FOTO : Douglas DiógenesSegundo filho de Ailo Xavier Rangel e Luzinete Lopes Rangel, eu, José Danilo Lopes Rangel, nasci no dia 17 de agosto de 1984, em Itaitinga, interior do Ceará, onde pude usufruir por nove anos aproveitando o mato e chão interioranos. Depois, em 1993, eu e minha família viemos para Porto Velho, onde estamos instalamos atualmente. Depois de já ter largado a escola e ter passado uns anos andando de cross e frequentando bebedeiras na praça do half, festa de rock e lugares equivalentes, hoje eu sou servidor público e estudante de psicologia.
ENTREVISTA
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
DANILO RANGEL - Na verdade, escrever é que é minha outra atividade, a atividade através da qual me realizo enquanto pensador, enquanto amante das artes, enquanto homem. Eu trabalho e estudo, o que me leva boa parte do tempo que tenho disponível, no resto dele tento me expressar como posso e aceito os desafios que surgem. Já fiz até vídeos, dois na verdade. Atualmente, junto com amigos, produzo uma revista digital, a EXPRESSõES! e também eventos relacionados à poesia. Bem, desde que se entenda por evento relacionado à poesia levar uma caixa de som e uns poetas para a praça ou para o parque da cidade para declamar suas produções.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?
DANILO RANGEL - Eu aprendi a ler sozinho e depois daí, não parei mais. Escrever também, depois de ver o que grandes autores conseguiam fazer em seus textos, era fatal um dia eu querer fazê-los de irmãos de ofício. Li, li li e li mais ainda para aprender a escrever. Foi assim também com a poesia - aprendi lendo. Eu não gostava muito, mas um dia, por conta das circunstâncias certas, decidi que iria aprender a escrever um soneto, li e reli o texto de um livro do Camões até ser capaz de escrever um soneto. Escrever, eu também escrevo desde cedo, com exceção da poesia, que é algo mais recente.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?
DANILO RANGEL - Nenhum.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?
DANILO RANGEL - Eu já escrevi muito dependendo de “inspiração”, daquele momento quando a vontade se associa à possibilidade, hoje é mais uma questão de objetivo, não existe algo que me inspire, defino o que, como e para que escrever, o resto acontece, às vezes facilmente, às vezes, nem tanto. Mas acontece.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?
DANILO RANGEL - Especialmente, Nietzsche.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
DANILO RANGEL - Eu mesmo sou um novo poeta, mas para os mais novos que eu, o que posso dizer é - prepare-se para as frustrações, para muito tempo diante do poema inacabado, para a sensação de nunca estar bom o suficiente. Não se deixe seduzir pelos comentários como “tá lindo”, “ai, que profundo!”, ou qualquer outro do gênero, pois eles nada dizem, preste mais atenção em quem diz: “o tema foi bem elaborado, e as imagens estão coerentes com a proposta metafórica.”, e mesmo então, não se deixe intimidar por esses comentários, muitas vezes eles são apenas verborragia pedante. No mais, busque dominar o seu ofício. Um poeta, antes de tudo, dever ser um pensador.
POESIAS
FOTO : EXPRESSõES_05Sobre Atos e Omissões
Ao não subir, evita-se a queda,
Mas, também, as alturas.
Ao não confiar, evita-se o desengano,
Mas, também, a amizade, o amor.
Ao não sonhar, evita-se a desilusão,
Mas o que é uma vida sem sonhos?
Nada é tão certo ou consistente na vida
Pra que eu possa dizer “vai em frente!”,
Ou pedir que faça, ou que não faça.
O experimento nem sempre
Traz algo de bom, trazendo dor e tristeza,
Em vezes não muito raras.
Indago, no entanto, se não é preferível
Responder pelas consequências do ato
Que por escolher a omissão.
Os grandes livros
Eles querem te mostrar o mundo
que há depois do que podes alcançar
com os teus sentidos e os teus sensos,
mas se tu te esforças para te manteres
na redoma em que tuas vivências te puseram,
não há palavra capaz de te mover daí.
Eles querem te mostrar a realidade
de outras realidades: possibilidades!
coisas que se escondem atrás das certezas,
e das premissas e dos consensos,
mas se tu não indagas, se tu não inquires,
não podes experimentar nem as outras facetas
do pensamento, nem outros pensamentos.
Eles querem te libertar de tuas amarras,
querem te ensinar a desfazer nós,
mas se tu só podes ficar de pé
quando sustentado por cordões e caminhar
somente segundo movimentos que não teus,
a liberdade te levaria à inércia.
Eu sei que não parece,
eles ficam quietos nas instantes,
em silêncio, imóveis, antipáticos,
mas isso é porque eles sabem
que só podem dar o que podem dar
para quem decide receber.
A estes sim, os grandes livros se abrem.
Uma lição de Manufatura
Se teu anseio é pela liberdade, nega
Todo pequeno ou grande agrupamento
Que à condição de parte te relega
E escolhe não ser um mero fragmento.
Destaca-te do meio dos rebanhos,
Das filas dos pacatos e tacanhos.
Então, apronta-te contra ti mesmo,
Pois a face que ostentas como tua
É criação de outros, de gestos quase a esmo,
E cada um que nela se insinua
Não te deixa ir a nenhum lugar
Senão conduzindo sempre o teu andar.
Esquece quem tu és, pois nesse instante,
Dessa ilusão nem mesmo o menor traço,
Por tua própria palma vacilante,
Lançaste, nem foi teu qualquer teu passo.
Enfim, do ser suposto teu por crença,
Não há nada, nada que te pertença.
Empunha a marra, simples artefato,
Ataca as tuas dimensões de cópia
E ao te veres, depois do grande ato,
Nada além de fragmentação inópia,
Ainda sobre os últimos pedaços
Depõe a fúria toda dos teus braços.
Busca a desolação de seres pó,
A plena incerteza, o pleno desencanto,
Pois conjugados num composto só,
Tua poeira e a água de teu pranto
É todo o necessário material
Ao mais alto trabalho artesanal.
Faze então de teu superior recreio
Sujar as mãos no umedecido barro
E lhe dar formas pelo manuseio,
Moldando o teu sublime e teu bizarro.
E quando fores de obra a escultor,
Passarás de criatura, a criador.
Conclamação
Irmãos e irmãs,
A vós que atravessastes a ponte e o muro,
E espiastes o fundo do espelho,
A vós que tendes olhos singularíssimos,
E vedes o que mais ninguém vê,
Eu vos invoco ao movimento.
Ainda há muito das gentes em vós,
Contaminando-vos.
Não vedes? Não credes?
Acaso não é das mil bocas da multidão
Que saem as infâmias sobre o mundo
Por vós conquistado?
Que amaldiçoam a vossa inteligência,
As vossas dúvida e independência
O vosso anseio por liberdade
E por tudo o que tem substância?
Não são os mil olhos desta besta imensurável
Que se espicham desconfiados e antipáticos
A vós e vossa lucidez?
Vós, meus irmãos e irmãs,
Que ainda repetis o que ouvistes dizer
Sobre ser livre,
Eu vos conclamo:
Mais uma vez,
Lançai-vos a Aventura!!!
Assim como o cotidiano nunca vos foi suficiente,
Assim como as razões de todos nunca vos satisfez,
Não deixais ser o bastante para vós
O pensamento geral a respeito
Do que amais e por que tanto lutastes.
Não fazeis eco, meus irmãos e irmãs,
Às bobagens que declaram os estúpidos e temerosos
Sobre tudo aquilo o que eles não conhecem.
É hora, irmãos e irmãs,
De deixardes os últimos maus hábitos para trás,
É hora de dar o passo seguinte,
De reconhecer o raríssimo bem
Que por vossos esforços tendes em mãos.
É hora de retirardes os derradeiros pesos
De sobre os vossos ombros,
É hora de voar mais longe,
É hora de saltardes sobre vós mesmos.
Da carne à pedra, da pedra à carne
Todos os dias a baldeação de sempre,
A perturbação de sempre dos sentidos,
Pessoas que falam ao mesmo tempo,
Pessoas que andam ao mesmo tempo,
Pessoas que pedem, que cobram,
Que perdem, que acham, que mandam,
Que obedecem, que desobedecem,
Que fazem, que desfazem,
Que voltam a fazer e a desfazer,
Pessoas que correm, correm, correm,
Como fossem a algum lugar.
Movimento, gesto, gestos,
E embora pareça o contrário,
No fundo, tudo ao derredor é nada,
A mesma massa disforme,
Sem cor que se defina,
Sem som que se reconheça,
A mesma gosma insossa,
Mingau de vento.
O cotidiano, a obviedade,
São agentes do embrutecimento.
As conversas de todos os dias,
Os movimentos e as luzes e a fumaça,
As preocupações, as tensões,
Vão nos tornando cegos,
Vão nos tornando surdos,
Vão nos incutindo um enorme desejo
De não mais sentir.
De nada mais sentir, senão sossego e silêncio.
É inevitável que tanto de tudo,
Cedo ou tarde,
Cause-nos anseios pelo nada,
Antes, porém, como no embuá que se enrola,
No caramujo que adentra a carapaça,
Há uma tentativa de defesa,
Essa tentativa de defesa
No animal humano,
É o embrutecimento dos sentidos,
Daí tanta gente viva morta,
Zumbizando pelos cantos,
Produzindo e consumindo,
Enquanto produtos e produtoras,
Enquanto consumidas e consumidoras,
Cegas e surdas,
Comendo a ração sem gosto
Que são os dias que se passam
Como num roteiro ruim.
Somente o espanto,
Diante de cada coisa e de tudo,
É capaz de revelar a vida
Escondida pela vida cotidiana,
O sentido oculto pelos sentidos fúteis e mentirosos,
Somente o espanto diante do que é porque é
Promove o rompimento da placenta
E, portanto, o nascimento do indivíduo.
Daí para frente, é questão de coragem.

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