
Sandra Santos nasceu em São Luiz Gonzaga (RS) e mora em Porto Alegre. Estudou Letras, Direito e Sistemas de Informação. É artista plástica e escritora. Diretora da Casa Naïf e do Espaço Cultural Castelinho do Alto da Bronze. É também editora, na Castelinho Edições, junto com Alexandre Brito, da Coleção Instante Estante, projeto sem fins lucrativos de incentivo à leitura. Ganhou seu primeiro prêmio literário aos 15 anos com o livro "Crônicas de Minha Cidade", concurso promovido pela Prefeitura Municipal de São Luiz Gonzaga. Tem, publicados, livros de poesia adulta e infantil. Participou de várias antologias de poesias e contos e colabora em revistas e jornais de literatura de língua portuguesa, castelhana, italiana e tupi.
FOTOS : LEONARDO BRASILIENSE
ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
SANDRA SANTOS - Sou artista plástica: já pintei, colei, esculpi. Então, saí fora do quadro, como costumo responder "encomendar flores". Construí painéis de lixo, de gelatina, projetei sombras, instalei poemas em código de barras. Estou trabalhando na instalação "Jardim dos Mundos", uma obra viva, construída com as bandeiras de quase todos os países.
Meus projetos mais importantes, no momento, são a "Casa Naïf" e o "Instante Estante".
A Casa Naïf é uma casa de passagem, para pintores identificados com a arte primitivista. Artistas que têm talento, mas não têm acesso aos circuitos de arte convencionais. Após o período de residência no atelier, os convidados poderão expor suas obras no Castelinho.
O Castelinho do Alto da Bronze é um Espaço cultural que eu mantenho com recursos próprios. Um castelo de verdade, no estilo medieval. Uma lenda urbana encravada no Centro Histórico de Porto Alegre.
O Instante Estante é um projeto de incentivo à leitura que compartilho com Alexandre Brito. A Castelinho Edições, da qual somos os editores, é responsável pelos títulos do projeto. Os poetas convidados são editados pelo selo, que não tem fins lucrativo. Poesia contemporânea de qualidade distribuída, gratuitamente, nas bibliotecas comunitárias, pontos de leitura , ebooks, e na intervenção urbana "Instante Estante", nas capitais. Já foram lançados quatro títulos e já temos oito no prelo.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?
SANDRA SANTOS - Desde criança eu gostava de ler, ouvir e contar histórias. Fui criada numa fazenda, ouvindo contos de assombração. Fazia adaptações de textos para o teatrinho da escola e editava o jornalzinho do Grêmio Estudantil. Aos quinze anos, veio meu primeiro prêmio literário e também o primeiro livro. Por um tempo deixei a literatura dentro das gavetas e fui cuidar de outras coisas, mas nunca deixei de escrever. Retomei o convívio com a literatura há alguns anos e se intensificou ainda mais ao conhecer o Alexandre Brito, poeta que admiro e com quem estou casada há mais de dois anos.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?
SANDRA SANTOS - Crônicas de minha Cidade (1979) foi meu primeiro livro. Uiara (2011) foi minha estréia na literatura infantil. Também participo com um volume no projeto Instante Estante (2011). Em 2012, publicarei meu primeiro livro infanto-juvenil, que já está no prelo: "A Filha de Tibicuera" é a continuação bem-humorada da história de Érico Veríssimo e da própria história do Brasil, dita por uma voz feminina que desmascara a imortalidade do homem. Fora isso, já participei de muitas antologias, algumas com pseudônimos, em língua portuguesa e espanhola, principalmente. As mais recentes são do Bar do Escritor (2008), Poesia dos Brasis (2009), Águias (2010). Também colaboro com algumas revistas literárias nacionais e estrangeiras.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?
SANDRA SANTOS - Minha poesia não necessita atmosfera. Trovoadas e relâmpagos produzem textos para a lixeira, não para as gavetas. Se estou numa atmosfera "eufórica" ou de "fossa", produzo muito, mas jogo tudo no lixo. São textos de desabafo. A poesia que guardo é a mais elaborada, que pode vir de uma notícia de jornal ou de um exercício de flauta.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?
SANDRA SANTOS - Muitos. Se pudesse, leria todos os clássicos. Sonho com um mundo no futuro, onde colocaremos chips na cabeça e absorveremos toda a grande literatura em segundos (risos). Dos poetas contemporâneos, admiro os mestres Cabral de Melo Neto e E. M. de Melo e Castro. Tenho o privilégio de conviver com um poeta da estatura de Ricardo Silvestrin e, claro, meu poeta favorito, o Alexandre Brito. E também tenho grande admiração pelo crítico Marcelo Moraes Caetano. Outras preferências literárias podem ser conferidas na instalação CODIGO COLETIVO, onde reuni mais de cem poetas contemporâneos, e que contou com a participação de Antonio Carlos Secchin, Armindo Trevisan, Diego Grando, Fabrício Carpinejar, Leonardo Brasiliense...
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
SANDRA SANTOS - O Projeto Instante Estante é uma mensagem aos novos poetas: Leia!
POESIAS

o ponto inicia num sapatinho
e termina
num xale de renda
pé sem meia
resta o calor do braseiro
bule craquelado
guarda morangos vermelhos
canta um galo de lata
na chaminé
chama o vento
***
de pão e aramado
teus dedos fartos
argamassa de ovos
trama de cestas
na tela a varejeira
ronda a carne seca
***
Medias Lunas
meus passos bêbados
caem de Buenos Aires
a canção funk fode meus sentidos
explodindo numa bola de chiclete
a pedra que atravessa meu caminho dança um rap
e o Rio continua maravilhoso
mas tu permaneces num café inventado à luz de velas
onde nos comíamos medias lunas
quando eu amava Guns e odiava a Guerra
invadia tua vida e te estragava o dia
sonhavas ainda e eu fingia
e só um de nós era imoral
já me adivinhavas e sabias
quem praticava sozinha todo pecado capital
***
Doravante Dora
Na noite escura
A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
Rabit, Dora?
Entre os sinais
Sinaliza Dora
Entre os espelhos
Já é Senhora
Sem mãe, sem pai
Sem história
Simplesmente Dora
Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora
Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora
DuraDoura
Contra a luz
No chafariz
Moeda morta
Meretriz
Menina insiste
Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre
Dora em declive
Teto Escarro Vão
Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua
Alguém chora
No beco escorre
Para sempre, Dora...
***
Um risco
fugindo da tela
um brejo, uma casa a colina
um trinca-ferro no galho
um velho tecendo armadilhas
cores quadradas
estiradas
na varanda
alamandas
debruçadas
na janela
um beijo, um selo
de carta perdida
um seixo
no meio da via
num instante de fotografia
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