segunda-feira, 16 de abril de 2012

ROGÉRIO SOUZA - ENTREVISTA Nº 398

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

ROGÉRIO SOUZA - Atualmente estou envolvido com projetos de reinserção social, atuando em parcerias com a SEJUS e SEDUC.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

ROGÉRIO SOUZA - Escrevi a primeira poesia no dia em que minha filha completaria 15 anos (como homenagem póstuma ao seu falecimento acometida aos 12 anos de câncer cerebral). Durante o período em que fiquei alijado do convívio social (04 anos), a leitura se tornou companheira por definitiva da minha vivência na prisão, sendo a ocupação principal deste distinto momento.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?

ROGÉRIO SOUZA - Publiquei em Março de 2012 meu primeiro trabalho intitulado Crônicas, Reflexões e Poemas – Compêndio de uma vida no cárcere e estou elaborando o segundo titulo: Conflito Eminente – O desafio no caminho da conquista.

SELMO VASCONCELLOS - Qual impacto que propicia atmosfera capaz de produzir poesia ?

ROGÉRIO SOUZA - A leitura é pertinente em qualquer local e situação, pois abrange todas vertentes da vivência humana, seja nos remetendo aos questionamentos e reflexões, agregando valores ao contexto humano e servindo também de fonte de inspiração, entretenimento e aprendizado.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

ROGÉRIO SOUZA - O célebre Victor Hugo por “Os Miseráveis” e “Trabalhadores do Mar”, James Joyce “Ulisses” Henry Cherierre “Papillon”, Drummond, Machado de Assis, Marisa Lajolo, Pablo Neruda, José Saramago, Shakespeare, Goethe entre outros que me inspiram...

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

ROGÉRIO SOUZA - A poesia é transformadora e universal, consegue com sua imensidão e beleza retratar o íntimo das pessoas, e por esta identificação se mostra verdadeira, bela e intensa como a vida deve ser, assim manifestem e compartilhem destas sensações e sentimentos que ela propicia, adornando com mais beleza, doçura e profundidade, este espetáculo inebriante de se viver.

SELMO VASCONCELLOS - Fale de seus projetos.

ROGÉRIO SOUZA - Como mencionei anteriormente, estou buscando implementar atividades voltadas ao resgate e reinserção social através da leitura com um projeto da Secretária de Estado da Justiça e Secretária de Estado de Educação intitulado “Asas de Papel que visa contribuir com o acesso a leitura aos privados de liberdade, em que o mundo da leitura há muito foi abandonado ou nunca inserido.
E conjuntamente o desenvolvimento de palestras destinadas aos alunos da rede pública pertinentes a este contexto, como a prevenção de drogas, abordar aspectos relacionados a violência e acima de tudo de cunho motivacional como propulsor na busca de valores positivos.

POESIAS

( Extraídas do livro CRÔNICAS, REFLEXÕES E POPEMAS... COMPÊNDIO DE UMA VIDA NO CÁRCERE ).
Venda recomendável. Contato com o autor : 69-9323-0955 – 8146-6827 – 3215-6354


A PRIMAZIA DE UM SORRISO

Dizem que o sorriso é o espelho da alma,
Nele se manifesta o belo e o sinistro.
Nele se confunde encantamento e fingimento.
Nele se insinua intenção ou perversão.
Nele se condensa mais que um movimento involuntário ou objetivo
Motivo de alegria e até tragédia,
Pois o divino tem várias faces.
O que dizer dele então, que por vezes é enigmático;
Que o diga Monalisa, detentora do sorriso mais enigmático até hoje retratado.
A busca por ti sorriso parece distante, pois enigmática esta atualmente minha alma.
Sorriso como fazer que volte para mim e me acompanhe por definitivo.
Nem mesmo a rima parece mais ser sua companheira, por hora, então te clamo que volte,
Para além de minha face, para minha vida, e inspire e destile as agradáveis fragrâncias de outrora.
Esta é a primazia que espero acompanhar de forma lúdica e sensata este ser, que a tempo sente por tua ausência.
Manifesta tua grandeza e graciosidade e por tua bondade, contagia e enche de alegria este coração e o que deles se compadecem ou o querem.
Por vezes a poesia se ausenta e abre espaço a realeza, pois tu sorriso será novamente o governante e dominador da minha existência.
Ó Primazia! Acaba de vez com os desvarios inerentes à sua ausência.
Sorriso volta ser o portador do conforto que apazigua este coração vazio, pois enquanto não trazeres a chave, como deixarei entrar o que almejo em minha vida.
Sorriso, alem de espontâneo, te quero não momentâneo, mas para todo o sempre e intenso,
Com a beleza que só você consegue retratar.
Traga contigo o afago e o porto seguro as minhas aspirações, mas traga contigo também a prudência, para que assegure assim sua permanência de forma definitiva em minha vida.
Sorriso não posso te pedir nada, além do que devolva a alegria de viver e adorne estes lábios ressecados com um pouco da doçura inebriante de teu néctar.
As palavras saem assim, sem esperar, sem muito sentido, mas reluzente e cativante como só mesmo você tão bem pode retratar.

( 19 / 04 / 2011 )


O EMBATE DA DUALIDADE

Andança continua, a rima que prima,
Na busca esperança, o singelo...
Anelo ardente, primazia eminente
E assim mais um degrau galgado, no rumo esperado
Participação ativa e latente, a peripécia presente,
A qual na labuta, resgata a luta, o ápice, a escalada...
Dualidade constante, o início e o fim, enfim vislumbrado no horizonte,
Pois o ontem já foi e o amanhã está próximo,
Como o ócio e a ocupação, privação e liberdade, amor e amor ( não ódio ),
Pois já não há espaço para ele tão pouco a derrota ou insucesso.


DESEJO

Resquício sobejo que enfim se aproxima,
Pois de mim se compadece desejo,
Enlevo da alma, da vida...
Liberdade! Em teu seio busco guarida,
E em teus braços o desejo de felicidade.

Desejo de amar, de viver...
És o regente de minha existência,
Pois a prudência te incumbiste de mentor e
Guardião, do nobre e do sensato.

Desejo por vezes ingrato, porem tolerante,
Preserve-me do inoportuno,
Pois grato me manifesto perante a ti.

Assim, restitui por definitivo o brilho e
Alegria, como marco e alicerce contumaz
Do futuro que te apraz,
Insurgente desejo.

Aplaca o ímpeto e exalta a virtude
Em sua magnitude, me concede o êxtase...
Desejo, já não és apenas um objetivo,
Estás intrínseco em minha essência.
Desejo; por si só transformaste em néctar divino,
O âmago nefasto dos tempos inconseqüentes.

( 03 / 09 / 2011 )


SONHO

Delírio da mente, devaneio da alma,
O salutar sabor da transcendência,
Como o pulsar da vida em essência
Incontrolável tu vens, me preenche e consome.
Até mesmo insone, meu corpo se torna escravo de teus desejos.
Lampejos ou fragmentos da rotina humana,
Emana e expressa necessidade ou vontade.
Através da certeza e bondade,
Concretiza um ideal ou objetivo,
Motivo pelo qual tu me dominas, até mesmo quando quero evitá-lo.
Sonho, senhor sublime e algoz voraz dos meus anseios,
Peço-te meios de conviver em paz contigo, sem conflito,
Pois aflito meu ser busca entendimento em sua mensagem e significado...

( 30 / 10 / 2011 )


EU NUNCA VOU DIZER ADEUS ( Para meu filho NATHAN )

Você faz parte de minha prole querida,
O ultimo fruto abençoado e esperado,
Em meu inesperado sofrimento
As lembranças de ti se tornam meu alimento.

Até quando ficarei ausente em sua vida?
Busco encurtar esse tempo, não alcanço a saída,
Ou uma maneira que amenize ou feche a ferida
Que a distância e a saudade em mim inflige.

A qual agride, mas também me auxilia,
Pois me faz querer, pensar, amar
Aguardar a hora abençoada em que Deus
Me levará até você, pois
Enquanto o sol brilhar, eu nunca vou dizer adeus.

Então realizarei meu anseio,
Não se trata de devaneio, ou utopia,
Sim o que eu sempre queria,
A Vivenciam o aprendizado, você meu bem amado;
Enfim novamente ao meu lado.

Vejo-me uma praia, duas pranchas, o mar
E sua mãe sentada a nos admirar, completa o cenário,
Que a muito povoa meu imaginário.

Então, em nossa primeira onda juntos
Celebraremos a cumplicidade, eterna amizade, eterno amor,
Meu maior valor, você,
Meu prodígio, meu filho.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

EDUARDO WAACK - ENTREVISTA Nº 397

BREVE CURRÍCULO
EDUARDO WAACK, no centro de Matão.
Nascido em março de 1964, acredita na poesia como meio de transformação e evolução humana.

Casado, possui três filhos e um neto.

É editor do jornal cultural de circulação nacional “O Boêmio”.

Tem andado a pé, de carona ou bicicleta, desde que vendeu seu automóvel, por motivos econômicos, em novembro de 2010.


ENTREVISTA
EDUARDO WAACK, Exposição Foto-poética em Matão.
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

EDUARDO WAACK - Busco levar uma vida simples e corrigida. A literatura ocupa lugar de destaque na espiral de minha existência. Edito o jornal cultural O Boêmio, criado em 1991. Realizo exposições foto-poéticas e mostras literárias, com atenção especial à preservação do meio-ambiente interno e externo, pois somos naturezas vivas em transformação. Dedico parte de meu tempo aos tratos na terra, pois como hortelão passo as manhãs e finais de tarde plantando,arejando canteiros, arrancando matinhos e admirado a paisagem e os milagres e transformações que a todo instante acontecem meu redor.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?

EDUARDO WAACK - Nasci e cresci numa família onde a literatura era algo normal, comum. Meus familiares sempre me incentivaram à leitura, dando liberdade para mexer nos livros da estante antiga que eu tanto admirava. Aos poucos fui descobrindo seus mistérios e enfeiticei-me, ou melhor, encantei-me com as palavras, que transmitem idéias, descrevem mundos e podem contar muitas histórias, fazer as pessoas evoluírem e transmitir informações.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados?

EDUARDO WAACK - Publiquei meus primeiros poemas em 1979, n’A Formiga, revista editada no Colégio Paranaense Internato, em Curitiba (PR). Desde então venho publicando com regularidade, atualmente mais aceitando a convites do que procurando novas oportunidades. Minha primeira participação em livro foi na antologia Clube do Escritor, publicada em 1985 pela Editora do Escritor, de São Paulo. Em 1986 lancei meu primeiro livro de poemas individual, Canções do Front, e com ele percorri algumas capitais brasileiras, além de outras cidades, fazendo sua divulgação. Participei de diversas antologias literárias, pela mesma Editora do Escritor, de nosso amigo Benedicto Luz e Silva. Publiquei, quando residi em Olinda (PE), os livretos de cordel Água, João de Deus, Poesias Mesmo I e II, e com eles sobrevivi algum tempo naquelas paragens. Em 1996 lancei o livro O Melhor d’O Boêmio, reunindo os grandes colaboradores do jornal O Boêmio, aqueles escritores e artistas de projeção nacional, incluindo você, que hoje se costuma chamar de “turma dos anos 1990”. O lançamento foi uma grande festa, aqui em Matão, com a presença de Enéas Athanázio, Aristides Theodoro e Iracema Mendes Régis, além do pessoal da terrinha. Em 2009 editei o livro Vozes da Cidade — Cultura Matonense Contemporânea. Por considerar o mercado editorial contemporâneo um ninho de vaidades onde a futilidade e o lugar-comum predominam, com padrinhos e apadrinhados ocupando quase todos os espaços editoriais, abstenho-me, no momento, de publicar novos livros individuais, ainda que de forma independente. Edições cooperadas poderiam ser viáveis.

SELMO VASCONCELLOS - Qual(is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia?

EDUARDO WAACK - Para escrever poesias você deve de alguma forma estar familiarizado com as palavras e a gramática. Pode-se escrever com uma simples caneta, ou com um sofisticado computador. O importante é que se tenha algo útil a transmitir. A poesia é includente, acolhe a todos que se atrevam aceitar seu toque. Aquilo que te causa indignação, dúvida, medo ou raiva, por exemplo, pode ser um bom combustível para a poesia. Escrever só quando o coração mandar, ou produzir louca e aceleradamente, quem ditará este ritmo é você. O encontro conosco mesmo, seja em qualquer situação, propicia a criação e surgimento de atmosferas cósmicas, que buscam ser identidades únicas — cabe saber aproveitar, sentir, perceber e registrar este instante eterno-fugaz.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

EDUARDO WAACK - Quanto aos grandes mestres de nossa literatura, e da literatura universal, não é preciso comentar. Da poesia produzida hoje em nosso país admiro aquela que me chega ao coração, aquela que me toca e que permite que eu a percorra em suas múltiplas facetas, descobrindo a cada palavra inéditas e inúmeras sensações e emoções. Versos que permanecem gravados em nossa mente e se tornam como que estribilhos ou refrões compondo a trilha sonora de nossa existência. Como citar algum nome sem magoar aos demais, que produzem com tanta seriedade, desprendimento e competência? Ousarei citar alguns: o inesquecível Zanoto, Ilma Fontes, Lari Franceschetto, Djanira Pio, Silvério da Costa, Irineu Volpato, Claudio Feldman, Humberto Del Maestro, Selmo Vasconcellos, Teresinka Pereira, Escobar Franellas. Atualmente a poesia do chileno radicado em Paris, Eduardo Parra, tem me comovido e acompanhado.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

EDUARDO WAACK - Escreva sempre, escreva por necessidade e não por dinheiro. Pode-se ganhar muito dinheiro com a literatura, mas isto não significa produzir uma obra literária de qualidade. Bons versos independem de grandes estruturas físicas ou econômicas. Escreva, mas não se desligue da realidade, você não é especial por isso, ou superior a alguém. Somos todos iguais e os mesmos nesta efêmera vida terrena. Apenas gostamos de ler e escrever e por isso nos encontramos. Leia bastante, prestigie a literatura brasileira, autores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Ascenso Ferreira, Machado de Assis, Castro Alves, Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Mário e Oswald de Andrade. Tenha sempre um dicionário à mão, conjugue os verbos, seja uma pessoa simpática. Com o passar do tempo, com persistência e técnica, você adquirirá e desenvolverá o seu próprio estilo, que o fará ser reconhecido e respeitado. Mas para isso é preciso ser sincero em suas intenções.


POESIAS
EDUARDO WAACK, Exposição Foto-poética em Matão.
MINHA MÃE

Hoje encontrei minha mãe
Jogada na sarjeta, vertendo copiosas
Lágrimas pelo filho que há muito partiu.

Minha mãe esfarrapada
Era mais uma indigente, estava imunda
Mas ainda bela, das marcas que a vida deixou-lhe
Ela só fez crescer.

Absorvendo a rebeldia
E entregando-nos carícias, seu leite
E a juventude.

Pois eis que então a peguei nas mãos
E sorrindo disse-lhe para não chorar:
“eu estou aqui”, e sem acreditar
Que o futuro está prestes a ter um fim
Dei-lhe banho, roupas novas, alimentos.

Minha mãe hoje é apenas lembrança
Da moça forte de sorriso amplo, que
Em noites de inverno, como esta,
Bate à porta de minha consciência
E me pendura de cabeça para baixo
Como roupa no varal.

“ — Filho meu, filho meu
Queres esconder de mim a dor que te corrói?”

Que mais agora posso fazer,
Acender velas em tardia homenagem
Ou idolatrá-la em sua falta de lucidez?

O remorso é o pior castigo
Com que a pressa nos brinda.
O remorso e um punhado
De boas intenções, que não param o tempo
E nem voltam os nossos melhores momentos.

Eduardo Waack


MISTÉRIOS TERRENOS

Sinto que chegou ao limite
A ingratidão humana. Queremos o que
Não somos, o que ele tem, e a cobiça maltrata
& envolve vizinhos mundo afora numa corrente.

Maldade, ingrata condição humana
Chaga que apodrece no coração da sociedade
Mas não dói naquele que destrata.

Recebe o povo o abandono
E a miséria encravada na alma serena
Destrói alegria, simples esperança.

Esperança menina crescida
Esperança na palma da mão
Desabrochar da flor em manhãs azuis
Astro rei a brilhar e nós todos circunflexos,
Velho egoísmo, queremos o mesmo,
Olhos de esturricar floradas e gelar paixões.

Antes tivéssemos multidões de sóis a iluminar
Cada um propondo um novo rumo...

Eduardo Waack


O ESPELHO E OS HOMENS

Meu melhor amigo
Me inquire através do espelho.
Estamos sós. A seiva em meu corpo
Conduz sensações desconhecidas, emoções
Que embora há muito comigo
Não as supunha reais.

Tão quieto o país dos sonhos...
Vamos colorindo-o e preenchendo
Como um livrinho infantil, e os desenhos
Que se formam me traduzem e reciclam.

Sem medo de fitar meu próximo
Ou dar-lhe as costas por um instante,
Faço dele extensão de meu ser descarnado.
Somos sentimentos em aparente contradição,
Somos o sumo do universo,
Espremido da metade de uma laranja.

Não posso me tocar, no espelho, a não ser
Que estenda a mão a meu semelhante. Toca teus
Dedos nos meus, une as minhas nas tuas vontades...

Sai a gritar, incansável, que a vida tem sentido
Na transcendência infinita, em que nos fazemos seres
Comuns, divinos, e pisando a terra fértil plantamos
E colhemos, livres, o melhor dos mundos.

Eduardo Waack


AOS NOVOS ARTISTAS

Quero ver sangue escorrer,
Vermelho forte, vermelha morte.
Os poetinhas passam de mãos dadas,
Pavões urbanos e caricatas,

Pretendem ser artistas
Mas nunca tocaram o pé à lama. Nunca
Abriram os narizes e abertamente respiraram
O mau cheiro do outro. Carregam perfumados

Livros importados, importantes pautas
Sobre qual reunião... Quero o proibido,
Eunice nua de improviso a declamar
As mais lindas canções de amor, diva

Que se conhece. Não quero bichas recatadas,
Artesãos afetados. Quero sangue coagulado
Na garganta da classe média, da pequena
Burguesia, verdadeiras pragas da nação

Com seus venenos reacionários e fálicas
Religiões falidas. Vísceras dos desaparecidos,
Dos mutilados, dos enlouquecidos e das putas
Que ainda esperam. Não quero glacê,

E sim ácido sangue a afogar o pranto
Das donzelas estúpidas! Sangue manchando
O branco da coca na mesa do governador! Sangue
Sem preço para todos os comércios misteriosos!

Para lavar o edifício da zona nobre,
Para irrigar futuras plantações de orquídeas.
Novos artistas do mundo inteiro: exponham
seus culhões ao inimigo.

Eduardo Waack