
Adriano Alves é pernambucano, doutor em Literatura Brasileira e teve seu primeiro livro (Poemas de memória: navegação de auto-mar) publicado pela Universidade federal do Rio de Janeiro em dezembro de 2002. Em 2009, publicou Sol a pino: o dizer de coisas. Seus ensaios “A celebração da poesia” e “Da liberdade possível” obtiveram respectivamente menção honrosa especial na Faculdade de Letras da UFRJ e menção honrosa no concurso nacional da FENABB sobre a obra de Jorge Amado. Seu livro Poemas de memória também obteve menção honrosa em concurso promovido pela Faculdade de Letras da UFRJ. E Sol a pino foi indicado em 2010 para compor o acervo de novas Bibliotecas da Fundação Biblioteca Nacional. Seu mais recente trabalho, Musa Absurda: uma quase viagem, está para ser publicado.
ENTREVISTA
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
ADRIANO ALVES - Sou professor de Literatura Brasileira e revisor de textos.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?
ADRIANO ALVES - Desde pequeno gostava muito de ir à Biblioteca do colégio e me deliciava lendo Monteiro Lobato e As Mil e uma noites. Em seguida, percebi que gostava de transformar minhas sensações/reflexões em palavras, ou melhor, as palavras me abriam novas sensações/reflexões. Por isso, comecei a escrever.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?
ADRIANO ALVES - Tenho dois livros de poesias publicados (Poemas de memória: navegação de auto-mar e Sol a pino: o dizer de coisas) e um terceiro no prelo, que deve sair em Portugal primeiro (Musa Absurda: uma quase viagem)
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?
ADRIANO ALVES - Essa é uma pergunta difícil.Mas tudo começa a partir de uma sensação ou do som de uma palavra. E a manhã solar me motiva a escrever. Por isso, não gosto de marcar compromissos pela manhã.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?
ADRIANO ALVES - São tantos, mas sempre gostei de Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Cabral, Euclides da Cunha, Manuel Bandeira, Drummond, Mario de Andrade, Camões, Borges, Dostoievski, Ítalo Calvino, só para citar alguns.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
ADRIANO ALVES - Leiam bastante e procurem conciliar técnica com a criatividade. Uma coisa não exclui a outra. E lembrem sempre que poesia é uma forma de ver/conhecer o mundo.
POESIAS
Contenção
o espaço
que me cabe
no poema
é mínimo
como é
mínima
a terra
que me cabe
a mim
no findo
não que
em si
o corpo
seja
franzino
não que
o dizer
seja
para não ser
dito
mas por
o mínimo
conter
o sumo do
sentido
por o
mínimo
conter
a explosão
do princípio
celebrar
a vida
no mínimo
não pelo fácil
em suma
mas pelo
que guarda
o contido
Auto-mar
A minha navegação
não é de água salgada, não.
É de água da cor de barro,
de lembranças a boiar.
Coisa de memória feita
(rio a correr noutro rio),
nele se perde a rasura
mesmo no palmo a nadar.
Para saber dessas águas,
é preciso olhar as margens
e o que nelas mais não há:
bichos, casa de menino,
qualquer coisa do lugar.
O navegar principia
nas ausências do lembrar.
Nessas memórias desfeitas
que começo a rascunhar.
De navio não preciso
(seria tolo pensar).
O navegar aqui é rito:
navegação de auto-mar
(Ambos de Poemas de memória: navegação de auto-mar)
Epifania
Raras vezes me pensei no papel,
vestido a rigor, todo em branco e preto.
Na sisudez de paletó e de anel,
suavam dedos, mãos, o corpo inteiro.
Quando me vi, por fim, vertido em livro,
percebi que havia bem mais que espelho.
Todo ele (ou eu?) estava repartido
em sons, em letras pretas de concerto.
Senhor de várias coisas minerais,
mesmo não tendo da lira de Orfeu,
vislumbrei fatos imemoriais.
Simples como o riso que alguém me deu,
compreendi o meu próprio desalinho
pra suportar o peso do moinho.
Delírio
Certa noite, triste noite, eu dormia
e, em frente a mim, nas cadeiras sentados,
num sonho denso como uma liturgia,
meus amigos riam, todos sem dentes.
E, pretensamente, a morte eu regia.
Por um momento, gelei, vi ali minha
cadeira vazia. Seria eu sim
o próximo a perder todos os dentes?
Certamente que chegou a tua hora,
respondeu-me o eco na sala fria.
E o delírio se transformou num quadro,
cujo autor sem rosto também sorria.
Parece que faltava meu retrato
nessa moldura de fotografia.
Quis falar, mas a voz emudecia.
Era um silêncio de morte no quarto,
com o suor a molhar meu destino,
quando duas velhas mulheres cegas,
sem roupas me despertaram do sonho
com os repiques de dois grandes sinos.
(Ambos do livro Sol a pino: o dizer de coisas)
CHEIRO DE MAR
Em teu mar, minhas palavras navegam.
Navegam minhas mãos pelo teu corpo,
em leito feito um grande labirinto,
no qual se escondem mistério e desejos.
E o tempo passa por ele em silêncio,
suave como na flor seus espinhos;
intenso como o ir e vir das ondas.
Teu cheiro de mar me aguça os sentidos.
Pro não esquecimento desse tempo,
escrevo tudo feito de memória.
Teus olhos me velam na densa noite.
E não tenho nenhum medo do escuro.
As minhas mãos te adormecem na cama,
reacendem teus cantos pelo meu toque.
O corpo transige o tempo em delírio,
refaz no gozo o momento primevo.
Os gestos falam pelo corpo adentro,
palavras que tomam novos sentidos.
Em teu corpo meu corpo se navega:
os náufragos em busca do infinito.
(inédita do próximo livro Musa Absurda: uma quase viagem)
Um comentário:
Lindos, seus poemas, sua poesia. Sensibilidade à flor da pele. Continue assim. Como professor, você deve ser um referencial para seus alunos e grande incentivo, porque une teoria à prática poética. Parabéns e sucesso!
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