segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

BADU - ENTREVISTA Nº 377

PEQUENA BIOGRAFIA
Badu, um novo colaborador Lítero Cultural tão bem apresentado pela amiga e escritora NEUZA ROCHA.

Badu é portador de necessidade especial, com a doença artrite reumatóide juvenil, que lhe acompanha desde criança.

Agora com a doença, já em estágio avançado, está limitado com poucos movimentos em cadeira de rodas.

Nasceu e vive em Água Santa RS onde retrata em suas poesias uma realidade de outrora, medos e esperança e um pensamento atual de aceitação e possibilidades.

Participou de três antologias a convite e presente de amigos virtuais.
Em janeiro de 2009 lançou seu primeiro livro “O voo do menino anjo”, em 2011“Vitrais da inocência”.
Badu um eterno menino sonhador, de infância pobre e família grande, escrevendo o real e imaginário que todo menino almeja e vive. Um homem herdeiro de caráter, recordando lutas, vitórias e decepções, espelhando na face ainda jovem seu maior desejo... LIBERDADE.


ENTREVISTA
Também artista plástico.
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

BADU - Gosto de todo tipo de arte, pintura, escultura, mas estou impossibilitado pela pouca mobilidade de meu corpo. Minha inclusão social se fez de um modo diferente, nessa impossibilidade de estar junto às pessoas trouxe elas para junto de mim, meu quarto meu mundo, onde faço minha parte ajudando muitos meninos e meninas sendo professor, psicólogo, pai e principalmente amigo.

Trabalho gratificante onde pude acompanhar várias gerações em seus problemas, indagações, anseios, sonhos, conflito pais e filhos, fase importante da adolescência, dando a cada um seu valor, mostrando possibilidade para se formarem homens de caráter...

Chego também até as pessoas com tele mensagens que também expressam meus sentimentos e levam o carinho e abraço esse que os meus braços não podem ofertar. Trabalho esse que não visa lucros, mas de grande valor para mim.

Na poesia e escritos é onde posso chegar mais longe com meus sentimentos e ideologias, nada imperativo somente minha vivência, caminhos que percorri de encontro ao meu equilíbrio.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?

BADU - Meu interesse começou por essa minha busca e na falta de liberdade do corpo, minhas palavras teceram um céu de possibilidades.

Escrevo minha autobiografia, passagens reais e o fantasioso de meus anseios, mudas palavras, silencioso pedido do coração.

Para um amigo imaginário, por anjos e meninos, uma oração para Deus.

Escrevo, pois posso buscar no passado liberdade, agradecer o presente, moldar vida amanhã.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?

BADU - Participei de três antologias, em 2009, escrevi meu primeiro livro “O vôo do menino anjo” e em 2011 “Vitrais da inocência”.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaze(es) de produzir poesias?

BADU - Descrevo o meu éden, o cenário que vivi e outro mundo que criei. O Deus que se mostra presente em atos, sem uma face definida ou autoritária, os anjos imaginários, a pureza dos meninos com toda liberdade que busco. A simplicidade que se faz vida, a lição diária, o despertar e o equilíbrio. Um mundo onde o imperativo é o amor e tudo acontece na transparência da alma.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

BADU - Gosto da maneira como José mauro de Vasconcelos escreve, cenários, personagens e da maneira como podemos interagir.

Li e tenho todos os livros desse autor, sendo que o primeiro livro que li dele “Rua descalça” ganhei de minha professora no último ano que pude estudar, já em cadeira de rodas.

A obra máxima da literatura para mim é “O pequeno príncipe” de Saint-Exupery, acredito eu nele eu tenha reforçado minha maneira de pensar em relação à amizade e mesmo simplicidade, inocência. Um livro rico em detalhes, reflexões e temas.
Outros: Carlos Drummond de Andrade, Esdras do Nascimento.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

BADU - Diria que em qualquer atividade, seja mesmo pessoal, o importante é ter uma visão ou mesmo um ponto definido que queremos alcançar. A maior grandeza se faz no contentamento dessa sua busca, a proporção é você que determina.

A maior vitória está em você não desistir de seus objetivos de seus sonhos dentro de seus direitos e deveres, de regras impostas e necessárias. Acredito em possibilidades e na força que temos em nós.


POESIAS

MÃE! APAGUE A LUZ.

Badu

Mãe! Apague a luz, encoste a porta...
Não sinto medo, tampouco vou me esconder.
Recolha as estrelas, nesta noite serena meu olhar aquietou luar.
Guarde na estante os livros com
histórias de era uma vez, e nessa magia fazemos de conta que eu já cresci.
Espie embaixo da cama, tem monstrinho só esperando mamãe falar boa noite para vir me assustar.
Feche as cortinas, e apague o sol,
não me olhe triste assim, eu quis enganar uma manhã, que traiçoeira de qualquer maneira quer me ver sorrir.
Feche a gaveta, aprisione soldadinhos de chumbo,
aprendi que nessa brincadeira de adulto menino pode se machucar.
Suavize o impacto do bater da porta
e a rispidez da palavra dor , cante para mim e talvez encontre a bola de meia, pano velho preenchido de alegrias onde eu jogava no quintal.
Não me leve a mal, esse silêncio não me entristece parece uma prece, suave ladainha lembranças minhas.
E certa vez eu deixei algum segredo em algum lugar, acho que foi um beijo, um brinquedo ou um olhar.
Nem lembro onde acontecia, ou foi janeiro ou em uma manhã tão fria de setembro.
Respingavam gotas de garoa, anjo chorando em nuvem escura, luz tão pura que coloria em arco-íris.
Acho que este é meu quarto, mas agora espere um pouco, alguém me chamou, penso ser você.
Esqueça tudo e fica aqui!
Está tão frio e eu sou criança, estou com medo
nesse momento!
Mãe apague a luz, encoste a porta...


MÃOS DE DEUS

Badu

Era assim um vasilhame em desuso, na composição da mesa semi nua,
vestida miserada de uma toalha esfarrapada, maltratada pelo uso.
Uma flor nativa, coroava-se rainha absoluta e mesmo ferida trazia vida
banhando-se no lume das frestas de tábuas ralas da parede da sala.
Um perfume tragado pela brisa,exalando outra liberdade, morosidade do dia apresentava a jovialidade da primavera.
As horas se embalam sonolentas, tarde lenta na hipnose de um prazer vital.
No tímido cantar de um pássaro saudando-me,saltitando em fina ramagem de arbusto.
Desperto e busco, movimento limitado para desmontar a triste face,
no enlace do silêncio.
Em sonho alado ,projeto-me rumo aos campos,
encantos em éden da paz que me ativa,
Espere por mim...Inquieto quero fugir!
Confessou-me certa vez um coração, que se faz infinita beleza
quando os lábios carregam um sorriso.
E anjos existem,pode me afirmar!
Colorem flores, cantam canções de ninar para aliviar a dor.
Vou buscar sensibilidade, comungar bons ideais.
Alma florida na eternidade da imaginação.
O enxugar do pranto no afago das mãos de Deus!


ENCONTRO COM DEUS

Badu

Pecaria se não pudesse carregar comigo a ingenuidade de outrora.
Choraria o pecado se ele não tivesse perdão e deixaria de existir em vida se o sorriso se apagasse da face.
Em meio a dúvidas e fantasias uma oração onde me encontro em DEUS.
Estou impregnado da maldade que não desprende sugando
o pouco de bem que ainda resiste.
Estou triste atrelado nas artimanhas pulsantes
de passageira fase da insegurança.
Sou criança agraciada por um sorriso arteiro que mensageiro anjo libertou.
Contou um pouco do céu, das nuvens macias e da morada de Deus.
Por Deus aonde me trazes fantasia?
A lágrima de um só dia apagou o sol de tantos verões!
Foi assim... Poderia contar o que machuca o coração, mas seriam mágoas e
eu prometi a mim ou não lembro a quem que eu viveria sem elas.
Foi tão bela primavera de setenta e oito ou mais adiante talvez,
era uma vez a história de um menino cantante sorridente a correr...
Correr aonde os pés não levam mais, na meiguice da face na frase
inventada de perdão pelo medo de pecar.
Vou voar porque ainda não anoiteceu e serei eu o escolhido a recolher
tantas estrelas que não poderão ser contadas
nos poucos dedos das duas mãos.
Não perturbe meu sono bicho-papão com sua cara feia
nem mal me queira que eu só quero ser feliz.
Eu fiz um amigo imaginário e deixei recados em pétalas
que o vento espalhou, pedindo paz e novas asas
para chegar aonde o mistério faz morada.
Não é por nada não, guarde na eternidade a lágrima que cristalizada está,
mas mostre novo brilho para os olhos visarem esperança.
Hoje sou o menino de asas, pés descalços pisando em nuvens de algodão
com resto do sorriso no rosto outro tanto de ilusão.
Uma oração um pedido de perdão pelas tolices que guardo em mim e
pelas fantasias de meu encontro com Deus.


PROMESSA DE ETERNIDADE

Badu

início de tarde ensolarada de primavera, aquecendo o corpo e o coração depois de uma noite e manhã fria.
Em meu éden, primavera exalando emoções, atiçando liberdade e vida.
Água Santa 29 de setembro 2011
Amanheço agraciado em posse de um riso solto,
desperto aquecido nos braços da felicidade
em um sol de dezembro esquecido no tempo.
Eu vivo em meu éden correndo com os pés descalços,
voando com meus anjos imaginários direcionando o céu.
Envolto de florido campo um prolongado dia
até a escuridão da noite chegue para assustar ao apagar as estrelas.
Visto me com vestes brancas a nudez pura como o corpo adormecido de desejos,
os lábios balbuciam segredos sopram beijos que o vento irá carregar.
Sóbrio vejo brilho em nuvens escuras até que mente beire a loucura,
na procura de um motivo qualquer para desafiar o meu próprio eu.
De Deus eu tenho a compreensão a falha redimida
para a vida que negou juntar as mãos e entrelaçar os dedos para agradecer.
Fez doer desencanto e em prantos menino aprendeu oração.
Coração partido com a ilusão das folhas esvaindo em suas cores a beleza da estação.
Assim como as sementes guardam histórias na memória de pequeno sonhador
ou senhor de seus anseios.
Posso crer na lágrima do riso e da dor para santificar
uma efêmera e contraditória
promessa da eternidade.


ANJOS E MENINOS

BADU

Já meia manhã do primeiro dia de outubro.
A chuva continua mansamente já vem de horas quando a tempestade acompanhou a madrugada.
Espreguiço-me acomodado envolto de um cobertor que me aquece, faço breve prece enquanto espero minha mãe trazer meu café da manhã.
Assim se faz paz em meu coração, éden retratado na magia por anjos e meninos.
Em meu quarto 01 de outubro de 2011
Ao confidente silêncio entrego um tanto de segredos e o medo maior de perder a fé.
Com os pés marcados a falta dos passos arquitetando ao corpo novos movimentos,
lábios argumentando em baixas palavras o valor das asas para chegar ao céu.
Deito a cabeça em atraentes paisagens de ilusão,
estação luxuosa instiga no entorpecer de perfumes que elevam as cores das fantasias.
Um dia imperfeito para perfeito imperar.
Já se perde mais um mês, talvez março onde me engano com um pouco nascido do nada.
Por mim eu trocaria a promessa da eternidade pelo tempo inacabado nos braços da liberdade
que me apresentou lúcidos momentos de ativa sedução.
Tão formosa despertou a rosa, orgulhosa feriu-se em seus espinhos
no desprezo da essência de outras flores lutando para desabrochar.
Vou chorar a incompreensão até meu coração aceitar um brasido beijo da falsidade.
Na acomodação sentirei tua presença porque já deixarei de existir e assim a saudade não doerá mais.
Aqui jazem enganos, tolos sonhos de um dia só.
Ainda hoje verás um homem contando estrelas buscando a mais bela para pendurar.
No contraditório do real e o sonho, nos lábios preces de esperança,
destituídas asas do destino furta liberdade de anjos e meninos

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