José Dantas Cyrino Júnior é educador e advogado. Nasceu em Manaus, num dia 13 de novembro. Iniciou sua carreira docente em março de 1976, como professor de História do Centro Educacional Eduardo Ribeiro, uma escola vinculada à CNEC – Campanha Nacional de Escolas da Comunidade. Depois lecionou em várias outras escolas de Manaus, como o Colégio Aparecida e o Instituto de Educação do Amazonas - IEA.
Em 1980 ingressou, por concurso público, na Universidade do Amazonas - UFAM, como professor de Filosofia da Educação, onde permanece até hoje. Além do magistério, ocupou vários cargos de gestão, como Coordenador do Curso de Pedagogia, Diretor da Faculdade de Educação, membro da Comissão do Vestibular, de conselhos superiores, além de outras comissões.
Foi um dos fundadores da Universidade do Estado do Amazonas - UEA, contribuindo para a estruturação os cursos de licenciatura da área de humanidades. Em seguida foi Diretor da Escola Normal Superior, Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários e Vice-Reitor da UEA.
Na década de 70 foi líder estudantil. Foi vice-presidente do Centro Acadêmico Filosófico e Cultural do Amazonas – CAFCA e também diretor do então D.U., Diretório Universitário, hoje DCE. Participou ativamente do processo e da luta pela reconstrução da UNE – União Nacional dos Estudantes, inclusive representando o Amazonas no seu Congresso Nacional de reconstrução, na cidade de Salvador, em 1979.
Participou também ativamente do movimento sindical, tendo sido um dos fundadores da APPAM, Associação Profissional dos Professores do Estado do Amazonas, do Sindicato dos Professores e da ADUA – Associação Docente da Universidade do Amazonas, da qual foi Vice-Presidente. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em Manaus, onde militou até 1987. Foi ainda Secretário de Educação de Manaus nos anos de 2005 a 2007.
É advogado e licenciado em Filosofia, com curso de pós-graduação na área de educação. Além de professor de filosofia da educação também é professor de Direito.
ENTREVISTA
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?
JOSÉ CYRINO - Difícil identificar o interesse pelas leituras, pois desde criança fui estimulado por várias circunstâncias. Meu pai era formado em filosofia, era professor de história e geografia e ainda poeta. Minha lembrança era de livros por toda parte, correção de provas, textos em geral sobre camas, mesas etc. Minha casa de infância onde nasci e vivi até os quinze anos era bastante diferente da casa de meus amigos da rua. A sala de visitas das outras casas era equipada para receber visitas (estofados, tapete, abajur, etc). A nossa sala era enorme e o único móvel era uma escrivaninha grande onde meu pai estudava e trabalha durante a noite e madrugada. Em uma das paredes, uma lousa enorme. Nas outras uma estante com aproximadamente 600 livros. Eu e meus cinco irmãos brincávamos em disputar quem localizava primeiro, na estante, livros pelo título ou pelo autor. Ainda hoje sei onde dormem Platão, Kant, Machado, Montesquieu, Aristóteles e tantos outros.
Quanto ao interesse em escrever veio mais tarde, na década de 70 quando era aluno da universidade do Amazonas. Era uma fase difícil, pois tudo era proibido aos estudantes, especialmente pensar livremente. Isso estimulou escrever poesias engajadas, de protesto, e aí foi transcendendo para outras formas e gostos. Recentemente, uns 6 anos para cá, “descobri” uma enorme quantidade de poemas. Estimulado por amigos generosos, resolvi publicar e gostei. Vou continuar.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados?
JOSÉ CYRINO - Só tenho um livro publicado, intitulado POESIA, editado pela Valer Editora, de Manaus, em setembro 2011. (ISBN 978-85-7512-487-1), 138 P. Possuo alguma pouca coisa que foi publicada em revista jurídica, mas puramente técnico.
Como disse, continuo escrevendo. Estou com um livro novo no prelo e espero ainda este ano publicá-lo. É um livro de frases, aliás um desafio muito grande, pois, como diz o Millôr Fernandes, é difícil ser original numa obra dessas. O título é “MÍNIMAS – Frases que não pretendem chegar a máximas”. Nele “brinco” muito com os fonemas, explorando suas ambigüidades. É um livro alegre. Tenho também outro livro de poemas completo, mas ainda não pronto, pois a prioridade é para o de frases.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?
JOSÉ CYRINO - Sei que é muito genérico, mas é a própria vida. Refiro-me às coisas tomadas por insignificantes na vida. Penso que é nas coisas insignificantes que repousa mais a poesia. No dia-a-dia do homem comum que não sabe que faz poesia quando luta pela vida, as vezes faz até canção e não se dá conta porque o que conta são as coisas definidas como importantes e significantes pelos deuses dos sistemas econômicos. Talvez pela minha formação filosófica o que me move é a necessidade de desbanalizar coisas que se tornaram naturais e por isso ninguém vê mais. Desbanalizar é poetizar. Do espanto com o banal surge o encanto e aí quando o espanto se apalavra, nasce a poesia.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?
JOSÉ CYRINO - Os escritores que mais admiro são os mais simples e com mais humor. Acho que a literatura não deve ser fardo, obrigação, não deve ser sisuda, feia. Basta de discursos politicamente corretos que algemam a criação e o delírio. Mas não tenho preconceito. Abro um grande autor, conhecido, até clássico. Se não der prazer, abandono. Pelo reverso, abro sem preconceito um autor pouco conhecido ou satanizado e se for leve, agradável, termino a leitura. Fora disso acho que é ditadura da leitura. Mas vou citar alguns que gosto.
Na poesia gosto demais do Manoel de Barros, o maior transgressor de sentidos que conheço. Citaria outros que gosto muito também, como Quintana, Pessoa, Neruda e Gabriela Mistral com seus poemas de amor; Gosto demais dos amazonenses Luis Bacelar e do Tiago. O Afonso Romano, Florbela Espanca, Cecília Meireles, Coralina, e não poderia esquecer o Paulo Leminski com seus poemas curtos. Na literatura os nossos mais conhecidos nacionais ou não – clássicos, mas também os contemporâneos como Ruy Castro, o Cony, o Milton Hatoum, conterrâneo. Tenho lido também Garcia Marquez, e algumas coisas de Saramago apesar da sua forma cansativa.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?
JOSÉ CYRINO - Um esclarecimento: eu sou um novo poeta, apesar de não ser um poeta novinho, pois estou nos cinqüenta. Mas se serve assim, de um poeta neófito e temporão, eu ofereço um trecho de um poema meu que cuida exatamente disso:
Escrever é Preciso
J. Cyrino jr.
Ainda que me caia o mais forte temporal,
eu seguirei adiante, escrevendo,
mesmo que seja uma rude consoante,
mesmo que seja uma troncha vogal.
Ainda que venha a ficar mouco,
ainda que venha a emudecer,
isso importa muito pouco,
só preciso dos meus olhos
e de minhas mãos para escrever.
Escrever é o que me importa,
ainda que a palavra saia torta,
ainda que seja um simples rascunho,
importa que não parem os meus punhos.
Escrever é tudo que eu preciso,
é o que faz pulsar o meu coração;
não importa se minha poesia é um improviso,
importa que não me ceguem os olhos
importa que não me amputem as mãos.
POEMAS
Catador de Poemas
J. D. Cyrino Jr.
Sou um catador de poemas
que anda pelo mundo a colher
poemas perdidos no chão,
poemas que distraídos poetas
deixam escapar de suas mãos.
Cato pedaços de versos
nos balcões das livrarias,
nas salas dos consultórios,
nas poltronas dos cinemas,
nas portas dos mictórios
e nas igrejas em novena.
Cato poemas nas feiras,
cato poemas na beira do cais,
cato nas mesas dos bares,
nos bancos das praças,
nos pontos de ônibus,
nas cadeiras dos barbeiros
e nas bancas de jornais.
Cato ainda nos puteiros
e também nas catedrais.
Mas não cato só poemas
de poetas de profissão,
cato pelo mundo, principalmente,
pedaços de versos feitos por gente
que não sabe que faz poesia
muito menos que faz canção.
Cato vozes desarticuladas,
falas perdidas no senso comum,
palavras nem sempre bem ditas,
mas sempre bem extraídas
dos momentos de emoção.
Cato versos que caem dos abraços
na hora em que se esticam os braços
na hora em que se apertam as mãos.
Cato palavras mal humoradas,
cato palavras só murmuradas,
que espirram do entusiasmo
dos protestos e dos orgasmos.
Cato poemas inteiros,
por vezes nem sempre perdidos,
algumas vezes abandonados
por amores desistidos.
Cato vozes indecifráveis,
pedaços de frases desconhecidas,
línguas de povos expropriados,
poesias incompreendidas.
Cato poemas estranhos
no rosto da cafetina
que com olhar de desgosto
de uma menina adulta
conta como de antanho
a féria das prostitutas.
E assim vou caminhando,
catando versos pelo chão,
porque catador de poemas
é uma escolha de vida,
não é profissão.
Vou tecendo os meus poemas
com esses retalhos de vida
que colho no mundo a granel,
com fragmentos de poesia
por vezes largados na terra,
por vezes jogados do céu.
Hoje minha vida é amena,
hoje escolho os meus caminhos,
hoje caminho por outro viés,
hoje sou um catador de poemas
e só ando por onde posso pisar
sem precisar escarnar os meus pés.
Casa de Caboca
J. D. Cyrino Jr.
No terreiro, uma vassoura... e um menino nu,
sentado no chão, ao lado de um cão esquálido.
Nas paredes de madeira, um par de armador...
em uma delas, manchada por uma goteira,
uma antiga pintura de Nosso Senhor.
Sobre a mesa, chamas de uma lamparina
balançam fluidas como dançarinas do ventre
e lançam fuligens que tingem as palhas da sala.
No quarto, sozinha, se embala uma criança
e o ruído da rede avança manhoso até o quintal.
Na cozinha um jirau... sobre ele um terçado de aço,
uma panela queimada e canecos de lata areados.
Embaixo, um fogareiro... e restos de carvão.
De caibro a caibro, sob goteiras de luar,
uma rede se estica por cima de um velho fogão.
Embaixo da mesa, presa às pontas de um lençol,
uma trouxa de roupas a serem lavadas à mão...
E duas pedras de anil...
Ao lado, de esmalte branco, um trincado bacio...
No canto, um pote de barro.
Na beira do pote a ponta do púcaro...
No púcaro, uma jia.
No fundo da gaveta do surrado roupeiro,
os instrumentos de um sagrado ritual:
um caco de espelho, um toco de batom vermelho
e uma pocarina feita de uma fina louça oriental.
Doces versos da vida
J. D. Cyrino Jr.
Para Cora Coralina
Na cozinha da casa da ponte,
nos doces dos tachos de cobre,
nos jardins das jabuticabeiras,
nas beiras do rio vermelho,
com as mãos de mulher roceira,
de grosseiras falanges curtas,
mas fecundas e cavouqueiras,
tirou palavras das pedras
e fez com elas escoras;
e fez-se, de todas meninas,
poetisa de muitas letras
aprendidas nas gretas da vida
poetisa... apesar da escola.
Paralelas
J. D. Cyrino Jr.
Tu tens a teus pés
o rio de janeiro,
eu tenho aos meus
mais rios que os teus.
Eu tenho a meus pés
o ano inteiro, os abraços
ingênuos dos braços
efêmeros dos igarapés.
Tu tens a teus pés
a formosa lagoa,
a quem todo dia
tuas mãos abençoam.
Eu tenho aos meus lados
os mais belos lagos
que os remos talhados
das rasas canoas
lhes fazem afagos
de popa à proa.
O mais doce pão,
tu tens dele aos montes,
eu tenho das águas
a eterna fonte,
tu tens lá tuas favelas
e eu cá minhas mazelas.
Temos vidas diferentes
maravilhas paralelas.
Soneto da Sublimação
J. D. Cyrino Jr.
Meus versos não saem do coração
como uma oração que a dor acalma,
dilaceram a débil pele da minha alma
e levam de rojo as rimas à explosão.
Sofro resignado de um prazer desmedido
quando no peito me irrompe um poema
e solto em gritos de um jeito a dar pena
os meus versos estridentes em gemidos.
Sei que vou morrer expelindo os meus versos
mas nenhuma compaixão ou dó eu lhe peço
porque suprime minha dor a analgesia.
Pois quando rasga o epitélio da alma
e o coração despedaçado no peito se espalma
morro imerso e sublimado em poesia.
Um comentário:
Que entrevista legal! Em algumas poucas palavras foi possível sintetizar uma vida profissional recheada de atribuições sem perder o brilhantismo! E que de quebra, rendeu um poeta maravilhoso! Seus poemas são deliociosos, meu amor! E eu o meu orgulho por você transborda enquanto escrevo aqui! Mal posso esperar para ler o segundo livro!
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