes Coelho, Oscar D’Ambrosio, Antonio Carlos Secchin, Dirce Lorimier Fernandes, Ronaldo Cagiano, Adelto Gonçalves, Acyr Castro, Manoel Hygino dos Santos, Carlos Herculano Lopes, Nelson Hoffmann, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Nejar, Tanussi Cardoso, Vicente Salles, Benedicto Monteiro, Ildefonso Guimarães, Aluysio Mendonça Sampaio, Edivaldo de Jesus Teixeira, Antonio Possidonio Sampaio, Clauder Arcanjo, Bruno Zeni e Enéas Athanázio.
Nicodemos Sena é nome reconhecido fora da Amazônia, tornando-se verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001).
Por seu estilo vigoroso e a temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos), Nicodemos Sena já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas.
Mais de 6 mil sítios na Internet reproduzem trechos e capítulos dos romances de Nicodemos Sena.
Em 2009, foi lançado “A mulher, o homem e o cão” (Ed. LetraSelvagem, SP, 152 pág., Taubaté-SP), novo romance de Nicodemos Sena, incluído entre as “78 DICAS” do Guia da FOLHA, suplemento do jornal “Folha de São Paulo” (29/05/2009).
Ainda em 2009, foi convidado ao II Salão do Livro de Santarém, sua cidade natal.
Nicodemos Sena reside, atualmente, em Taubaté (SP).
Telefone: (12) 3635-3769 ** E-mail: nicosena@uol.com.br
ENTREVISTA
SELMO NASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?NICODEMOS SENA - Fui fisgado pela literatura ao ler, aos 13 anos de idade, o romance “Ressurreição”, de Machado de Assis. Nessa época, as espinhas começavam a despontar em meu rosto e os livros tornaram-se o meu “esconderijo”. Li tudo da pequena biblioteca do meu tio Olindo Neves, professor de português em Santarém, município do oeste do Pará, onde nasci e vivi até 1977. Neste ano, vim para São Paulo estudar e trabalhar... e sofrer no primeiro ano como operário da indústria têxtil, sem nunca desistir do meu sonho de ser um dia escritor. Imagina! Ser escritor num país como o Brasil, onde não se dá nenhum valor ao pensamento que brota do povo! Se eu soubesse que aos 51 anos o sonho de ser um “escritor brasileiro”, assim como Tolstói foi um “escritor russo”, poderia ter se transformado num pesadelo... Pois, com o golpe militar de l964, que entregou o Brasil ao grande capital, nuvens de vorazes ‘gafanhotos’ começaram a roer a nossa Amazônia e muitos se acanalharam e passaram a se envergonhar de serem brasileiros.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?NICODEMOS SENA - Depois de “Ressurreição”, vieram “Os miseráveis”, de Vitor Hugo, Camilo Castelo Branco e os “românticos” brasileiros. O Machado de Assis das “Memórias póstumas de Brás Cubas” e de “Dom Casmurro” foi uma descoberta, mas “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, foi um murro na cabeça. Enfim, a literatura dava um salto qualitativo, da revolta piedosa para a fria razão, sem nenhum prejuízo para a Arte. O ódio ao Soldado Amarelo e a resignação de Sinhá Vitória produziram um clarão no meu entendimento. Como se um raio me partisse ao meio, compreendi o sentimento do homem corajoso e sensível mas forçado a se amesquinhar num ambiente hostil. Entretanto, salto maior aconteceu aos 19 anos de idade, já em São Paulo, quando conheci os atormentados e delirantes personagens de Dostoiévski, o qual é erroneamente chamado por muitos de um “escritor realista”, pois é o autor de maior imaginação que eu já li, que vai além da descrição desse mundo visível e palpável tão conhecido por todos. Sem dar-lhe o crédito, muitos escritores se inspiram nele. “Metamorfose” de Kafka, por exemplo, é como que o desenvolvimento de um dos tenebrosos delírios do tísico Hipolit, personagem de “O idiota”. Maurice Maeterlinck deve ter lido “Notas do subsolo” para colocar “O pássaro azul” como título de sua famosa peça. O engraçado é que estes autores e outros que beberam em Dostoiévski são considerados em geral autores de textos fantásticos ou absurdos, o que prova que imaginação e “realidade”, e a própria vida, caminham juntas. Também admiro muito o “Dom Quixote”, de Cervantes, que fundou a narrativa moderna, e “Guerra e Paz”, de Leon Tolstói, o grande épico russo, mas é em Dostoiévski, outro russo genial, que encontro, em estado quase puro, no vazio das situações e no silêncio das personagens, os mesmos arquétipos que me acompanham desde a infância e que aparecem em meus livros, como, por exemplo, o do índio velho sentado na beira de um rio sem nome e sem nenhuma importância, fumando o seu cachimbo e coçando os culhões, com os olhos perdidos no nada, de onde vozes e vultos, que só ele ouve e enxerga, conversam com ele numa linguagem que a humanidade já esqueceu: a linguagem dos anjos e dos demônios, e dos loucos. É este homem que aparece no começo do “A espera do nunca mais”, meu primeiro romance, e reaparece como narrador de “A mulher, o homem e o cão”, na mais absoluta solidão, e põe-se a narrar a sua incompreensível história a um ouvinte que pode bem ser você ou eu ou todos nós juntos, ou o próprio velho ou “ninguém”.
SELMO VASCONCELLOS - Você está escrevendo um novo livro?NICODEMOS SENA - Escrevo um romance enorme, pois só realizei um quarto do plano e já tem 200 páginas. O título provisório desse livro é a resposta que Ulisses dá ao Ciclope: “Meu nome é ninguém”. A história do homem obrigado a apagar os seus próprios passos e a esconder a sua identidade a fim de escapar não apenas do tirano que ele vê à sua frente, mas daquele que está dentro de si mesmo e quer controlar a sua mente. E nesse ponto de fuga desesperado encontram-se tanto o homem primitivo, que aparece nas lendas e mitos da minha terra amazônica, que vive isolado e solitário mas em perfeita paz consigo próprio e com o mundo, como também o homem “moderno” ou “pós-moderno” fragmentado e esquizofrênico. Como vês, a literatura dos livros, que descobri aos 13 anos, fez-se tomar consciência de que a verdadeira literatura nasce bem antes nas narrativas orais do nosso povo, que até hoje me nutrem.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores?NICODEMOS SENA - Leia. Leia. E releia... Nos livros e principalmente na Vida. Ouça mais do que fale. Aprenda a ouvir o silêncio. Afaste-se do burburinho do mundo sensível. Aprenda a distinguir a Voz entre as tantas vozes, pois às vezes o que parece ser a mais lúcida realidade não passa de fantasmagoria. Desconfie sempre da “realidade” e nunca se envergonhe de sonhar, pois é dentro do sonho que você pode encontrar o “centro do mundo”, o “seu” centro,
onde você se sentirá seguro e nada poderá atingi-lo.
Trecho do romance recém-publicado "A Mulher, o Homem e o Cão"AGORA, que me vê sozinho, devo parecer infeliz, mas nem sempre foi assim; tempo houve em que a mulher, eu e o menino – e também o cão, que apareceu depois – fomos felizes, até que uma coisa estranha aconteceu. Que coisa? O senhor quer saber? Eu lhe conto, pois não houve um só dia nesses anos todos em que não tenha contado essa história para mim mesmo, mil vezes; há coisas que ainda procuro entender.
Era bem cedo, a mata se espreguiçava com os primeiros alvores da manhã, e o sol – que, como o senhor sabe, tem uma língua esponjosa – já lambia coisas e pessoas, pessoas e coisas, pois aqui tudo dá no mesmo. Peguei as ferramentas e o farnel com alimentos e disse à mulher:
– Fica na cabana até que eu volte, e não desce para o rio.
Tive de repreender o cão, que se apresentava faceiro para acompanhar-me; de uns tempos para cá, deixava o animal com a mulher. Temia não apenas os rebojos, que subiam do fundo do rio e me faziam pensar em monstros aquáticos, mas já a própria fonte das águas, de onde brotam a vida e a morte, a saúde e a enfermidade.
– Não desce para o rio, não sabes nadar! – tornei a dizer, em vão, logo se verá, pois, a partir de certa manhã, alguma coisa se alterou no comportamento da mulher, deixando-me desconfiado – e não era para menos, pois, atraída sabe lá por quê, mal saí, ela desceu para o rio.
– Marido, tudo estava tão quieto – disse-me ela depois. – Diante das águas claras do rio me despi, em grande conflito, pois me lembrei das tuas palavras: “Não desce para o rio”. O cão, que havia me seguido, acomodava-se com a cabeça sobre as patas, atento aos meus movimentos; fiquei constrangida, pois era como se estivesses ali, na vigilante figura do animal. Eu quis voltar para casa, mas acabei entrando no rio, e arrepiei-me toda quando a minha pele aquecida tocou a água fria; parecia que alguém além do cão me vigiava. Encobri a vergonha com as mãos e, em vez de sair para terra, agachei-me até que os seios roçaram a água. Por instantes, estive assim, paralisada, até que, mais tranqüila, com a nudez protegida, olhei para a outra margem e tive de novo a sensação de que alguém, sabe-se lá quem e de que ponto, me espionava. Tornei a lembrar das tuas palavras: “Fica na cabana até que eu volte”. Tive medo. Sentindo-me leve, como que fora do mundo, o corpo dentro d’água, quis me levantar, mas não consegui, o medo se transformou em terror ao lembrar de que não sabia nadar. A minha cabeça rodopiou e os olhos giraram para um ponto do rio, onde então avistei, dentro da névoa que ainda pairava sobre as águas, a coisa mais esquisita do mundo. Eram uns olhinhos negros e brilhantes, visguentos e viperinos, primitivos e sagazes, que me espreitavam. Fiz o sinal da cruz e balbuciei um “ai Jesus!” e, sentindo que ia desmaiar, tive, nesse justo momento, a visão plena da coisa que se escondia na névoa. Era uma criatura vermelha, de pele escamosa, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas.
– Salve, minha princesa e senhora! – disse a criatura à mulher, através de uma das cabeças.
Sua voz era doce e melodiosa, e pareceu-lhe bem familiar.
– Salve princesa vestida de sol, que traz a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça – continuou a criatura, por meio de outra cabeça, que se ergueu mais que as outras sobre a linha d’água.
– Marido, queria que visses, quietude tão plena reinava, como se tudo em volta dormisse, e a claridade do dia adquiriu uma tonalidade mortiça, noturna, mas noite não era, e sim dia! Então olhei para mim. Conforme disse a criatura, princesa eu era, ou pelo menos parecia ser, isso podia ver. Não estava mais nua, vestimentas e jóias de princesa adornavam o meu corpo, sete divinas sentenças ao meu cinto prendiam-se. “Salve, minha deusa, pois divina podes vir a ser, só depende de ti”, prosseguiu a criatura, movendo-se para perto de mim. Percebi o movimento, mas (incrível!) não temi. Mirei nos olhos de uma das sete cabeças da fera e foi como se através deles pudesse enxergar um mundo que jamais pude ver. “Creia-me, não sou tão feio como me pintam”, continuou a criatura, como que adivinhando a minha inquietação. Pois tais seres, marido, não conseguem penetrar os pensamentos internos do coração, desde que estes pertencem somente a Deus, mas podem, por meio de sinais procedentes do ser humano, conjeturar mais astutamente que a mais sábia das criaturas sobre o que há ou acontecerá em nossa mente. “Como saber que falas a verdade?”, indaguei. “A palavra é a verdade, não está escrito? Essa é a maior mentira do universo, pois a verdade não se revela em palavras”, ele me respondeu. “Creio nas Sagradas Escrituras”, retorqui. “A verdade, mulher, é inexprimível, mas há um lugar onde ela se mostra em plenitude”, disse a criatura.
– Que lugar é esse?
– É o mundo submerso, onde a morte e as trevas são belas.
– Deus vive lá?
– Lá vive Deus, mas em todos os lugares também.
– Será isso possível?! Pois está escrito: “Deus é a luz e não há nele treva nenhuma”.
– Lá, o bem e o mal não existem.
– Mas há um bem, que procede de Deus, e um mal, que parte do Diabo.
– Ora, princesa, como diz o ditado: é a intenção que faz a ação. O bem e o mal só existem de acordo com os benefícios ou prejuízos que trazem aos homens. O que é bom para um pode ser mau para outro. A natureza está além do bem e do mal, ignora essa concepção egoísta, um antolho que atravanca a mente dos homens e está na origem das diversas religiões. A crença de que existem, além da essência dos seres, dois fatores diametralmente opostos, é a principal causa dos desacertos terrestres, e torna-se um meio de tranqüilizar e de justificar todas as manifestações, o obstáculo fundamental à possibilidade que aparece em alguns de aperfeiçoarem sua parte essencial – disse a criatura.
– Se for assim, qualquer coisa pode ser justificada, até safadezas. Não compreendo tais assuntos, sei apenas que creio em Deus e no bem.
– Ó princesa, não te amofines com tais ninharias, também creio em Deus, tanto é que o renego; conduzir-te-ei ao mundo das bem-aventuranças – disse-me com voz ciciada a criatura. Sentindo-me amolecida, eu disse:
– Quero conhecer esse mundo.
– Vinde então, princesa minha, e salve a alegria! E que esta seja festejada unicamente pela satisfação de festejá-la, e que a vida, esta venturosa donzela, seja celebrada unicamente pela alegria da celebração, e que a morte, tão bondosa quanto injuriada, seja bendita, pelo amor ao recomeço que ela representa. Vinde comigo, princesa!
– O mundo ao qual te referes está muito longe? Preciso voltar antes do meu marido.
– Quem, minha princesa, vai ao mundo submerso, dificilmente retorna.
– Como estás aqui?
– Mas é como se não estivesse, pois deste mundo não sou; se vieres comigo, arrisca-te a deixar de sê-lo.
– Então não poderei voltar para meu marido?
– É bom que voltes, para transmitires o que te foi revelado, mas tua alma pode ficar lá no fundo, pois muitos viajaram para aquém da infância e não regressaram.
– Não compreendo...
– Pois bem, pensa: quem, tendo deixado este mundo, desejaria retornar? Quem assim estivesse, lá ficaria.
– Continuo sem compreender...
– Se fores à terra sem retorno e não discutires os seus ritos, compreenderás todas as coisas que ao homem não foi dado conhecer.
– Então partamos!
– Queres mesmo ir? És capaz de assumir por ti mesma a responsabilidade de fazer a perigosa jornada na escuridão?
– Acho que estou preparada.
– Não temes a minha grotesca figura?
– Confesso que a primeira impressão não me foi das melhores, mas já me acostumei.
– Sou o arauto da morte, ainda assim não me temes?
– Por que temeria? Na vida, a morte é absolutamente certa.
– É um bom começo. No mundo dos mortos encontrarás vida em abundância, mas verás coisas inimagináveis, e insidiosas criaturas tentarão barrar teu caminho; todavia, mal nenhum te sucederá se compreenderes que o ser e o não-ser, a vida e a morte, a beleza e a feiúra, o bem e o mal não passam de rochas que esmagam os viajantes, mas pelas quais os corajosos sempre passam.
Então, senhor, a mulher disse, com voz trêmula:
– Não percamos tempo!
E a criatura: – É só voar!
– Voar?! Mas não tenho asas! – admirou-se a mulher.
– E como chegaste até este ermo?
– Meu marido trouxe-me de canoa.
– Engano teu, vieste voando.
– Não é possível!
– Então te olha no espelho do rio – ordenou-lhe a figura.
Ela obedeceu e, estupefata, enxergou refletida nas águas em vez de mulher uma águia.
– É o que sempre foste – disse a figura. – Pois está escrito: “E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente”.
– Mas... e as asas? Não as vejo! – exclamou ela, mirando-se nas águas. – Um pássaro sem asas não voa! – completou.
– Quem te disse? Asas são como brotos que nascem na mente, por isso um bicho como o homem, que não tem asas, pode voar. No mundo submerso verás homens com asas na cabeça.
– Por que perdi minhas asas?
– Para que não fugisses dos que te queriam aprisionar.
– Como aconteceu isso?
– Foi nos tempos antigos, muito antigos, quando os homens tinham terrível medo das águias.
– Conta-me essa história?
– Não tens pressa em chegar ao mundo inferior?
– Podias contar brevemente...
– Se assim queres, eu conto.
E então, através de suas sete cabeças, que se revezaram na tarefa, a criatura contou que nos tempos antigos, muito antigos, uma águia gigantesca ameaçava os homens. A ave de rapina devorou a irmã do pai dos dois poderosos ancestrais dos homens. Estes foram criados pelo pai debaixo das águas de um grande rio, a fim de se tornarem homens fortes, capazes de matar a ave temida e vingar a morte da tia. Escondidos numa armação de madeira, os meninos ficavam apenas com os rostos de fora. De cinco em cinco dias a mãe vinha vê-los e trazia bolinhos e outras guloseimas para eles, e assim se tornaram gigantes. Naqueles tempos, os homens eram pequenos e fracos; apenas os dois meninos cresceram como gigantes, porém os homens da aldeia nada sabiam a seu respeito. Quando ficaram homens, o pai os levou para a aldeia, mas todos lá se amedrontaram com os homens tão grandes. Então o pai fez uma casa enorme de troncos de palmeira, onde os dois jovens passaram a morar. Em seguida, falou sobre a ave de rapina que havia devorado sua irmã. Então os filhos partiram atrás da ave, a fim de vingar a morte da tia. Lá longe, na borda do grande cerrado, havia uma árvore cujos ramos abrigavam o ninho da águia gigantesca, cujas garras eram como grossos troncos de árvore; a cavidade de sua boca parecia-se com a fauce do tapir, suas plumas lembravam folhas de bananeira e os olhos eram de um tamanho aterrorizador. A ave arrebatava os homens pelos ares e em seguida os devorava, de modo que eles, temerosos, não mais se arriscavam fora da aldeia. Então os jovens gigantes, armados de machado e lança, foram até a árvore onde estava o ninho e feriram a águia e arrancaram-lhe as asas.
– Naquele mundo – concluiu a criatura – havia apenas o sol, noite não havia. Os homens, que enxergavam apenas com os olhos da cara, as asas da mente não viam.
– Tornarei a ver minhas asas? – perguntou a mulher.
– Elas só podem ser vistas à noite – respondeu a criatura.
– Mas nem de noite as vejo!
– É que só conheces a curta noite do sono; a eterna noite do mundo interior, de onde os animais vieram, apagou-se de tua memória, pois no esquecimento é que os homens se refugiam da loucura.
– Quero conhecer a noite eterna.
– Então vira de costas e fecha os olhos – ordenou a criatura.
Ela obedeceu, e a fera lançou de suas sete bocas, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar. E então, senhor, aconteceu o que eu temia: no rebojo que se formou com a água expelida pela boca da criatura, a mulher foi tragada. Quando deu por si, estava do outro lado, não apenas do rio, mas de uma espécie de véu transparente que os separava – a ela e à fera, em cujo dorso ia sentada – do mundo de onde tinha vindo. Só então pôde ver que o monstro possuía duas enormes asas e seu corpo era diferente de tudo que ela conhecia, parecendo feito de matéria diversa da nossa. Sua forma animalesca e terrível contrastava com o encanto de seus movimentos. Da voz e do olhar fluíam halos de beleza que, segundo a mulher, palavra alguma seria capaz de descrever. Pela primeira vez, ela sentiu o perfume de flor, oloroso e entontecedor, que se desprendia da criatura e deixava-a incrivelmente tranqüila no dorso da fera, que se movia nas profundezas.
– Marido, se eu não tivesse olhado pela última vez para a terra e avistado o cão, o que me fez lembrar da minha condição de mulher, costela de Adão, não mais haveria passado nem futuro, mas só o presente contínuo e eterno. Do outro lado do véu, vi o cão agitado; andava de um lado para outro, entrava e saía d’água e se detinha sempre num mesmo ponto da praia, como que cheirando e lambendo algo, gania e latia, mas eu não podia ouvi-lo, parecendo tudo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Coitado do cão, que eu havia deixado. “Posso levar o cachorro?”, perguntei à criatura. “Não”. “Por que não?”. “No mundo para onde vamos, o cão já foi homem; antes de voltar ao que era, precisa cumprir sua missão na Terra”, explicou-me a criatura. “É um bom cão, eu e meu marido gostamos muito dele”, disse eu, resignada. “Eu sei, teu filho também gostava”. “Como sabes que tive um filho?!”. “A Terra me pertence, sei de tudo o que nela acontece”, disse-me a criatura. Atravessamos uma região sombria, onde fazia muito frio. Eu ia encolhida no lombo da criatura, animal nenhum havia ali, mas apenas musgos, lianas, samambaias e outras plantas, que murmuravam entre si. Um calafrio percorreu meu corpo. Lembrando de ti, ó marido, no mato àquela hora, perguntei: “Chegaremos logo ao mundo submerso?”. “Acalma-te, voltarás antes dele”, tranqüilizou-me a criatura.
Então, senhor, a mulher tornou a pensar no cão, e, toda vez que pensava nele, lembrava do filho que havia partido.
– O filho que nunca mais poderás conceber – disse-lhe a criatura, adivinhando os seus pensamentos.
Lembrando do filho, ela chorou. Lágrimas de sangue chorou a mulher. Em sonho ou em vigília ruminava a sua dor.