quinta-feira, 22 de abril de 2010

ALCEU BRITO CORRÊA - ENTREVISTA

ALCEU BRITO CORRÊA

BIOGRAFIA

ALCEU BRITO CORRÊA, belorizontino, nascido em 1946, engenheiro eletricista, colaborador em diversas coletâneas de contos e poesias, no Rio, em São Paulo, em Brasília e no exterior, bem como em alguns jornais e revistas de várias partes do país. Consta como verbete na Enciclopédia da Literatura Brasileira Contemporânea (Grupo Brasília de Comunicação) e nos Dicionário de Poetas Contemporâneos (Francisco Igreja) e Dicionário de Escritores de Brasília (Napoleão Valadares). Foi tesoureiro e secretário do Sindicato dos Escritores no DF.

ALGUNS JORNAIS E REVISTAS NOS QUAIS FOI PUBLICADO

. ÚLTIMA HORA-RJ
. ALTO MADEIRA - Porto Velho
. DF LETRAS - Brasília
. REVISTA BRASÍLIA - Brasília e RJ
. CORREIO BRASILIENSE - Brasília
. BLOCOS-RJ
. GARATUJA-RS, dentre outros.

JORNAIS EM QUE ASSINOU COLUNA

. ESTADO DE RORAIMA - Boa Vista
. PONTO DE LUZ (Assoc. dos Empreg. da Eletronorte) - Brasília
. INTERCLUBES - Brasília
. PROTON (jornal universitário) - Belo Horizonte

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

ALCEU BRITO CORRÊA - Quis-me médico minha mãe, advogado meu pai, formei-me engenheiro eletricista e segui essa honrada carreira por mais de 40 anos, até aposentar-me...mas, nem tanto...ainda milito no ramo; sou vice presidente do Clube de Engenharia de Brasília, onde fixei residência. Já estive morando em Porto Velho, durante o período em que estive à frente da CERON e onde angariei alguns bons amigos.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

ALCEU BRITO CORRÊA - Em verdade, nem eu nem meus pais não sabíamos a que este filho se destinava. Nasci poeta e nem sabia disso logo às primeiras letras. Lia muito, sem restrições. Havia uma biblioteca na minha casa paterna. Escrevia por compulsão e guardava na gaveta sem entender bem o que poderia representar aquilo; tempos em tempos, revia, rasgava alguns papéis, retocava outros, até que um dia comecei a participar em coletâneas e em alguns poucos periódicos, o que ainda faço até hoje.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

ALCEU BRITO CORRÊA - Livros "solos" foram dois: EKINOX e EPICICLO.

Coletâneas no Brasil foram mais de 100: BLOCOS, DEL'SECCHI , OFICINA de Sergio Gerônimo, COLETIVO DE POETAS em Brasília organizadas pelo grande poeta Menezes y Morais (Mais Uns, Poemas, Outros Poemas, Ibirapitanga e Contos), MOVIMENTO POÉTICO EM SÃO PAULO de Wilson de Oliveira Jasa, Coletânea organizada por Selmo Vasconcellos, entre outras.

Coletâneas no exterior:•ANTOLOGIA DI LETTERATURA CONTEMPORANEA MULTILINGUE – GLOBUS 2000 – EDIZIONI UNIVERSUM – TRENTO – ITÁLIA – 2 000
•ANTOLOGIA DI LETTERATURA CONTEMPORANEA MULTILINGUE – PLANETARIA – EDIZIONI UNIVERSUM - TRENTO – ITÁLIA – 1997
•ANTOLOGIA DE POETAS PORTUGUESES E BRASILEIROS-1996- Maria de Lourdes Brandão – RJ
•ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFANOS – 2009 E 2010 – LEIRIA - PORTUGAL

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

ALCEU BRITO CORRÊA - No meu caso, creio que são as diferenças de classe, exclusões sociais, discriminações diversas, e, claro, amor no seu sentido mais latu. Mas, outros escrevem sobre sagas, as mais diversas e até mesmo sobre dominação de povos, guerras, desbravamentos, etc...

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

ALCEU BRITO CORRÊA - Inúmeros, desde Sócrates, Platão, passando por Camões, JJ Roussaux, Maquiavel, Maupassant, até os mais recentes como Fernando Pessoa, Anthero de Quental, Garcia Lorca, Hermann Hesse, Neruda, Garcia Marques, e os nossos Augusto dos Anjos, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Drummond, Millôr, Menezes y Morais, e muitos outros que os leio com prazer redobrado a cada dia.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores ?

ALCEU BRITO CORRÊA - A aqueles que têm a sorte de ter uma biblioteca em sua casa paterna, que usufruam com avidez dessa benesse; aos menos afortunados, que sejam ratos de bibliotecas públicas e naveguem pelos sites de literatura disponíveis; e, sobretudo, compartilhem o que conhecem e fazem com outros, sejam afortunados literariamente ou não. Não temam criar para o bem.

POESIAS

No Bar

O bêbedo, sem perceber sentido
para a vida, pede para parar o Mundo:
quer descer já!

(in memorian a Gilberto Cachaça)

Scar Face

Em sua face, indelével,
o Tempo se mostra
ainda que em desbotados tons
rosto lindo
quase perfeito não fora
o sorriso ensaiado
e as perceptíveis cicatrizes
em seu profundo e sofrido olhar...

A Idade da Loba

Mãos de aranha
olhos de águia
nariz de esquilo
certeza da presa
abate, esquarteja...
e a presa agradece!

...E Havia uma Esperança...

Dor no peito...
rua do Catete, o Palácio,
chuva forte lava a alma
leva o ódio e a sujeira
dos governos passados!
deixa limpo o lema: “saio da
vida para entrar para a história”.

(24 de agosto de 2008, 54 anos depois)

EDUCAÇÃO

O madrileño, Don Juan Carlos – El Rei de Espanha,
em público, perguntou
a Hugo Chaves porque não se
calava. Este lhe fez ouvido de mercador.
Minha avó Irene, da Província de León,
quando algun niño não se comportava
à mesa, perguntava-lhe, também em espanhol:
porque non te callas?
e, todos se punham em
inteligente silêncio!

O APARENTE DO OCULTO

Alessandra veio de Espanha
como acompanhante
da então adolescente dona Irene.

Com o tempo, tinha visões,
às quais ralhava ríspida, em
seu dialeto galego.
Tite, o cachorrinho vira-latas da família,
empertigava os pelos do dorso,
rosnava e latia rouco na mesma
direção do olhar dela.
Alessandra está louca!, diziam.
Já, do Tite, que seu nome era uma
homenagem ao bom
ponta esquerda do
Santos Futebol Clube.

SÍNDROME HISTÓRICA

rua do Catete, noite chuvosa,
em frente ao Palácio de Getúlio
há um frio na alma,
54 anos depois:

não faltam motivos
históricos para
se dar um tiro no peito!

20° Caderno

(homenagem a Francisco Igreja, eterno criador da OFICINA AGENDA LITERÁRIA e dos CADERNOS DE POESIA)

Flutua ainda no ar
aquela mesma energia
com que ele conseguia,
de norte a sul, congregar

tantos e bons escritores
nesta arte de poetar.
Lápis, penas a rascar,
cantaram os amores,

tragédias e alegrias,
que editou com ousadia.
Com carinho nos promove!,

se dizia. E assim ia
enchendo os dezenove
Cadernos de Poesia.

DENISE EMMER - ENTREVISTA

DENISE EMMER

BIOGRAFIA

Denise Emmer é poeta , ficcionista, cantora e musicista e nasceu no Rio de Janeiro.

Começou a escrever poesia ainda menina e publicou seu primeiro livro, Geração Estrela, aos quinze anos.

De personalidade eclética, também enveredou pelos caminhos da música, com vários CDs gravados e trilhas incidentais compostas para seriados de teatro e TV.

Graduou-se em Física e Música (violoncelo) e pós-graduada em Filosofia.

Apesar de sua formação eclética, a literatura mostrou-se mais presente em sua trajetória, o que provam os doze relevantes prêmios literários que obteve ao longo de sua carreira.

O mais recente é o Prêmio ABL de Poesia 2009 ,com o livro LAMPADÁRIO, que recebeu em cerimônia no Palácio Petit Trianon, dia 23 de julho na Academia Brasileira de Letras.

OBRAS

POESIA

*Geração Estrela- Rio de Janeiro, Ed Paz e Terra 1975 (orelha Moacyr Félix)

*Flor do Milênio – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1981. (prefácio Moacyr Félix)

*Canções de Acender a Noite – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1982. (Prefácio João Paes Loureiro)

*A Equação da Noite – Rio de Janeiro, Ed Philobiblion, 1985. (Prefácio Pedro Lyra)

*Ponto Zero – Rio de Janeiro, Ed Globo, 1987. (Prefácio Antônio Houaiss e posfácio Olga Savary)

*O Inventor de Enigmas – Rio de Janeiro, Ed José Olympio, 1989. (Prefácio Ivan Junqueira)

*Invenção para uma Velha Musa – Rio de Janeiro, Ed José Olympio, 1990. (Prefácio Nelson Werneck Sodré)

*Teatro dos Elementos & Outros Poemas – Rio de Janeiro, Ed 7Letras, 1993. ( Prefácio Rachel de Queiroz)

*Cantares de Amor e Abismo – Rio de Janeiro, Ed 7Letras, 1995. (Prefácio Carlos Emílio Corrêa Lima)

*Poesia Reunida – Rio de Janeiro, Ediouro, 2002. (Organização Sérgio Fonta)

*Lampadário – Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 2008 (pref. Alexei Bueno)

ROMANCE

*O Insólito Festim – Rio de Janeiro, Ed Nova Fronteira, 1994. (Prefácio Rachel de Queiroz)

*O Violoncelo Verde – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1997. (Prefácio Sérgio Viotti)

*Memórias da Montanha – Rio de Janeiro, Ediouro, 2006.

ANTOLOGIAS e Outros

Antologia da Nova Poesia Brasileira , 1993 - organização Olga Savary

Poesia Sempre, 1994 - Fundação Biblioteca Nacional

Poesia Sempre, 1994 - tradução - Fundação Biblioteca Nacional

41 Poetas do Rio , 1995 - organização Moacyr Félix - Funarte

O Signo e a Sibila - Ensaios de Ivan Junqueira, 1993, Topbooks

Ponte Poética Rio-São Paulo - Ed.SetteLetras, 1995

Revista Brasileira da Academia Brasileira de Letras, 2008, número 56

Quando nem Freud Explica, Tente a Poesia - organização Ulisses Taváres, 2007 Ed w11

Coleção Roteiro da Poesia Brasileira - Organização Afonso Henriques Neto, 2008, Ed Global

Iniciação à Nova Poesia Brasileira - Espanha - Ed .Paralelo Sur ( em produção)

A Poesia é Necessária - Rubem Braga (organização André Seffrin ) , 2009,Ed Calibán

Colaborações e colunas :

Jornal de Letras
Jornal O Dia
Revista Itaú Personnalité
Caderno Prosa &Verso ( O Globo)
Revista Colóquio ( Portugal )
Revista RioArte ( Funarte)

PRÊMIOS

**Prêmio Guararapes de Poesia, União Brasileira de Escritores, 1987

**Prêmio União Brasileira de Escritores- melhor autor jovem, 1988

**Prêmio Nacional de Literatura do PEN Club do Brasil, poesia (Prêmio Luiza Claudio de Souza), 1990

**Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte),1990

**Prêmio Olavo Bilac, poesia, Academia Brasileira de Letras – ABL, 1991

**Prêmio José Marti de Literatura, Conjunto de Obra, Casa Cuba- Brasil, 1995

**Prêmio Nacional de Literatura do PEN Club do Brasil, romance (Prêmio Luiza Claudio de Souza), 1995

**Prêmio Alejandro José Cabassa, romance, União Brasileira de Escritores, 1995

**Prêmio Yeda Schmaltz, UBE, poesia, 2002

**Prêmio José Picanço Siqueira, Memória Romanceada, União Brasileira de Escritores, 2007

**Prêmio Cecília Meireles de Poesia, da União Brasileira de Escritores, 2008

**Prêmio ABL de Poesia 2009

LINKS

www.oglobo.com.br/blogs/prosa

deniseemmergerhardt.blogspot.com/

www.palavrarte.com ( ir em equipe e rádio)

www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/denise_emmer.html

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

DENISE EMMER - Sou violoncelista. Dou aula de cello e toco na Orquestra Rio Camerata. E também escalo montanhas..

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

DENISE EMMER - Na infância, quando a professora de português leu um poema da Cecília Meireles.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

DENISE EMMER - Publiquei quatorze livros. Onze de poesia e três romances. ( os títulos e prêmios estão no meu blog). No exterior, tenho uma coletânea publicada no Líbano e participações em antologias em alguns países como Portugal, Espanha e Alemanha

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?

DENISE EMMER - Surpresas súbitas, fatos marcantes tais como o amor, a morte, a vida em desalinho. Uma árvore, céus estrelados ou balas perdidas. A poesia está sempre rondando.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

DENISE EMMER - Muitos. Cito os que me chegam à mente tais como Drummond, Cecília, Dylan Thomas, Machado de Assis, Graciliano, Rillke e tantos outros.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

DENISE EMMER - Escrevam poesia.

POESIAS

À NOITE

A noite ela se embriaga
e vai bailar nos espaços
usando um traje de pássaros
viaja para o infinito

abro a janela do mundo
e já não vejo seu rastro
me leva lagoa lua
à grande festa das águas

em que outra madrugada
esconderás teu espelho

nas esquinas que não vejo
onde a noite vira asa?

Do livro “TEATRO DOS ELEMENTOS”

***

OS ANIMAIS QUE MORREM

Os animais que morrem
viram luzes
assombros tão pequenos
entre escuros
espectro sereno
sobre muros

os animais que morrem
são futuros.

Do livro CANTARES DE AMOR E ABISMO”

***

SINAL DE ALERTA

Faça a noite que faça
as fábricas soltam fumaça
e como avistar quem passa
através de um claro vidro?

Os operários levitam
seus espíritos vencidos
ao cume das chaminés;
que flutuam ente os telhados
marés de moços cansados
qual uma cinza tristeza.

E esta pálida natureza
vai colorindo de morte
os jardins de nossos filhos
os fios de nossos pássaros.

E enquanto as mulheres abraçam
crianças de olhos fundos
vai se calando o mundo
como um velho homem com tosse.

Tão curvado e solitário
um moribundo canário
canta a manhã da cidade
que a todo dia reage.

Do livro “CANÇÕES DE ACENDER A NOITE”

***

O BEIJO

Levou-me sem feitas frases
Somente passo e camisa
Roubou-me um beijo de brisa
Na quadratura da tarde

Jogou-me contra a parede
Rasgou-me a blusa de linho
Roubou-me um beijo de vinho
Diante das aves vesgas

Puxou-me para seu fundo
Rompeu a rosa pirâmide
Roubou-me um beijo de sangue
E bateu asas no mundo.

NOITE MAGA

Andei contigo nas dunas
Nas páginas das areias
Pensei avistar sereias
Mas eram sóbrias escunas

E ao perguntar quem eras
O mar moveu seus navios
Olharam-se as éguas no cio
Voaram fêmeas sem sela

Enquanto me assombravas
Os sais trocavam segredos
Abraçava-me com medo
Torpor, o que me falavas

Então comecei morrer
Por rua mão de veludo
Que me levava entre surdos
No tênue amanhecer

Desmanches de beijo e vício
Aroma de folha e chuva
Teu sorriso atrás da curva
Na ponta do precipício

Longe vai a noite maga
Em seu palácio estranho
Não te decifro és sonho
A povoar minhas águas.

Do livro “LAMPADÁRIO”

***

AS GALÁXIAS

As galáxias
se expandem
e nem ouvimos
seus gritos

os labirintos
se aprofundam
sem que saibamos
seus números
esperamos
que um cão azul
decifre
o infinito

e que nos esclareça
a álgebra
do abismo

a lógica
do insondável

a física
do ilimitado.

Por que é tão dramática
a visão de um céu estrelado?

DA MORTE

Os mortos não sobem aos céus
nem elevam-se abstratos
tornam-se apenas retratos
lado a lado nas paredes.

Retrato do avô imóvel
austero e silencioso
do tio tuberculoso
que esquivo me espia.

A avó já está fria
mas me olha com ternura
tece uma colcha escura
para as bodas da família,

Mortos não sobem trilhas
de inconsistentes arranjos
não viram anjos nem brisas
nem cristos nem assombrados.

Sequer passam dos telhados
sequer vão a outros mundos
quando morrem se enraízam
e se alastram é pelos fundos.

Não lhes peço algum milagre
também não lhes rogo bênçãos
de dentro de seus quadrados
não podem mover o Tempo.

Quadros em salas quietas
emoldurados cinzentos
memória em fragmentos
— por vezes nem os percebo.

Do livro “O INVENTOR DE ENIGMAS”

quarta-feira, 21 de abril de 2010

ADOLF P. SHVEDCHIKOV ( Moscou, Rússia ) - ENTREVISTA

Dr. ADOLF P. SHVEDCHIKOV, Ph.D.

Doutorado em Literatura

Adolf P. Shvedchikov traduziu para o russo 32 poesias de Selmo Vasconcellos. É colaborador e membro da Galeria dos Amigos do Litero Cultural/ Jornal Alto Madeira de Porto Velho, Rondônia, Brasil.

BIOGRAPHY / BIOGRAFIA

Born May 11, 1937, Shakhty, Russia. Graduate 1960, Moscow State University. Senior scientific worker at the Institute of Chemical Physics, Russian Academy of Sciences, Moscow. Chief of Chemistry, Pulsatron Technology Corporation, Los Angeles, CA, USA.

He published more than 150 scientific papers and more than 500 of his poems in different International Magazines of Poetry in Russia, USA, Brazil, India, China, Korea, Japan, Italy, Malta, Spain, France, Albania, Romania, Greece, England and Australia. His poems have been translated into Italian, Spanish, Portuguese, Greek, Chinese, Japanese, Albanian, Romanian, German and Hindi Languages.

He is the Member of International Society of Poets, World Congress of Poets, International Association of Writers and Artists, A.L.I.A.S. ( Associazione Letteraria Ítalo-Australiana Scrittori, Melbourne, Austrália ). Adolf P. Shvedchikov is known also for his translation of English poetry ( “150 English Sonnets of XVI – XIX Centuries”. Moscow.1992. “William Shakespeare. Sonnets.” Moscow. 1996 ) and translation of many modern poets from, Brazil, India, Italy, Greece, USA, England, China and Japan.

Nascido em 11 de Maio de 1937 em Shakty, Rússia. Em 1960 se graduou na Universidade Estadual de Moscou. Possui o cargo de Cientista Sênior do Instituto de Química e Física da Academia Russa de Ciências em Moscou. Chefe de Química da Pulsatron Technology Corporation, em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos.

Publicou mais de 150 trabalhos científicos e mais de 500 de seus poemas em diferentes revistas internacionais de poesias na Rússia, EUA, Brasil, Índia, China, Coréia, Japão, Itália, Malta, Espanha, Albânia, Romênia, Grécia, Inglaterra e Austrália. Seus poemas foram traduzidos para as línguas italiana, espanhola, portuguesa, grega, chinesa, japonesa, albanesa, romena, alemã e híndi.

É membro da Sociedade Internacional de Poetas, Associação Internacional de Escritores e Artistas, A.L.I.A.S. (Associazione Letterario Italo-Australiana Scrittori, em Melbourne, Austrália). Adolf. P. Shvedchikov também é conhecido pelas suas traduções de poemas ingleses (“150 Sonetos Ingleses dos Séculos XVI – XIX”, Moscou, 1992 e “William Shakespeare. Sonetos”, Moscou, 1996) e pelas traduções de vários poetas modernos do Brasil, Índia, Itália, Grécia, EUA, Inglaterra, China e Japão.

INTERVIEW / ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - What are your other activities besides writing? Quais são suas outras atividades além de escrever?

ADOLF P. SHVEDCHIKOV – I am a chemist. In 1960 I graduated from Moscow State University. In 1961 I was a post-graduated student and later – a junior and senior scientific worker at the Instutute of Chemical Physics, Russian Academy of Sciences, Moscow.

For the last fifteen years I have been involved in na Air Pollution Control Program with “Horizont” Co. in Moscow, Russia, and Pulsatron Technology Corporation in Los Angeles, USA. We designed, built and tested the “Pulsatech” device. This machine uses a high voltage pulsed corona discharge for the destruction of noxious inorganic and organic compounds in off-gases.

ADOLF P. SHVEDCHIKOV – Sou químico. Em 1960 me graduei pela Universidade Estadual de Moscou. Em 1961 era um estudante pós-graduado e mais tarde me tornei funcionário Júnior e Sênior do Instituto de Química e Física da Academia Russa de Ciências em Moscou.

Nos últimos quinze anos estou envolvido com o Programa de Poluição do Ar da Horizon Co. em Moscou, Rússia, e na Pulsatron Technology Corporation em Los Angeles, EUA. Nós criamos, construímos e testamos o dispositivo “Pulsatech”. Essa máquina utiliza uma coroa de alta voltagem descarregada para a destruição de componentes orgânicos e inorgânicos noviços lançados pelos gases na atmosfera.

SELMO VASCONCELLOS - How did you start being intertested in literature? Como você começou a se interessas por Literatura?

ADOLF P. SHVEDCHIKOV – I was 5 years old when my mother gave me my first reading lesson. The first book which I read independently being 6 years old, was “Taras Bulba” by famous Russian Nicolai Gogol.

My parents were miners, we lived in Donbass ( Rostov region, Russia ). The new mine was located in the Donetsky Steppes. My best remembrance of chidhood is the river Donets and a little library with good Russian and French classic literature ( Pushkin, Lermontov, Toltoy, Chekhov, Goncharov, Dostoevsky, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert ). So Nature and Literature were my first teachers at a young age!

ADOLF P.SHVEDCHIKOV – Eu tinha cinco anos de idade quando minha mãe me deu a primeira aula de literatura. O primeiro livro que eu li sozinho aos seis anos de idade foi “Taras Bulba” do famoso escritor russo Nicolai Gogol.

Meus pais eram mineradores, nós vivíamos em Dombass (Região de Rostov, Rússia). A nova mina se localizava em Donetsky Steppes. Minah melhor lembrança da infância é o rio Donets e a pequena livraria com ótimos clássicos da literatura russa e francesa (Pushkin, Lermontov, Toltoy, Chekhov, Goncharov, Dostoevsky, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert). Então a Natureza e a Literatura foram minhas primeiras professoras na infância!

SELMO VASCONCELLOS - How many and wich are your published books in and outside you country? Quantos e quais são seus livros publicados dentro e fora de seu país?

ADOLF P. SHVEDCHIKOV – My first book published in Russia ( 1993 ) was “My Discovery of America” about my first trip to the United States. Later have been published in Russia and China 5 books of translation of English poetry ( Sonnets of XVI – XIX centuries ) and translations of modern poets : Rosemary C. Wilkinson ( USA ), Kazuyosi Ikeda ( Japan ) and Choi Lai Sheung ( China ). From 2007 to 2010 3 books of my poetry were published in Spain, Albania and Taiwan.

More than 500 of my poems have been published in different anthologies and Magazines of poetry in the United State, Brazil, England, France, Spain, Italy, Greece, Malta, Cyprus, Romania, India, Japan and Australia.

ADOLF P. SHVEDCHIKOV – Meu primeiro livro publicado na Rússia (em 1993) foi “Meu Descobrimento da América” que era sobre minha primeira viagem aos Estados Unidos. Depois foram publicados na Rússia e na China cinco livros de traduções de poetas ingleses (Sonetos dos Séculos XVI – XIX) e traduções dos poetas modernos: Rosemary C. Wilkinson (EUA), Kazuyosi Ikeda (Japão) e Choi Lai Sheung (China). De 2007 a 2010, três livros de meus poemas foram publicados na Espanha, Albânia e Taiwan.

Mais de 500 de meus poemas foram publicados em diferentes Antologias e Revistas de poesia dos Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Grécia, Malta, Chipre, Romênia, Índia, Japão e Austrália.

SELMO VASCONCELLOS - What are the impacts/effects that help to creat a perfect atmosphere to produce literature? Quais são os impactos/efeitos que o ajudam a criar uma perfeita atmosfera para produzir literatura?

ADOLF P. SHVEDCHIKOV – First of all, the imagination of the author and the poet, his independence and the ability to evaluate what kind of events are happening around him. Life’s difficulties and experiences, and resulting lessons from those experiences provide abundant material for the true writer. As Russian famous poet Alexander Pushkin wrote “You are the Highest Judge, and you are the severest censor of all your deeds!”

If you have been through the mill of wisdom and feelings, you have a chance to touch the hearts of others.

ADOLF P.SHVEDCHIKOV – Primeiro de tudo, a imaginação de um autor e poeta, sua independência e habilidade para avaliar qual tipo de eventos estão acontecendo ao seu redor. As dificuldades e experiências da vida, e as lições resultantes dessas experiências provém abundante material para um verdadeiro escritor. Como escreveu o famoso poeta russo Alexander Pushikin: “Você é o mais alto juiz e o mais severo censor de todas as suas ações!”

Se você passou pelo moinho da sabedoria e dos sentimentos, você tem a chance de tocar o coração dos outros.

SELMO VASCONCELLOS - Which are the writers that you admire the most? Quais são os escritores que você mais admira?

ADOLF P.SHVEDCHIKOV - :

Russian writers : Tolstoy, Dostoevsky, Bunin, Chekhov.
Russian poets : Pushkin, Tyutchev, Sologub, Tsvetaeva, Brodsky.
Foreign poets : Persy Bysshe Shelley, Federico Garcia Lorka, Rainer Maria Rilke.

ADOLF P. SHVEDCHIKOV – :

Escritores Russos: Tolstoy, Dostoevsky, Bunin, Chekhov.
Poetas Russos: Pushkin, Tyutchev, Sologub, Tsvetaeva, Brodsky.
Poetas estrangeiros: Persy Bysshe Shelley, Federico Garcia Lorka, Rainer Maria Rilke.

SELMO VASCONCELLOS - What incouraging message would you give to others writers? Que mensagem encorajadora você daria aos outros escritores?

ADOLF P.SHVEDCHIKOV – Be aware. Look around, take it all in. You are like a tape recorder. Go with your feelings. Believe in miracles and in your talent! All that truly matterslies within you. When your strength is running low, take a deep breath, it calms the mind. Try again!

ADOLF P.SHVEDCHIKOV – Esteja atento. Olha em volta, absorva tudo. Você é como um gravador. Siga seus sentimentos. Acredite em milagres e em seu talento! Tudo que realmente importa está dentro de você. Quando sua força estiver baixa, respire fundo, isso acalma a mente. Tente outra vez!

Tradutor :
FABRÍCIO KENJI HIRANO, 28 anos.
São Paulo, SP, Brasil.
Formado em Propaganda e Marketing.

POETRIES / POESIAS

I LIKE THESE SILENT DAYS OF SPRING

I like these silent days of spring
With the balmy scent of fragrant flowers,
With dazziling snow-white cloud’s towers,
And the whisper of waters murmuring.
I like the delightful, sparkling May,
Taking a sip of mirthful wine,
Looking at the ivy serpentine,
When dreamy thoughts wander astray...

GOSTO DESTES DIAS SILENCIOSOS DE PRIMAVERA

Gosto destes dias silenciosos de primavera
Com cheiro balsâmico de flores perfumadas,
Com deslumbrantes torres de nuvens
Brancas como neve,
E sussurros de água que murmura.
Gosto do espumante delicioso,
Tomando um gole de vinho, alegre,
Olhando para a hera serpentina,
Quando os pensamentos,
Sonhadores vagam desviadamente.

MY MUSE, UNDYING NIGHTINGALE

My Muse, undying nightingale,
Guide me reliably through the dark,
Sail around the world, my proud bark,
Tell the people blissful fairy tale.
Don’t permit me to change the right course,
Gentle Muse, don’t burn your silken wings,
We hope to be met with new springs,
To scatter our songs through ythe Universe!

MINHA MUSA, ROUXINOL ETERNO

Minha Musa, rouxinol eterno,
Guia-me seguramente pela escuridão,
Veleje ao redor do mundo, meu brado orgulhoso,
Conte para as pessoas o conto das fadas feliz.
Não me permita mudar o curso certo,
Musa suave, não queime suas asas sedosas,
Esperamos ser conhecidos com novas primaveras,
Espalhar nossas canções através do Universo!

OH LOVE, WHERE WIL YOU FIND YOUR HAVEN

Oh love, where will you find your haven,
In what heart are you going to dwell?
Will this purê heart ascend to heaven,
Or will it burn in fearsom hell?
Oh my beloved, perhaps you guess,
How I did love and love you still,
Na unforgettable princess,
Moan of my soul, long and shrill...

OH AMOR, ONDE VOCÊ ACHARÁ SEU PORTO

Oh amor, onde você achará seu porto,
Em que coração está entrando você para morar?
Este coração puro subirá ao céu,
Ou irá queimar no inferno temível?
Oh minha amada, talvez, você adivinha,
Como amei, ainda amei você,
Princesa inesquecível,
Gemido de minha alma, longo e estridente...

I GET DRUNK FROM THE AMOROUS DEW OF LOVE

I get drunk from the amorous dew of love,
How powerful is this passionate reign!
The heart bursts into flame again,
I kiss you endlessly, my silver dove!
I am extraordinarily glad
That your swift fiery dart
Hás pierced my ardent heart
And suddenly drives me mad!

EMBEBEDO-ME DO APAIXONADO ORVALHO DO AMOR

Embebedo-me do apaixonado orvalho do amor,
Como é poderoso este reinado apaixonado!
O coração estoura novamente em chama,
Beijo você incessantemente, minha pomba prateada!
Estou extraordinariamente alegre.
Que seu ligeiro dardo ígneo
Tenha perfurado meu ardente coração,
E, de repente, me dirige furioso!

TRUE LOVE, WHERE IS YOUR SHIMMERING BAY?

True love, where is your shimmering bay,
Which awaits us under the azure sky?
Who may solve the damm enigma : why
We are wayward sons gone astray?
Amid mountains, and plains, and woods,
Upon the dewy, grasy lawn
We cannot meet love’s scarlet dawn,
Staying at home in solitude...

AMOR VERDADEIRO, ONDE É SUA BALA DESLUMBRANTE?

Amor verdadeiro, onde é sua bala deslumbrante ?
A qual nos espera sob o azul-celeste?
Quem pode resolver o enigma da maldição : por que ?
Somos filhos obstinados no caminho errado.
Entre montanhas, planícies e bosques,
Sobre o orvalhoso gramado de relva, não podemos
Nos encontrar no escarlate amanhecer do amor,
Ficando em casa, em solidão...

Traduções das poesias : Poeta brasileiro Jorge Saraiva Anastácio, amigo de Adolf F. Shvedchikov.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO - ENTREVISTA

ANTONIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO

BIOGRAFIA SUMÁRIA

Nasci em Piracicaba em 1925
Cursei na mesma cidade, no Instituto de Educação Sud Mennuci, o Primário, o Ginásio e o Colégio Clássico.
Aprovado, em 1º lugar, cursei Letras Neolatinas na USP, logo assumindo o cargo de Assistente de Língua e Literatura Italiana em 1953. Lecionei na USP de 1953 a 1958, ocasião em que pertenci a 1ª equipe dos Fundadores da FFCL de Assis (depois Faculdade de Ciências e Letras, campus de Assis, UNESP).
Obtive os títulos de Doutor e de Livre Docente pela Cadeira de Língua e Literatura Italiana da USP.
Aos 33 assumi a Titularidade das Cadeiras de Língua e Literatura Italiana que acumulei com a de Teoria Literária e Literatura Comparada, pela qual me aposentei em 1988.
Recebi da FCL UNESP o título de Professor Emérito, e da Egrégia Câmara Municipal de Assis o título de Cidadão Assisense.
Examinei um número muito alto de Teses de Doutoramento, Livre Docência e Cátedra na USP e nos Campi da UNESP, na Escola de Sociologia e Política, em campi universitários de Bauru e Maringá (PR).
Promovi na UNESP de Assis as Noites de Música e Poesia, o Centro de Estudos Literários Alceu Amoroso Lima, o Dialogo Múltiplo, a Catequese Musical, o Festival de Artes, e (ainda em São Paulo) o 1º Festival de Artes Universitário. Ali, também, dei cursos de Português para italianos no Instituto Italo-Brasileiro.
Fui (precocemente) Assistente da PUCSP.
Continuo a promover (com minha filha Fernanda Maria Bueno de Almeida Prado) o Chama Poética (sarau de Música e Poesia) na USP, na Casa das Rosas , na Biblioteca de São Paulo e no Museu da Língua Portuguesa.
Em Assis, no diário Voz da Terra mantenho três colunas culturais: Calidoscópio, Livros sobre a mesa e Poesia em Rosa dos Ventos.
Continuo, pois, na ativa, na altura de completar 85 anos, sendo desde 1943, Membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da API (Associação Paulista de Imprensa).
Assis, 8 de abril de 2010
E-mail: professorprado.prado@gmail.com

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO - Minhas outras atividades (além de escrever) englobam participações em saraus no Brasil e na Itália, constante presença a atividades artísticas na Capital e no Interior do Estado de São Paulo, no Paraná e no Mato Grosso do Sul, além de atendimento a muitas entrevistas (com a sua, esta é a terceira só no mês de abril do corrente ano).
Sempre primei (desde São Paulo – USP, até a UNESP, que ajudei a fundar) pela noção efetiva de que o professor universitário é um agente cultural, um dinamizador das Artes e da Ciência em face da comunidade.
Sou dos 2% (se tantos...) que tivemos acesso à Universidade estatal, e penso dever retribuir a 98% os benefícios do privilégio desse acesso.
Além dessas múltiplas tarefas, devo atender a tradutores de minha poesia na Itália, na França e na Rússia. O que compromete muitas horas de minhas atividades artístico-culturais e cientificas.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO - Meu interesse literário nasceu comigo, desde a infância (época precoce em que fiz poesia para meus familiares), passando pelas (também precoces) puberdade e adolescência.
Devo acrescentar que para isso tive de resistir a sedutores convites para a Agricultura e para o Direito, que meus familiares e meus amigos me ofereceram.
Esse interesse cresceu nos períodos colegial e universitário, quando, em ambos, tive contactos com escritores e artistas e cientistas, em Piracicaba e na Capital do Estado.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País?

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO - Tenho publicados dois livros de poesia (Ciclo das Chamas e outros poemas (SP, Ateliê Editorial, 2005) e Lúcidos Sonhos – poemas (SP, Olavo Bras, 2008), além de várias tiragens de dois pequenos livros (com ilustrações de dois fotógrafos de Santa Catarina): Verso e Reverso com fotos de Adriana Füchter e Arte Poética para Passarinhos com fotos de Joaquim Araújo.
Além deles tenho publicado pela Universidade de Salamanca um estudo de Literatura Comparada entre as nivolas do Unamuno e as favole intellettuali de Cesare Pavese.
Há em Paris um confrade português, que verteu poemas meus para o francês e, em Gênova, outros confrades que os traduziram para o italiano. Na Rússia uma poetisa e diretora de cinema deseja traduzir poemas meus para o russo. Em Portugal há confrades e editoras desejosos de publicar minhas obras poéticas.

SELMO VASCONCELLOS - Qual(is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia?

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO - Os impactos, que proporcionam atmosferas capazes de produzir poesia, são todos os que atuam dentro e fora de mim, vale dizer, o sabor da palavra poética solidária, os dons gratuitos da existência, tudo quanto se constrói no tempo e o supera.
Minha gangorra poética vem da raiz telúrica e sobe para os desafios dos admiráveis e gratuitos dons com que me dotou a Providência.
Só posso dizer, como Ovídio, que tudo quanto percebo no sonho, no sono e na vigília resulta-me e floresce em poesia ou em prosa poética, delas não excluindo minha condição de filólogo românico.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO - Os escritores que mais admiro (e são vários e em vários idiomas) sumarissimamente os enuncio:
Anacreonte, Catulo, Vírgilio, Ovídio, Villon, Rabelais, Baudelaire, Shakespeare, Yeats, Hopkins, Rilke, Poe, Camões (pai de todos nós), Cesário Verde, Pessoa, o grande poeta brasileiro de dimensão internacional Murilo Mendes, Maiakoviski, Ungaretti, Montale, Saba, Quasimodo, os (talvez) maiores poetas San Francesco, Dante Alighieri; Petrarca, García Lorca, Antonio Machado, Bécquer, Neruda, Campoamor, Hernández, Dámaso Alonso, Dostoieviski, e outros (muitos) mais, alguns silenciados pela estupidez stalinista, nazista ou fascista.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO - Aos novos poetas daria esta mensagem de incentivo: recordem-se que as artes buscam a perfeição do produzido, não a do produtor (esta é do campo da Ética). Nunca se fechem em solipsismo, nem creiam que “os outros são o inferno”. Vejam neles parceiros do diálogo múltiplo, que nos liberta da inefabilidade do indivíduo e nos leva às pontes das pessoas humanas.
Ou, como diria nosso circunspecto Machado de Assis “Amai, jovens”...
Busquem, como o fez Cassiano Ricardo “sou local pelos pés/pássaro universal pelo pensamento”.
Ou em outras palavras empenhem-se na “luta pela expressão” comunicativa.
Vejam na Poesia o mais alto e mais eminente poder de expressão humana, mas sempre com os pés no chão e nas raízes.
Rendam sempre “cento por um”, dos dons da Providência.
Todo o resto é... perfumaria de mau perfumista.
Leiam sempre seus confrades e insiram o Brasil no diálogo poético universal.
É isto o que conta...

POEMAS

Desafio Orquestral – Arte Poética para Passarinhos

DESAFIO ORQUESTRAL...

Versos que eu faço
São sem espinhos:
Para crianças
E passarinhos.
Destes persigo
A competência,
Quero daquelas
Graça e indulgência.
Que perto deles
Logo te ancores:
Não são proibidos
Para maiores...
Que neles haja
Sabor de cantos
E em todos cause
Prazer e encantos.
Que eu faço versos
Mas sem espinhos,
Com partituras
Pros passarinhos...


Quadrilha – Verso e Reverso

QUADRILHA

A voz
Persegue o tom
Que à voz
Persegue.


Construção – Ciclo das Chamas

CONSTRUÇÃO

Envolver o Mundo
Em abraço estreito
Como se meu peito
Com vigor fecundo
Fosse todo feito
Só para esse efeito
De um amor profundo.
Abraçar a Vida
Com total ternura
Como se de pura
Luz impressentida
Fosse a tessitura
(sem taxa ou usura)
por todos fruída.
Construir a Terra
Sementeira farta
Que o pão reparta
Onde não se encerra
Onde não se enterra
Fruto, ciência ou carta,
Como quem se aparta.
Entoar um Canto
Alegre, jocundo:
Bem, de todo mundo
Bem, que não se oculta
Bem, que não insulta
Bem, que não se enterra
Mas que abraça a Terra.


Cantiga para Themis – Ciclo das Chamas

CANTIGA PARA THEMIS

Meu coração chegou
Ao mundo da surpresa
E, ao te ver, Princesa,
De pronto se inflamou.
Eu disse ao coração:
– Amigo, tem cuidado,
Te sinto enamorado,
Queimando de paixão.
O tempo não passou,
Parou naquele instante,
E nosso amor, constante,
Ao tempo nem ligou:
Assim, és a menina
De ontem, hoje e agora,
Pois hoje é nossa hora
E amar-te é sorte e sina.
Bem sábio, o coração
É o mesmo do passado,
Por ti enamorado:
Amor, fogo e paixão...


Translúcido fulgor da luz nascente – Lúcido Sonho

TRANSLÚCIDO FULGOR DA LUZ NASCENTE

Amálgama de luz e terra espessa
Qual ponto de fusão, em que se extremam
O clímax de altiva claridade
E o sumo das mais funda opacidade,
A aurora nos surpreende e desafia
E assume em disjunção a noite e o dia.
O pálido furor da estrela d’alva
Ateia, antecipada, a luz altíssima
Do tremor meridiano em fogo aceso.
A treva em nós é o invólucro precioso,
A custódia do núcleo, que não pode
Sem proteção mostrar-se à luz, que o cega.
E assim somos um só e o mesmo ímpeto
Do ultra-violeta ao infra-vermelho...


GIGANTE DESPERTO

( Para Selmo Vasconcellos )

Ah! Nosso Brasil, tão grande,
Tão plural, tão singular...
De quem o sirva ou comande
De quem o pretenda amar
Não cessa de reclamar
( Gonzaga o sentiu profundo )
“Coração maior que o mundo”...

Sonhou-o Gonçalves Dias,
Com certeira intuição
E tão perfeitas poesias,
De completa devoção :
Que inda nos resta fazê-lo
Com mais completo desvelo
Para poder merecê-lo.

Tão grande, em sua inteireza,
Tão plural, tão singular
Que só medido em grandeza
É que se pode avaliar.
De quem o pretenda amar
Não suporta a estreiteza
De curto e mesquinho olhar.

Ah! Brasil, quanto nos custa
Chegar à medida justa
De sua exata verdade!...
E pra poder merecê-lo
Nós precisamos vivê-lo
Em Justiça e Liberdade,
Para o amar de verdade...

Assis (SP), 06 de janeiro de 2006.

FOTOS : MARIA RITA AGUIAR

domingo, 18 de abril de 2010

BEATRIZ AMARAL - ENTREVISTA

BEATRIZ AMARAL

BIOGRAFIA

BEATRIZ AMARAL nasceu em São Paulo e estreou em literatura em 1980. Formada em Direito (USP, 1983) e em Música (FASM, 1985, com especialização em violão erudito), é Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP (2005). Promotora de Justiça do Estado de São Paulo desde 1986, foi promovida ao cargo de Procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado em São Paulo em abril de 2009. Publicou nove livros, entre os quais ENCADEAMENTOS (1988, Massao Ohno), PRIMEIRA LUA (haicais, Massao Ohno 1990, em parceria com Elza Ramos Amaral), POEMA SINE PRAEVIA LEGE (1993, Massao Ohno, indicado como finalista do PRÊMIO JABUTI – categoria poesia), PLANAGEM (1998, Massao Ohno) ALQUIMIA DOS CÍRCULOS (2003, Escrituras) e LUAS DE JÚPITER (2007, Anome). Participou de mais de vinte antologias poéticas, no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal. Trabalhos críticos sobre sua obra têm sido realizados na Itália, na Alemanha e em Portugal. Também fez cursos de Roteiro Áudio-visual (PUC), de Criação em TV (Escola Gafanhoto) e de História e Linguagem do Cinema (Inácio Araújo). Tem poemas e ensaios inseridos em Folha de São Paulo, Folhinha, Revista Zunái, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, O ESCRITOR, Germina, Linguagem Viva. Em 2006, recebeu o PREMIO INTERNAZIONALE FRANCESCO DI MICHELLE de Poesia, de Caserta, Itália. SITE: http://beatrizhramaral.sites.uol.com.br
E-mail: beatrizhramaral@uol.com.br

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?

BEATRIZ AMARAL – Sou membro do Ministério Público do Estado de São Paulo desde 1986, quando ingressei, por concurso, no cargo de Promotora de Justiça Substituta. Atualmente sou Procuradora de Justiça e faço parte da Procuradoria Criminal. Claro que a carreira consome a maior parte do tempo. Mas, além de minha atividade profissional e de escrever, pratico um pouco de Música. Toco violão erudito e também sou formada em Faculdade de Música. E gosto muito de fotografia. Já coordenei muitos eventos relacionados à literatura e à cultura e também fui diretora da UBE-SP (inclusive Secretária-Geral da entidade) por muitos anos.

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?

BEATRIZ AMARAL – Meu interesse literário surgiu na infância, bem cedo, Sempre fui fascinada pela letra impressa e já aos quatro anos adorava os jornais que chegavam em casa, tanto que me alfabetizei em casa e já cheguei à escola sabendo ler. Quando vi uma biblioteca pela primeira vez, fiquei muito impressionada e quis começar a formar a minha, que hoje é bem diversificada e me proporciona bons momentos. Aos seis anos, comecei a escrever pequenas narrativas, que, logo depois, eu gostava de “encenar” para as visitas da casa. O primeiro poema veio na adolescência, aos doze anos, e, a partir deste momento, não parei mais. E o meu primeiro romance escrevi entre quinze e dezesseis anos de idade. Na fase universitária, embora eu cursasse Direito e Música, comecei a me interessar em grau crescente pela teoria literária e pela crítica literária. Li bastante a respeito, mas, claro, foram leituras de leiga. Em 2005, obtive o grau de Mestre em Literatura e Crítica Literária.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do país?

BEATRIZ AMARAL - Já publiquei 9 (nove) livros:

DESENCONTRO (1981, romance);
COSMOVERSOS (1983, poemas);
ENCADEAMENTOS (1983, poemas);
PRIMEIRA LUA (1990, haicais, em colaboração com ELZA RAMOS AMARAL); POEMA SINE PRAEVIA LEGE (1993, poemas);
PLANAGEM (1998, poemas);
CÁSSIA ELLER: CANÇÃO NA VOZ DO FOGO (2002, ensaio biográfico); ALQUIMIA DOS CÍRCULOS (2003, poemas) e
LUAS DE JÚPITER (2007, poemas).
Neste ano sairão mais dois livros (em prosa) e você será um dos primeiros a saber.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os impactos que propiciam atmosfera capaz de produzir literatura?

BEATRIZ AMARAL – Creio que a resposta abrange uma grande variedade de elementos. Para alguns, como para mim, em geral, não há necessidade de um grande impacto, pois é natural o estado de “estar no mundo” poeticamente e ter um olhar que capta camadas sutis da realidade. Algumas vezes, claro, o impacto de uma cena ou de uma notícia alegre (ou nem tanto) desencadeia com mais intensidade o processo de escritura. As viagens, geralmente, quase todas elas, propiciam esta atmosfera a que você se refere. Sempre voltamos renovados de uma viagem, um pouco modificados por ela, e o resultado muitas vezes se traduz nas criações literárias. Além disso, lembro que, na minha experiência particular, nos anos 90, muitos filmes e exposições de arte me impulsionaram a escrever. Hoje, a observação do cotidiano e a música são os elementos que mais me impelem à escritura.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira?

BEATRIZ AMARAL – São muitos, muitos mesmo. Vou citar somente alguns, principalmente aqueles que foram decisivos na chamada fase de formação. Em prosa, Clarice Lispector, Machado de Assis, Guimarães Rosa. Li praticamente toda a obra de Machado de Assis na adolescência e não queria parar mais. Também gosto muito de Flaubert, Virginia Woolf, Joyce. Em poesia, João Cabral de Mello Neto, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Paulo Leminski, Moacir Amâncio, Olga Savary. E atualmente há muitos bons autores de gerações mais novas que tenho prazer em ler, sobretudo em poesia, como Alexandre Brito, Luís Serguilha, Fabiano Calixto, Carlito Azevedo, Maria Esther Maciel (narrativa, crítica, poesia), Cláudio Daniel, entre muitos outros.

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores?

BEATRIZ AMARAL – O melhor que posso dizer é que perseverem, sempre. Quem quiser ser um escritor, e um bom escritor, deve ler muito, ler tudo, e ir desenvolvendo seu senso crítico e desenvolvendo seu gosto pessoal. Os clássicos devem ser lidos. Há autores que não se pode deixar de ler. Guimarães Rosa, Machado de Assis, Flaubert, Proust, Dante, Dostoievski, a literatura russa é riquíssima. Além disso, deve-se praticar muito, escrever, escrever, escrever, se possível, diariamente, depois reler, reescrever, reescrever. O novo escritor também deve fruir o máximo possível as outras artes, a música, o teatro, o cinema, a dança, as artes plásticas, gráficas e visuais, isto é, deve penetrar o universo da arte, que é amplo e surpreendente, Ler, selecionar, criticar, escrever, corrigir, reler, reescrever são as atividades que, reunidas, poderão forjar um bom escritor.

POESIAS

E C O

se me trazes o arco,
não dispara as flechas

são vinte pausas
para tua vontade

a madrugada
se embriaga de ironias
tudo é sempre menos
do que jamais sabemos

no eco das palavras
ouço harpa
porque a noite é surda

(do livro ALQUIMIA DOS CÍRCULOS, 2003, Escrituras Ed., SPaulo)


E V E N T O

tome um aquário,
recorte
a nudez –
frase que se inunda
de não-água

na pressa
se inscreve
- em líquido –
o flagrante sem peixe,

o estranho de ser fogo
e o resultado dos hífens

tome o desenho
da tocha,
que combustão
se há de

(do livro LUAS DE JÚPITER, 2007, Anome, Belo Horizonte)


R I C E R C A R I

eu disse alaúde
e súbito ouvi
todas as cordas
se afinarem

também vi
contra as pedras
um barco narrativo

perdidos remos,
pares, réguas

o choque das pa
lavras explodindo
no ambíguo precipício
sem resposta

(do livro LUAS DE JÚPITER, 2007, Anome, Belo Horizonte)
Premio Internazionale di Poesia Francesco di Michelle, Caserta, Itália, 2006


C I R A N D A

habitante de raiz,
fincando estrelas,
jogo

no mapa,
latitudes se rasgam

combustão de hipóteses
pólvora

no útero das ruas
luas de musgo
se acasalam

(do livro LUAS DE JÚPITER, 2007, Anome, Belo Horizonte)


F I G U R A S

princípio do sono:
lassidão de formas
me embriaga

fontes, monte, montanha
labaredas da semana

projeto de lua
sobre a retina
(imagens sem rima)

rios, amoras, ananás
camelos e serpentes

a fome de Netuno
para um rito d’água

pérola exposta no vácuo

(do livro LUAS DE JÚPITER, 2007, Anome, Belo Horizonte)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

ZEMARIA PINTO - ENTREVISTA

ZEMARIA PINTO

BIOGRAFIA

Zemaria Pinto (José Maria Pinto de Figueiredo) nasceu em Santarém-PA, a 06 de maio de 1957, vindo com tenra idade para Manaus.

Bacharel em Economia pela UFAM, especializou-se em Análise de Sistemas. Atua na área de Informática desde 1974, tendo cumprido vários estágios na carreira. Em 1989, concluiu, também pela UFAM, a especialização em Literatura Brasileira, o que o credenciou a atuar como professor substituto daquela instituição, até 2001, nas seguintes disciplinas: Teoria da Literatura, Literatura Latina, Literatura Brasileira e Literatura Amazonense. No momento, empenha-se no mestrado de Estudos Literários, pela UFAM, com a proposta de trabalho A invenção do Expressionismo na poesia de Augusto dos Anjos.

Tem participação em mais de uma dezena de antologias, com destaques para a série Saciedade dos Poetas Vivos, da editora Blocos, do Rio de Janeiro, volumes IV, VI e IX; Haïku sans Frontière: Une Anthologie Mondiale, coletânea de haicaístas do mundo inteiro, publicada no Canadá, por Les Editions David; A Poesia Amazonense no Século XX, organizada por Assis Brasil, para a editora Imago, do Rio de Janeiro.

Livros publicados: O texto nu (2008, teoria literária); Dabacuri (2004, haicais); Nós, Medéia (2003, teatro); Música para surdos (2001, poesia); Análise literária das obras do vestibular (2000 e 2001, em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger); Fragmentos de silêncio (1996, poesia); Corpoenigma (1994, haicais).

Organizou o livro A Uiara & outros poemas, de Octavio Sarmento, publicado em 2007, pela Academia Amazonense de Letras.

Livros prontos, aguardando publicação: Ensaios ligeiros (artigos literários), Drops de pimenta (contos), A cidade perdida dos meninos-peixes e O beija-flor e o gavião (novelas juvenis), Lira da Madrugada e O Conto no Amazonas (ensaios).

Além de Nós, Medéia, premiada, em 2002, como o melhor texto adulto em concurso da Secretaria Estadual de Cultura, tem mais as seguintes peças de teatro: Papai cumpriu sua missão, encenada em 2000/2001; Diante da Justiça, encenada em 2003/2004; O beija-flor e o gavião, encenada em 2006/2007; Otelo solo, Cenas da vida banal e A cidade perdida dos meninos-peixes, inéditas.

Desde outubro de 2004, é membro da Academia Amazonense de Letras, onde ocupa a cadeira número 27, de Tavares Bastos.

Entre 1993 e 2002 editou 16 números do fanzine o fingidor, cuja proposta era veicular a nova poesia amazonense, sem perder de vista a tradição. Desde setembro de 2008 edita os blogs O Fingidor (http://ofingidor2008.blogspot.com), na mesma linha do zine, com poemas e quadros diários, Palavra do Fingidor (http://palavradofingidor.blogspot.com), com ensaios, contos e notícias, e, mais recentemente, Poesia na Alcova (http://poesianaalcova.blogspot.com), só com poemas eróticos e pornográficos.

ENTREVISTA

Zemaria Pinto entre Jefferson Peres e prof. Ruy Lins
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

ZEMARIA PINTO - Trabalho, há 35 anos na PRODAM, empresa estadual de Tecnologia da Informação. Aliás, por formação, sou economista e analista de sistemas. Nessa empresa, ocupei vários cargos, inclusive o de diretor técnico. Hoje sou consultor. Além disso, por 11 anos, de 1989 a 2000, dei aulas de literatura na UFAM, pois também sou especialista em Literatura Brasileira. Atualmente, além da PRODAM, divido meu tempo com o mestrado em Estudos Literários, na própria UFAM, pois pretendo dedicar-me integralmente à literatura.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?

ZEMARIA PINTO - Ainda criança lia muito, sem nenhum método. E escrevia, também. Mas só depois de adulto, ali pelos 30 anos, comecei a sistematizar leituras e também a escritura. Mas posso dizer, sem medo de estar sendo pernóstico, que a literatura despertou em mim junto com minha consciência de ser.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados, dentro e fora do país?

ZEMARIA PINTO - :

São 8 livros publicados:
Corpoenigma (haicais – 1994),
Fragmentos de silêncio (poesia – 1996),
Música para surdos (poesia – 2001),
Nós, Medéia (teatro – 2003),
Dabacuri (haicais – 2004),
Texto nu (teoria literária – 2008).

Além destes, dois de Análise literária das obras do vestibular (2000 e 2001), em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger.

Participei de mais de uma dezena de antologias, com destaque para Haïku sans Frontière: Une Anthologie Mondiale , publicada no Canadá, em 1998.

Um livro de que muito me orgulho, não é de minha autoria, apenas organizei e fiz o estudo introdutório: A Uiara & outros poemas, de 2007, de Octavio Sarmento, um poeta falecido em 1926, sem nenhum livro publicado. A Uiara passou a ser um marco da literatura amazonense, com 80 anos de atraso.

Além destes, tenho uma meia dúzia de inéditos. Este ano, eu espero publicar pelo menos uns três...

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura?

ZEMARIA PINTO - Acredito na força da transpiração se sobrepondo à inspiração. É claro que sossego ambiental e paz de espírito ajudam, mas o principal mesmo é aquele dobermann no calcanhar, como alguém já metaforizou o compromisso profissional.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

ZEMARIA PINTO - Qualquer lista é subjetiva, depende muito do momento. Neste agora, eu diria que os primeiros espantos do adolescente leitor persistem ainda depois dos 50: Dante, Drummond, João Cabral e Augusto dos Anjos, na poesia; Graciliano Ramos, Borges, Kafka e Clarice Lispector, na prosa. Mas é uma lista incompleta: adulto, descobri a prosa de Machado e de Guimarães Rosa, a poesia de Camões, de Pessoa, de Borges e de Cruz e Sousa, o teatro de Nelson Rodrigues... E tem os meus “parentes” também: Bacellar, Tufic, Thiago... As admirações são tantas que eu ocuparia todo o espaço da entrevista só com elas...

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores?

ZEMARIA PINTO - É preciso entender o nexo do presente com a tradição. Conhecer o passado literário – sem pretender imitá-lo – é fundamental. Tanto quanto conhecer as tendências contemporâneas, tendo a humildade de não procurar inventar nada. Se o sujeito tiver talento, ele brotará dessa conjunção. Em síntese: leiam, leiam, leiam, leiam.

POEMAS INÉDITOS

a casa perscrutada – escrivaninha

a escrivaninha é um móvel
num ponto inútil da sala
(debaixo de uma janela)

sua pesada arquitetura
torna-a feia agressiva
aos olhos acostumados
à transparência e leveza
dos outros móveis da casa

nauta de outras geografias
traz tatuada na tampa
os vestígios indeléveis
de batalhas e naufrágios
ais de amor assassinatos

três conchas feito gavetas
são depósitos de idéias
onde traças invisíveis
deixam traços furiosos
nas folhas esmaecidas

composições esquecidas
aos poucos são resgatadas
do túmulo violado
já nem tudo reconheço
mas sei que me fazem parte

anêmicas cançonetas
sonetos ossificados
noturnos anoitecidos
baladas banalizadas
delírios delituosos

poemas velhos poemas
refletindo no crepúsculo
memórias do meu desejo

a casa perscrutada – biblioteca

as paredes de papel
temperadas pelo tempo
são fortaleza de aço
forjado em fogo e silêncio

agrupados por assuntos
cada conjunto de livros
é um mar particular
com seus ventos, tempestades
seus seres imaginários
monstros, homens, potestades

poesia, teatro, ensaio
história, filosofia
romance, conto, novela
didática, teoria
cinema, artes, quadrinhos
música, fotografia

as chamas aprisionadas
entre as páginas dos livros
são metáforas perenes
imagem, símbolo, mito
semeadura de paixões
fronteiras com o infinito

um cômodo de papel
temperado pelo tempo
é território de sonhos
prazeres do pensamento

Anavilhanas, vésperas

o coral dos encantados
vestido em verde/arco-íris
acompanha-se de naipes
invisíveis

a percussão da água
as cordas do vento
os sopros do sol
até o último
movimento

a capela, em pianíssimo,
a noite
com seus sussurros

construção/ruínas

das ruínas

os poemas espalham-se em desordem
feito cadáveres no campo de batalha
a noite os torna invioláveis
mas não esconde sua presença surda
seu odor de enxofre
seu hálito de pedra
sua mineral iniqüidade

da construção

o poema se limita
com a água do rio em movimento
é sempre impreciso o momento
de retê-lo na retina
papel de ar tinta de espuma?
o poema é um barco bêbado
subindo o rio

Moto-contínuo

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento.

Lentamente a História muda,
lentamente muda o Homem,
tão lentamente que às vezes
pensamos que estagnou.

As longas noites da História
passam-se tão lentamente
que nem nos apercebemos
quando o dia, enfim, chegou.

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento.

Tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu:
os corpos e os vegetais,
a fé e a necessidade,
a volúpia e a vontade,
o desejo e o desalento.

Tudo o que é vivo apodrece,
o que é líquido evapora,
o sólido se deforma,
o fogo que queima apaga
e o ar, puro ou cinzento,
a cada instante renova-se,
e mesmo o pó se transporta
sob o trabalho dos ventos.

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

JOSETTE LASSANCE - ENTREVISTA

JOSETTE LASSANCE

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

JOSETTE LASSANCE - Sou professora de Artes e História, além de funcionária pública, pode? Dou aulas três vezes por semana em escola pública e trabalho num órgão do governo pela manhã. Gosto também de me arriscar em fazer vídeos.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

JOSETTE LASSANCE - Necessidade cósmica. Pura necessidade cósmica. As palavras vêm rompendo nosso destino, e não havia outro sentido além de escrever em minha vida.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

JOSETTE LASSANCE - Bem, publiquei :

VIDA DE BRUXA (POEMAS), em 1992;
OS GATOS NUS...(CONTOS), em 1994;
GALERIA DOS MAUS(POESIAS) em 1999;
NO ÚLTIMO DESEJO A CARNE É FRIA (Contos -juntamente com os escritores Olga Savary; Israel Gutemberg e Carlos Correia, em 2006);
PRAZER CLANDESTINO (cartões postais com poemas, fotografias de Bárbara Freire e Flavya Mutran), em 2001;
O PRÉDIO, em 2003
e finalmente OS CINCO FELIZES(Contos) em 2009, pela Editora Paka Tatu.

Participei de algumas antologias, inclusive uma na Itália, alguns prêmios de edição em Menções Honrosas, publiquei em algumas revistas em circulação nacional, como VIVA VAIA e PARA ZEROZERO; participo de alguns Sites, www.culturapara.art.br; www. veropoema.com.br; www.editoraprotexto.com.br, entre outros e alguns blogs; Portal Literal do site Terra; G1 do globo.com (vídeo leitura durante o Fórum das Letras em Ouro Preto em novembro de 2009; Tenho um blog www.jlassance.blogspot.com ; algumas publicações em jornais (inclusive em sua coluna), alguns vídeos de poesia postados no Youtube e por aí vai.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?

JOSETTE LASSANCE - gosto de sensações, elas invadem nossas almas, de dentro para fora e se adentram como raízes, envolvidas num sentimento avassalador, muitas vezes seu tempo é subjetivo, existe uma espécie de conspiração inconsciente, e em algum momento isso explode, é claro, elas vêm como desejos, mas muitas vezes ficam guardadas na memória do afeto, até que um dia as palavras saem exalando o mesmo hálito.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

JOSETTE LASSANCE - Não poderia de deixar de falar em Clarice Lispector, Charles Bukowski, Kafka e Karina Jucá, são meus preferidos.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

JOSETTE LASSANCE - Escrever de verdade, como se fosse a razão de sua vida. O resto é consequência.

POEMAS

O PÁSSARO AZUL DE BUKOWSKI

um dia em que olhares nos olhos do fogo me verás
entre as pedras do tempo
quando quiseres falar
já não haverá
vento que te leve
porque quando me procurares
já não estarei mais
puxarás em teu coração o pássaro azul de Bukowski
algo preso
como um silêncio cego
do livro da morte
o passado azul empalhado
dentro do teu peito quente/frio
do amor ilusão

quando quiseres me ler
lerás as cinzas
do que queimaste em carne viva

um brilho de fome
permanecerá em ti ... permanecerá em ti ... permanecerá em ti.


SAUDADE

hoje
acordei assim
essa saudade
minha
esse alvorecer sem rosas

hoje acordei
e não havia aromas a tecer

o jasmim
vencido

trazia seu esqueleto seco

e essa fumaça
de carros
chaminés
de usinas velhas

invadiu a cortina
de ferro da cidade

essa feroz turbina
do dia

não trouxe
nenhuma

canção

hoje acordei
com uma saudade única
mas não queria
crer
que pudesse
ser uma saudade
anêmica

de beijar
o panô do tempo

e
ver o teu rosto puído
roto como um degrau da vida

tantos caminhos
me deixaram assim
acordar com saudades

e ser a poesia do dia

hoje acordei assim
e não deveria

por honra
das horas

por honra de mim mesma

não deveria
ter saudades.

(2009)


DO OUTRO LADO DA RUA ... Ainda não sabia usar meu olhar quando visse algo parecido com a cena de ontem, um homem vestido por um short suado e riscado de noites mal dormidas andando, caminhando? através do asfalto das duas da tarde, Almirante Barroso, a via mais movimentada da cidade de Belém. Um louco? um transeunte torto? um ermitão? ou um expectador da vida perigosa? Um flanneur pós moderno, líquido, ou alguém que parou no tempo dos neandertais e agora revisita sua floresta remodelada de cal? Os carros enfileiravam-se para não se perder diante de uma possível morte , assassinato no trânsito caótico ; ele parecia estar num mundo à parte, queria morrer com essa velocidade intrínseca, seca e suja por fora de seus vestidos rotos. seu rosto não me parecia perdido, ele sabia o que estava fazendo e não fazendo ali, em plena secura de um sol achatado pelas nuvens amordaçadas pelo mormaço... Ele caminhava descalço com pés quentes e calejados de destino, ali, no quase equador, aquele homem sem sombrinha qualquer, poderia se despedaçar a qualquer segundo entre as latarias folgadas dos ônibus sucateados, ou uma motocicleta sem luz, um Jeep reluzente, uma bicicleta, um carro pipa...ele não parecia se importar de que forma morreria, o formato padrão da morte é um empacotamento sinistro que deságua em geladeiras-calabouços do necrotério público, mas aquele homem sabia chamar atenção, e me chamou daquela forma pouco convencional em que o medo que eu possuía naquele instante de quase morte, eu poderia sentir a posse de seu sangue se misturando à gasolina e fumaça de turbinas e ao cotidiano daquelas pessoas que passariam por ali, veriam aquela tragédia e que no máximo serviria para uma crônica de alguém que escreve em blogs publicar, ou para quem sabe, a partir dali, pudesse ver o mundo com bons olhos, olhos de quem não se perderia mais em seus destinos.

(2009)


DESERTO-CÃO

aqui é noite no deserto cão
o mundo faroeste, entre inimigos e inimigos
ele é um vale... um deserto onde os homens se perdem

daqui mesmo, onde o olhar se reparte, da miragem da estrada seca até a caveira do gado
os ranchos de madeira que a ferrovia entrecorta

vejo todas as coisas submersas em seu sentimento. Coisas que profanamos sempre, sem nenhuma ternura, burlando os eternos laços dos rituais sagrados

nessa hora perdida se fundem pedaços e o vazio preenche o horizonte
nada além do que uma mesquinha vida
de armadilhas armadas

aqui é noite no deserto cão
nem mesmo as sombras do jasmim caem sobre o chão neste verão seco, cheio de luas enormes
onde o vento traz desejos
mundo faroeste
mocinhos, bandidos e bandidos se compensam em iguais

daqui mesmo vemos todos nas tempestades de areia
aos rifles e ao estilhaço
das espingardas

aqui é noite no deserto cão
e o dia é de pó, sangue e suor dos homens
que se destinam
a uma terra
que jamais terá dono,

será como as noites
de veludo e carne
entre faunas de pedra
e luxúrias do céu negro

nada lhe dará vínculos
onde possa arder o mesmo rosto do sol no crepúsculo
e nada mais se poderá fazer

cansamos do ácido
das fantasias de robôs

cansamos do que não signifique
enlace

aqui é noite no deserto cão

hora perdida
hora de pedra
hora de uivar para as cinzas da lua.

(poema premiado no concurso do C.a.l. (2008)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

GRAÇA CARPES - ENTREVISTA

GRAÇA CARPES

http://pulsarpoetico.zip.net
.
www.myspace.com/gracacarpes
.
http://www.youtube.com/user/gracacarpes
BIOGRAFIA

Graça Carpes é Poeta por nascimento, Atriz e Clown por formação e Mãe por natureza.
Gaúcha da cidade de Rio Grande onde viveu parte da infância, transferiu-se com a família para Pelotas. Já aos dezoito anos mudou-se para Porto Alegre, onde casou-se e teve seus dois filhos.
Seguiu para Florianópolis e chegou ao Rio de Janeiro em 1995, morando atualmente em Pendotiba, Niterói. A idade ela não conta, pois que isso é coisa para depois da morte.
“Estar vivo é acumular sóis!” - diz a Poeta.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

GRAÇA CARPES – Sou também produtora, atriz e clown. Aventuro-me nas artes plásticas
pintura e escultura; na fotografia e no audio visual.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

GRAÇA CARPES – Sempre achei o “objeto livro” fascinante. Tenho uma memória de quando,ainda muito criança, dois livros que me pareciam mágicos pelo zelo com que
meus pais recomendavam sempre que os alcançava. O primeiro era um imenso livro de medicina de meu pai. As imagens do corpo humano e a própria descoberta do humano que se desvendava diante dos meus olhos, era mágica pura. E um também imenso livro de culinária que pertencia a minha mãe e repleto de desenho, arte pura. E por ainda não saber ler, sempre pedia que ela os lesse enquanto muito atenta às imagens, criava um infinito mundo em minha cabeça. Depois, quando aprendi a ler descobri uma infinidade de correspondências que meus pais haviam trocado entre si, durante um período de namoro em que meu pai foi para São Paulo e mamãe estava no sul do sul. Aí, acredito, surgiu a POESIA na percepção do afeto. E mais o segredo da leitura pois que isso era um “tesouro” para eles. Descobri o valor da palavra escrita e o mundo tão particular a que isso remetia. Mas nunca abandonei aqueles dois imensos livros, nem mesmo por “Don Quixote” que amava, ou ainda os livros das histórias orientais, os quais são a causa principal de despertar meu desejo ao desenho e às cores.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

GRAÇA CARPES – Edições independentes : -

. FOLHAS SOLTAS (RS) – poesia

. FRAGMENTOS DE UM MESMO PRINCÍPIO / VOL. I e VOL II - (RS) - poesia e prosa

. SEM PALAVRAS ( SC ) – poesia

. BICHO NOTURNO ( SC ) – poesia

. O HOMEM QUE TINHA ASAS NAS IDÉIAS – ( RJ ) – infantil

Participação em coletâneas:

. I FESTIVAL DE POESIA SEERJ 1999/2000 ( RJ )

. 1825 DIAS DE POESIA – Terça ConVerso no Café - ( 2004 – RJ )

. REPÚBLICA DOS POETAS – Museu da República - ( 2005 – RJ )

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?

GRAÇA CARPES – A POESIA é o próprio impacto. É o olhar e não o fato; e a atmosfera, a alma de tudo o que existe.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

GRAÇA CARPES – Gosto muito da literatura africana – Mia Couto um exemplo mais acessível.
Adoro os orientais os antigos Taoístas e os contemporâneos:Khaled, Rushdie.
Amo Cervantes, Rimbaud, Oscar Wilde, Mario Benedetti, Neruda, Lorca, Maiakowski, Machado, Cortázar, Adélia, Cecília Meireles, os escritores gregos, os filósofos e muitos outros. Amo os que tocam em minha alma com as palavras, é uma fonte infindável.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

GRAÇA CARPES - Antes de tudo, ler muito e conhecer pensamentos e vidas de outros
pensadores. O conhecimento é tudo. Sem conhecimento é fácil perder-se no redemoinho de si mesmo, o mar do próprio ego. É preciso ter responsabilidade com a palavra para que, ao observar o mundo você o absorva e o devolva de forma literária lúcida. Anarquia não é bagunça, é transformação.

POESIAS

Semente

que o semelhante
:
semente ante o outro – espere o broto
perceba a luz da
cor
.
permita que nasça o
diferente
;
ouça a música veja o
som
arome
.
.
.
arome cheiro diferente
,
novo respirar
reaprender
;
reencontrar o princípio de
si
.

Prisma

por que assusta ser
livre e
fecundante
se o prisma
do
poema reflete a
luz
das
manhãs
?
assim como o
oculto em escuridão
da
noite
é
intocável
reconhecível
intocável

Para Clarice Lispector

peso a
luz
(
estrela
insustentável
)
clara feito
espectro
.

harmonia

é necessário no lado in
o sonoro não inteligível – um sopro yang
e no lado Yang
o sonoro agudo dos ventos
em sinfonia aos
bambus
!

Porcelana

Feita essencialmente de caulim, translúcida, branca e frágil...
Às vezes parecendo forte – cerâmica dura.
Às vezes parecendo frágil – translúcida e branca...
Porcelana encantava aos visitantes da sala.
Vez que outra... Um que outro tentava tocar-lhe a alma.
Às vezes por ser tão rara – antiguidade da china.
Às vezes por ser tão fina - partindo-se na primeira queda...
Porcelana permanecia intacta e fria.
Seria preciso mãos hábeis para acaricia-la.
Voz melódica para encanta-la.
Coração suave para envolvê-la.
Um dia - mal sabia a raridade esbranquiçada - apareceu-lhe o poeta que dizia
Ser ela
A peça rara de seus dias.
E trouxe vida à raridade fina.
E deu-lhe sonho belo em nuvens suspenso,
E apanhou-a com suas mãos de poesia,
E encarcerou-a em uma cela de desejos,
E disse estar ela muito além de todos os medos,
E encantou-a com a melodia noturna de suas promessas,
Aprisionando-a ao vê-la!
E ela, feita essencialmente de caulim
Translúcida, branca, frágil...
Deixando-se suspender ao mais alto degrau dos céus, depôs de si todos os véus que encobriam sua raridade fria,
Permitindo ao poeta mostrar-lhe o que nem ela sabia...
Porcelana
:
Substantivo feminino
Feita essencialmente de caulim – mineral -
Translúcida, branca e frágil...
(
Onde hoje se pensa bordados chineses:
Emendas...
E cacos
)
!

terça-feira, 13 de abril de 2010

GERSON VALLE - ENTREVISTA

GERSON VALLE

Foi lançado este mês no site da Freitas Bastos um e-book da novela de minha autoria "A igreja invadida", cujo link que a descreve e informa como adquiri-la (7 reais) é: http://freitasbas.lojatemporaria.com/a-igreja-invadida.html

DADOS BIOGRÁFICOS

Nasceu em 27/04/1944, tendo passado toda a infância e juventude no bairro carioca de Ipanema. Estudou no Colégio Mello e Souza (em Copacabana) e no Colégio Rio de Janeiro (em Ipanema). Formado pela Faculdade de Direito Cândido Mendes (1969). Pós-graduações na França (Institut Européen des Hautes Études Internationales e Diplôme d’Études Approfondies en Droit de la Paix et du Développement, ambos da Université de Nice), Holanda (Académie de Droit International de La Haye) e Portugal (Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa). Foi vice-diretor da Faculdade de Direito Estácio de Sá e diretor de ensino da Sociedade de Ensino Superior e Assistência Técnica – SESAT, ambas no Rio de Janeiro. Lecionou Direito Internacional Público, Noções de Direito, Política Internacional e Cultura Brasileira, em faculdades do estado do Rio de Janeiro. Assessor-chefe da Assessoria Jurídica da Fundação Nacional de Arte-FUNARTE (Ministério da Cultura) durante dezesseis anos. Transferiu sua moradia da cidade do Rio de Janeiro para Petrópolis onde tem participado de diversas ongs de cunho ambiental e cultural. Recebeu o TÍTULO HONORÍFICO DE CIDADÃO PETROPOLITANO por relevantes serviços prestados ao Município, segundo a Resolução da Câmara Municipal de Petrópolis nº 173, de 12/12/2003. No ano de 2004 manteve o programa semanal “Petrópolis Cultural”, da TV Cidade Imperial, em Petrópolis. Aposentou-se pelo IPHAN, tendo sido sua última lotação no Museu Imperial. É membro da Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni, cadeira nº 31.

LIVROS DE POESIA

- "Confetes de Muitos Carnavais" - edição independente, 1982
- "Passagem dos Anos" - Edições Pirata, Recife, Pe, 1984
- “Aparições” – Poiésis, 2001
- “Vozes trazidas pelos ventos”, Poiésis, 2005.

LIVROS DE FICÇÃO

- “Os souvenirs da prostituta – A novela de Ipanema”, Catedral das Letras, 2006
- “Missas do galo” (conto), na Coletânea Osman Lins de Contos, volume I, Prefeitura do Recife/ Secretaria de Cultura/ Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2005
- “Pela internet” (Novelas de uma nova era), EntreLivros Editora, Brasília, 2006;
- “Contos de Natal” – da Coleção “Livro na rua” da Thesaurus Editora, Brasília, 2007;
- “Vozes novas para velhos ventos (Obras primas da literatura universal)”, contos, Thesaurus Editora, 2007.
(Em “link”): “A igreja invadida”, Freitas Bastos Editora, 2010, http://freitasbastos.lojatemporaria.com/a-igreja-invadida.html

TRADUÇÃO EM LIVRO, com estudo introdutório, de “Lendas” de Gustavo Adolfo Bécquer, Poiésis, 1997 (contos e poesia)

LIVROS SOBRE DIREITO

- "Você Conhece Direito Internacional Público ?" - Editora Rio
1ª edição - agosto de 1974; 2ª edição - fevereiro de 1978
- "Vocabulário Trabalhista" - Editora Rio, janeiro de 1976
- "Noções de Direito" (em parceria com Roberto Parreira) – Edições
Trabalhistas: 1ª edição – 1981; 2ª edição – 1984; 3ª edição – 1992

LIVRO SOBRE ARTE E POLÍTICA

- “Jorge Antunes, uma Trajetória de Arte e Política”, editora Sistrum Ltda, Brasília, janeiro de 2003.

PUBLICAÇÕES EM PERIÓDICOS

- NO BRASIL: Cerca de 300 publicações em diversos periódicos, com ARTIGOS, CRÔNICAS, CONTOS E POESIA, integrando o conselho editorial do jornal “Poiésis – Literatura, pensamento e arte” a partir de março de 1998.

- NA FRANÇA: poemas traduzidos para o francês por Jean Paul Mestas, publicados na revista JALONS, nºs 65 (de 1999) e 75 (de 2003), Nantes, França.

- NA ÁUSTRIA: 5 poemas traduzidos para o alemão por Friedrich Frosch, publicados na revista XICÖATL – Lateinamerikanisches Kulturmagasin, Oktober/Dezember 2003, nº 65, Salzburg, Áustria.

- NA ITÁLIA – a) poemas traduzidos para o italiano por Angelo Manitta: 1) o poema “Occhi” na revista “Il Convívio” – Trimestre di Poesia Arte e Cultura dell’Accademia Internazionale “Il Convívio”, Castiglione di Sicília (CT), Itália, nº 16, gennaio-marzo 2004; 2) o poema “Alla ricerca del Natale perduto” em livro publicado pela mesma Accademia “Il Convívio”, onde figuram os autores premiados em concursos por ela promovidos, 2004; b) na mesma revista de “a.1” de aprile-giugno 2004, o poema “Cappuccio”, traduzido por Angelo Di Mauro.

PRÊMIOS
- 1º lugar do “Concurso de Contos ANE”, da Associação Nacional de Escritores, de Brasília, no ano de 2006, com o livro “Obras primas da literatura universal (Vozes novas para velhos ventos)”;
- 1º lugar para poesia em português no Prêmio “Antonio Filoteo Omodei – Giulio Filoteo di Amadeo” de 2004, da Accademia Internazionale Il Convívio, da Itália;
- 2º lugar para estrangeiros no concurso “Natale – 2003; una poesia per il Natale”, da “Academia Internazionale Il Convívio”, da Itália;
- Menção honrosa do Concurso Nacional de Poesia “Helena Kolody” 2003, da Secretaria de Estado de Cultura do Paraná, com o poema “Sombra de amor”;
- Selecionado no Concurso Osman Lins de Contos da Fundação de Cultura Cidade do Recife para integrar a publicação do livro “Coletânea Osman Lins de Contos – 2005”, com o conto “Missas de Galo”;
- Menção honrosa no I Concurso Nacional de Poesia – Prêmio SEERJ (Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro) 2005, com o livro “Luz intermitente”.
- Prêmio Carauta de Souza de Literatura, ano 2005, concedido pela Academia Petropolitana de Letras, como distinção na Poesia e na Prosa;
- 1º lugar no “Concurso Internacionalizando o Novo Escritor” com a novela “Filosofias de Don Juan (Cosi)”, de Nova Pampulha, Vespasiano, Minas Gerais, 2007.
- Prêmio Maestro Guerra Peixe 2009, na categoria Literatura/Poesia, da Fundação de Cultura e Turismo da Prefeitura de Petrópolis.

OBRAS MUSICADAS pelos compositores (a maior parte com apresentações em vários concertos, e publicadas):

- Jorge Antunes (libreto da ópera “Olga”, em três atos; o “lied” “A Canção que Passa”; “O Som do Universo” e “Língua Portuguesa”, na “Cantata dos Dez Povos”);
- Odemar Brígido (libreto da ópera “A Noite de Iemanjá”);
- Ernani Aguiar (os ciclos de canções: "Cantos Natalinos", "Cantos Corpos", "Cantos da Noite", "Cantos do Entardecer", "Cantos da Manhã"; “Só”, peça de cena para soprano; "Cantilena", com versões para coro, canto e piano e canto e violão; “Madrugadas” coral no último movimento da “Sinfonia Petrópolis”; “Acalanto para o menino Jesus” e “Acalentando Jesus”, ambos para coro misto);
- Guilherme Bauer (os ciclos de canções : "Cantos Báquicos" e "Cantos Eróticos", e o libreto da ópera “Fronteira”, baseado no romance homônimo de Cornelio Penna) ;
- Ricardo Tacuchian ("O Caminhão", para coro infantil, e “Terra dos homens”, para barítono e clarone);
- Marco Aureh (“A flor referente”, canção)

ENCENAÇÕES TEATRAIS

- “Dança das Árvores”, encenada no auditório do Museu Imperial e no Palácio de Cristal (ambos em Petrópolis, RJ) em dezembro de 2001, com música e direção do autor, com um grupo de adolescentes da Comunidade Santa Clara (Petrópolis), produção da Associação Emaús Pró-Jovem e cenário e figurinos de Alexandre Rivero;
- Programada pela Prefeitura da Cidade de São Paulo, cinco récitas, dentro da temporada lírica oficial do seu Theatro Municipal, da ópera “Olga”, com libreto seu e música do maestro Jorge Antunes, em outubro de 2006, com Martha Herr, Fernando Portari, Luciano Botelho, Carlos Eduardo Marques, Homero Velho, Carolina Faria, Leonardo Neiva, Manuel Alvarez, Magda Painno, Sérgio Righini, Eduardo Góes, Sandro Bodilon, Paulo Menegon, Eucir de Souza, Orquestra Sinfônica Municipal e Coral Lírico, Maestro José Maria Florêncio e direção cênica e cenografia de William Pereira.

FORTUNA CRÍTICA

A – DOS LIVROS DE POESIA

1- Sobre o livro “Aparições” (Poiésis, 2001):
- “É uma coisa ousada. Misturar poesia e prosa. Desafiantemente. Desbordar dos limites. Você com o domínio perfeito da escrita, do verso, dos temas. Transformando até o tema do grilo num inventivo poema. / Marquei vários versos que me iam tocando. Depois, parei, porque a marcação estava se generalizando” – Affonso Romano de Sant’Anna, poeta e professor de Literatura, em carta ao autor.
- No Posfácio do livro: “A poesia de Gerson Valle torna-se notável por sua capacidade de extrair poesia de toda e qualquer circunstância. A isto soma-se o seu grande sentido rítmico e melódico do verso, o perfeito senso de valorização da palavra escrita e uma boa adequação de prosa e verso, muitas vezes dentro do mesmo poema e adaptando verso e prosa, de tal modo que se fazem indissolúveis. Gerson Valle é poeta de primeira água, ainda mal conhecido, infelizmente, do público em geral” – Fernando Py, poeta e crítico literário.
2 – Sobre o livro “Vozes trazidas pelos ventos” (Poiésis, 2005):
- “Regente de uma orquestra em que os instrumentos são formados por assuntos como a vida, a natureza, a relação do ser humano com o mundo concreto e o abstrato, a evocação do tempo passado, o amor e o espírito do prazer simbolizado no vinho, entre outros subtemas sugeridos, Gerson Valle reúne, em Vozes trazidas pelos ventos, uma pulsante mostra de sua poesia voltada para o sentido da existência e o resgate dos melhores momentos que justificam a passagem do homem sobre a Terra” – Reynaldo Valinho Alvarez, poeta, autor de Galope do tempo, A faca pelo fio, Lavradio e outros livros de poesia, ficção, ensaio e literatura infanto-juvenil, em “Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte”.
- “Por isso, temo o sucesso de seu livro. Não o êxito. Ele permanecerá como aquele vento que ninguém sabe de onde nasce e nem para onde vai, porque é o puro espírito da Poesia. E, para percebê-lo, há de se ter humildade e sensibilidade no coração. Você é nova grande área verde em nossa grande rua de asfalto” – Luís Augusto Cassas, poeta maranhense, em carta ao autor.
- “Domina com segurança o verso rimado e o livre, não se furtando, vez ou outra, a algum arrojado experimento e até ao poema em prosa. É o poeta vivendo em seu meio, ligado ao seu entorno, atento a tudo, integrado com o mundo e a natureza através da poesia.Versos feitos com sentimento e técnica, tornando este pequeno livro uma obra de arte” – Enéas Athanázio, escritor catarinense, em “Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte”, de dezembro de 2006.
- “Cada vez que leio ‘Enquanto houver Ouro Preto’, de Gerson Valle, me emociono e choro, tal a forma real, para mim, que o poema expressa aquela amada cidade, de que sou cidadão honorário desde novembro de 2005” – Ernani Aguiar, maestro e compositor.
3 – No Prefácio do livro “Dentro da mata densa” (2008) – “É esse um traço comum a toda a sua obra poemática, de modo que, do primeiro ao presente volume, e apesar da visível depuração e ascensão qualitativa, se consegue estremar uma identidade. Em suma, é poesia que tem uma cara e um caráter” – Anderson Braga Horta, poeta, tradutor e ensaísta.

B – DOS LIVROS DE PROSA

1 – Sobre o livro “Os souvenirs da prostituta – A novela de Ipanema” (Catedral das Letras, 2006):
- No Prefácio do livro: “...sempre tive tudo a ver com a Ipanema tão deliciosamente descrita por Gerson Valle. Poucos escreveriam melhor do que ele sobre esta Ipanema perdida no tempo, porém eterna” – Olga Savary, poeta com inúmeras publicações no Brasil e no exterior.
- “A ficção de Gerson Valle, que contém romance, novelas, contos, começa a aparecer em livro com uma “Novela de Ipanema”, onde usa do bairro de sua juventude para refletir admiravelmente sobre o tempo em que vivemos. Este, o sentido maior de sua obra, e que, por amor à Literatura se apresenta com a face do pós-modernismo que abarca todas as possibilidades de formação e informação que nos chegam – é conto, é romance, é crônica, é Poesia, é análise psicológica, sociológica, histórica... É o despontar de uma nova Literatura maior que pede os novos tempos. Com reflexão e ludicamente.” - Camilo Mota, poeta, membro honorífico da International Writers and Artists Association (IWA), em Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte, maio de 2006.
- “Com um trama que vai se desenvolvendo ao ritmo e harmonia de uma prosa elegante e diáfana, que se desencadeia com a mesma malemolência das ondas do mar e a carga psicológica e metafórica da realidade que traduz, o autor constrói um panorama sincero de uma época que representa um divisor de águas na história de Ipanema, do Rio, do Brasil, que tem na bossa-nova o seu cadinho” – Ronaldo Cagiano, escritor mineiro de Cataguases, que vive em Brasília desde 1979, em “Hoje em dia”, de 10 a 16/12/2006, Brasília, DF.
- “O grande personagem do livro, no entanto, é o próprio bairro. Ipanema que se cristalizou para sempre na memória do novelista e que ele soube reconstituir como crônica permeada de saudade, humor e senso crítico e exibe ao leitor com o mesmo prazer de quem expõe um retrato emoldurado.” – Enéas Athanázio, escritor catarinense, editor de “O jornal do Enéas” do Balneário Camboriú (12/08/2006).
- “Escritor experiente, Gerson Valle sabe como prender o leitor e cativá-lo. A leitura de seu texto torna-se agradável e estimulante, na medida em que avança para os estereótipos de uma sociedade decadente e ultrapassada.” - João Carlos Taveira, poeta e crítico, em “O Correio Brasiliense”, de 14/07/2006.
- “Autor premiadíssimo e radicado em Petrópolis, Gerson Valle imprime à sua obra um toque de romance histórico em doses equilibradas e com seu estilo único, ricamente forjado na poesia e no ensaio.” – Marcelo J. Fernandes, professor universitário, em “Petrópolis em cena”, maio de 2006.
- “... Não digo mais para não estragar a curiosidade de quem ainda não leu o livro. Mas não há dúvida de que a novela de Gerson Valle está muito bem escrita, num estilo fluente e de leitura agradável, prendendo a atenção até o final. Ponto para o autor, que vem se firmando como um de nossos melhores ficcionistas.” – Fernando Py, poeta e ensaísta no caderno “Tribuna Lazer” da “Tribuna de Petrópolis”, de 30/11/2007.

2 – Sobre o livro “Jorge Antunes – uma trajetória de arte e política” (Sistrum, Brasília, 2003):
- “Ao se propor a escrever uma espécie de biografia do compositor Jorge Antunes, Gerson Valle indiretamente estava disposto a produzir um verdadeiro ensaio sobre música....... E talvez seja a pessoa mais indicada para uma obra que transcende o mero trabalho bibliográfico, pois além de amigo de Jorge Antunes há mais de trinta anos, possui Valle sólido conhecimentos de música e teoria musical, tendo sido inclusive libretista de óperas....... Isto nos dá a medida do valor de Gerson Valle como poeta e músico, e também lhe confere uma autoridade musical irrecusável. // Essa autoridade vem logo expressa no capítulo inicial do volume, onde Valle expõe e analisa a correspondência entre arte e política” – Fernando Py, poeta e crítico literário na resenha “A música através de Jorge Antunes”, jornal Poiésis, Literatura, Pensamento &Arte, abril de 2003.
- “Além da vivência política em comum, Gerson Valle é um homem das artes: poeta e assessor jurídico da Funarte, é autor de dois libretos de óperas brasileiras (Olga, de Jorge Antunes, e A noite de Iemanjá, de Odemar Brígido), além de parceiro de outros compositores brasileiros, em textos de canções, coros e cantatas. Portanto, um intelectual “não músico”, mas perfeitamente inserido na música. Ele aproveitou sua experiência artística e política e seu convívio com os principais músicos do Rio de Janeiro para escrever uma verdadeira história do Brasil dos últimos 50 anos, tendo por eixo a interface entre a música e a militância política de Antunes. Trata-se de um livro interdisciplinar, superpondo música, história, crítica, cultura e política. O resultado não poderia ser melhor.” Ricardo Tacuchian, professor e compositor, in “Brasiliana – Revista quadrimestral da Academia Brasileira de Música”, nº 16, janeiro de 2004.

3 – Sobre o livro “Pela internet – Novelas de uma nova era” (EntreLivros, Brasília, 2006):
- “O autor é dos raros intelectuais que faz da sua vasta erudição matéria útil aos aprendizes como nós, caro leitor, e seu mais recente trabalho é uma amostra de como observar, apreender a realidade, o bem e o mal, e sobretudo transformá-la em arte e material de enriquecimento a leitores privilegiados entre os quais me incluo.” Luiz Horácio, crítico e romancista, jornal Posto Seis, primeira quinzena de março de 2007
- “O volume se compõe de quatro novelas. No texto inicial, “Pela Internet”, um sujeito viciado em navegações pelo computador adquire horror ao contato físico, e tem casos de amor virtuais. Em “Museu Mineiro”, num bom texto que se move em dois planos, um indivíduo narra suas lembranças de amor, ao mesmo tempo que, como arquivista, busca reduzir seus sentimentos a fichas de arquivo. “Montanhas e limites de nossas vaidades” leva mais a fundo os planos narrativos: o texto se compõe de três contos farsescos deixados por um frade ao morrer, os quais representam uma sátira à sociedade. Finalmente, “Senhorita Strindberg”, falando de uma cantora popular que morre numa praia no final dos anos 60, mostra, simbolicamente, como o Brasil, de certo modo, também morreu naquela época para se transformar neste país bem diverso que temos nos começos do século XXI. Convém atentar, com cuidado, para as mensagens subliminares que as novelas expõem.” Fernando Py, no jornal Tribuna de Petrópolis, 14/01/2007.
- “Pela Internet – novelas de uma nova era, de Gerson Valle, livro que atesta a grandeza da maturidade literária deste brilhante escritor contemporâneo. Impõe-se, a nosso ver – não pelo pouco que expusemos - que a obra-prima Pela Internet seja incluída nas antologias que reúnam as 50 melhores prosas curtas dos últimos cinqüenta anos e convidamos o leitor a degustá-la com o mesmo apuro formal e requinte de sua tessitura.” Marcelo Fernandes, professor e poeta, jornal “Poiésis – Literatura, Pensamento e Arte, fevereiro de 2007.
- “Gerson Valle, sem nenhum favor, é hoje um dos autores mais estimados e admirados por um círculo crescente de leitores – o que já é uma vitória. Mas ainda é pouco. Um escritor dessa lavra deveria estar sendo lido, há mais tempo, por leitores de norte a sul e de leste a oeste, neste imenso país de maravilhas e contradições.” João Carlos Taveira, poeta, no Prefácio do livro.

4 – Sobre o livro “Vozes novas para velhos ventos (Obras primas da literatura universal)”, 1º lugar do concurso da Associação Nacional de Escritores – ANE (2006), Thesaurus Editora, Brasília, 2007:
- “Na condição de integrante da comissão julgadora ........ quando ainda lia as primeiras histórias ...... Impressionaram-me a criatividade do autor, a beleza do texto, o profundo conhecimento dos mestres, o primor estilístico e outros elementos qualitativos. E levaram-me a prejulgar: não creio que haverá outro à altura de competir com este. ............ E os demais membros da comissão julgadora acabariam por chegar à mesma conclusão, havendo, portanto, unanimidade.” Joanyr de Oliveira, poeta, no prefácio do livro.
- “...E assim se encerra o livro de Gerson Valle, que por sua originalidade e desenvolvimento, é um dos melhores lançamentos deste ano.” Fernando Py, em resenha publicada no jornal “Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte”, de agosto de 2007.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

GERSON VALLE – Escrevo desde a infância. Assim, quando entrei para a faculdade (Direito) foi só para ter alguma coisa que me sustentar, pois me vi sempre como escritor, sem nunca, no entanto, pensar em receber remuneração por isto. Ao ler Fernando Pessoa na adolescência, me identifiquei muito com sua mensagem (e não cito aqui só o título do livro) na forma de passá-la sem se preocupar na sua transmissão enquanto vivo. Importante é se preocupar em deixar alguma colaboração ao mundo, naquilo que sempre senti como uma habilidade própria (a escrita), e não viver disto. A citação famosa feita pelo mesmo Pessoa de uma antigo adágio, “Navegar é preciso. Viver não é preciso” acredito que ilustra bem tal sentimento.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

GERSON VALLE – Na infância os livros me aguçavam a curiosidade, e um irmão jornalista e minha irmã pianista me presentearam com todo Monteiro Lobato e sempre mais outros autores para a infância. Comecei a escrever porque as histórias me começaram a vir à cabeça, e resolvi imitar o Lobato, passando-as para o papel. Isto com relação à prosa. Conheci a poesia meio atabalhoadamente, quando cursava a escola primária, e, como sempre me liguei à música (nesta época, inclusive, estudava piano), os sons das palavras foram formando melodias na minha cabeça. Ao passá-las para o papel descobri que escrevia poesia.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

GERSON VALLE – :
POESIA:
"Confetes de Muitos Carnavais", edição independente, Rio, RJ, 1982; "Passagem dos Anos", Edições Pirata, Recife, Pe, 1984; “Aparições”, editora Poiésis, Petrópolis, RJ, 2001; “Vozes trazidas pelos ventos”, Poiésis, 2005;

FICÇÃO:
“Os souvenirs da prostituta – A novela de Ipanema”, Catedral das Letras, Petrópolis, 2006; “Pela internet – Quatro novelas de uma nova era”, EntreLivros Editora, Brasília, 2006; “Vozes novas para velhos ventos (Obras-primas da literatura universal)”, contos, Thesaurus Editora Ltda, Brasília, 2007; “Contos de Natal”, da coleção “Livro da rua” (Série Escritores Brasileiros Contemporâneos) da Thesaurus Editora Ltda, Brasília, 2007.
(Em “link”): “A igreja invadida”, Freitas Bastos Editora, 2010, http://freitasbastos.lojatemporaria.com/a-igreja-invadida.html

TRADUÇÃO: “Lendas” de Gustavo Adolfo Bécquer, (contos e alguma poesia, com estudo introdutório de sua autoria) editora Poiésis, Petrópolis, RJ, 1997

DIREITO:
"Você Conhece Direito Internacional Público?" - Editora Rio, Rio, RJ: 1ª edição - agosto de 1974; 2ª edição - fevereiro de 1978; "Vocabulário Trabalhista" - Editora Rio, Rio, RJ, janeiro de 1976; "Noções de Direito" (em parceria com Roberto Parreira) - Edições Trabalhistas, Rio, RJ, 1ª edição – 1981; 2ª edição – 1984; 3ª edição – 1992

BIOGRAFIA:
“Jorge Antunes, uma Trajetória de Arte e Política”, editora Sistrum Ltda, Brasília, DF, janeiro de 2003.

OBRAS COLETIVAS:
(No Brasil e no exterior:) O poema premiado em 2º lugar como poeta estrangeiro no concurso Natale-2003 “Alla Ricerca del Natale Perduto” (tradução de Angelo Manitta), no livro da promotora do concurso “Oltre la siepe”, Accademia Internazionale Il Convívio, Castiglione di Sicília (CT), Itália, 2004; “Acalanto para o menino Jesus” (poema meu com música de Ernani Aguiar e com tradução para o inglês – “Carol for baby Jesus” – por Jeremy Jackman), no álbum “World carols for choirs”, Music Department, Oxford University Press, England, 2005; “Acalentando Jesus” (poema meu com música de Ernani Aguiar e com tradução para o inglês – “Sleep, little Saviour” – por Jeremy Jackman), no álbum “Wolrd Carols for Choirs ”, Music Department, Oxford University, England, 2006; “Sombra de amor” (poema), no livro de “Concursos Literários 2003”, 14ºConcurso Nacional de Poesia Helena Kolody, editado pela Secretaria de Estado de Cultura do Governo do Estado do Paraná, Curitiba, Paraná; “Missas do galo” (conto), na Coletânea Osman Lins de Contos, volume I, Prefeitura do Recife/ Secretaria de Cultura/ Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2005; “A Fala das melodias” (poema), em “Os dias do amor – um poema para cada dia do ano”, recolha, seleção e organização de Inês Ramos, prefácio de Manuel Bento Fialho, 436 páginas, editora Ministério dos Livros, Portugal, 2008; “Som das estrelas” (poema), na revista anual “Argila”, da Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni”, nº 12, dezembro de 2007; “Jardim Botânico” (poema, na revista anual “Argila”, da Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni, nº 13, dezembro de 2008; Os poemas “Capuchon” e “Musées du monde”, na revista de poesia JALONS, nº 65, 4ème trimestre 1999, Nantes, França; O poema “Capuche (on)”, na revista JALONS, nº 75, 3ème trimestre, 2003; Os poemas “Spiegelbild” (“Reflexo”), “Aufbewahrtes” (“Guardados”), “Metaphysischer Schmerz” (“Dor Metafísica”), “Ludwig van Beethoven” e “Gustav”, com traduções para o alemão de Friedrich Frosch, na revista XICÖATL – LATEINAMERIKANISCHES KULTURMAGAZIN – ZIEHENDER STERN, Oktober/Dezember, 2003, 12. Jahrgang, Numeer 65, Salzburg, Áustria; O poema “Occhi” (Olhos), tradução de Angelo Manitta, na revista “Il Convívio” – Trimestrale di Poesia Arte e Cultura dell’Accademia Internazionale “Il Convívio”, Castiglione di Sicília (CT), Itália, nº 16, gennaio-marzo 2004; O poema Capuz, no original, e em tradução (Cappuccio) feita por Angelo Di Mauro, na revista “Il Convívio” – Trimestrale di Poesia Arte e Cultura dell’ Accademia Internazionale “Il Convívio”, Castiglione di Sicília (CT), Itália, aprile-giugno 2004.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

GERSON VALLE – Acredito que, antes de mais nada o hábito da leitura, que, quanto mais cedo for adquirido mais facilmente desenvolve o amor pela Literatura. Depois, talvez, o convívio inteligente com pessoas que demonstrem o interesse pelo desenvolvimento do raciocínio e criatividade nas conversações.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

GERSON VALLE – Muitos. Cito os mais importantes na minha formação: Shakespeare, Cervantes, Balzac, Dostoievski, Tolstoi, Tchekov, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Camões, García Lorca, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Thomas Mann, Hermann Hesse, Verlaine, Guimarães Rosa, García Marques, Gonçalves Dias, Nelson Rodrigues, e, meu Deus!, não dá para continuar citando. Tem tanta gente!

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores ?

GERSON VALLE – Leiam, leiam sempre mais do que escrevam. E procurem não escrever se não for por absoluta necessidade interna. Fazer Literatura é uma necessidade, e se faz por amor. Sim, é como “fazer amor”. Não adianta aumentar o número de páginas escritas no mundo desejando cumprir uma vaidade, ser conhecido para outros fins, lucrar um dinheirinho. Pode até resolver, para muitos, essas questões. Mas, o campo deles é outro, não Literatura. Acho também que fazer Literatura não se ensina. Resulta de uma necessidade interior, e os caminhos são encontrados individualmente. Porém nunca, de forma verdadeira, se não houver primeiramente o amor pela leitura. Leiam, leiam. Depois, se houver realmente alguma predisposição interna a que não se pode fugir, que pressiona a ponto de quase machucar, então comecem a escrever. E sem sentir orgulho bobo, achando-se privilegiado por ser escritor. Uns são arquitetos, outros pedreiros, alguns escritores ou médicos ou enfermeiros... Se cada um achar que deve ser rei por ter um papel social, a sociedade vai se tornar num caos de barrigas coroadas, e cada barrigudo num napoleão, daquele tipo que havia nos hospícios antigos. Só escrevam, portanto, se não for para ser internado. Senão, melhor é procurar um analista.

POESIAS

CORO GREGO

Quando partiu
as vozes ainda tentaram atrapalhar seus sentimentos,
indefinidas, distantes,
mas fortes no todo da dúvida dos homens:

- Não parta que tudo que importa
já está decidido,
a porta da vida não tem outro lado,
o sentido de tudo permanece guardado.

Ainda por cima a madrugada indistinta
tolhia-lhe as árvores
e pássaros incógnitos piavam tristes.
Ao longe as badaladas chegavam
esmaecidas, perdidas de significado.
Já não se podia dizer que os sinos dobravam edificantes, claros.
Tornaram-se toscos ecos da madrugada
caidos perdidos no espaço do além.

- Não parta que o parto da vida
é aqui que se dá.
Para lá não há nada.
Somente a escuridão do dia ainda não nascido.
Somente o perigo de alguns bichos famintos.
Somente o precipício doido das encostas sem dono.

Era preciso fingir não ouvir o tom sensato
dos vizinhos solícitos ou invejosos,
dos párias acostumados aos usos repetidos,
dos pobres carentes de opiniões,
dos ricos acastelados nas próprias provisões.
Era preciso romper a grande ternura protetora
dos hábitos e paixões já conquistadas,
e se voltar para o desconhecido promissor
de novas vantagens incalculáveis
a romper com o sol que tudo invade
lá fora da casa, lá fora do cerco,
lá fora dos porões dos mantimentos previsíveis.

- Não parta que o mundo
encontrado e guardado nos vícios e outros riscos
está com raiva e agride
qualquer infidelidade!

Mas, aí era tarde.
As vozes do coro já estavam distantes,
do outro lado dos passos...

JARDIM BOTÂNICO

Ao passar o portal deste jardim,
Inverso ao verso sobre o inferno, em Dante,
Você também está passando adiante
De tudo que há no mundo de ruim.

A todo canto encontro um serafim
No motivo emotivo e aconchegante
Do celeste e seleto doce instante
Por vias onde o verde vai sem fim.

No ar as árvores quedas na oração,
Cumprindo as alamedas rituais
Revelam o jardim ter coração.

Os pássaros por cima desta paz
Cantam sobre o silêncio uma canção.
E nos recantos, beijam-se casais.

CAPUZ

Às vezes,
passeando no tempo
de meus jardins anacrônicos,
avisto uma gata miando
no mel da voz e postura.
Seu passo algodoado
parece coberto por capa e capuz,
protegida da violência
de nossas cidades densas.
Seus olhos observam perigos externos,
mas quieta e meiga
se deixa
roçar entre flores fora do tempo,
para onde eu também me transponho,
sem que o resto do mundo apareça...

FALA DAS MELODIAS

Chegávamos ao ponto
de falarmos por melodias,
enquanto nossos olhares
davam-se as mãos, percorrendo
um possível horizonte de encontros.
Que palavras haveriam de se formar
na dimensão pura de nosso olhar?
Escapa a emoção dos momentos,
forçando-nos a procurá-los
por cima dos armários,
pelas penas dos pássaros que passam,
ou condensá-los na forma de poesia,
que não devia estar aqui,
ser escrita ou pensada,
por ser poesia em si,
e mais nada.

Mas, não querendo esquecer a melodia,
escrevo e reescrevo a mesma poesia,
com medo que ela caia e se esvaia
como as folhas no outono,
e assim a retenho guardada
para os possíveis tempos mais duros
imprevisíveis do futuro.

CANTIGA ANTIGA

Caminha, caminha, sozinha entre as vinhas
a moça que eu quero e não sei se ela é minha.
Mas minha é a vinha formada de dia
com cachos de suco maduro dos sonhos

caídos da noite de orvalhos, serenos,
em gotas de gostos tão gratos à boca.
Caminha, caminha, vermelha alegria
do sonho mais pleno tirado das vinhas...

E ainda caminha, caminha, sozinha,
a moça que eu quero e não sei se ela é minha.
Mas sempre me vem como sempre me vinha
das vinhas o vinho fazer companhia.

A minha mocinha sozinha entre as vinhas
se torna velhinha e ainda sozinha;
a vida envelhece a mulher, de verdade,
e o vinho prossegue em barris sem saudade.

Enquanto caminha sozinha entre as vinhas
a imagem da moça das vias do mundo,
sem nunca saber se, de fato, ela é minha,
recebo dos vinhos o dom da alegria!