segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

LUH OLIVEIRA - ENTREVISTA

LUH OLIVEIRA

BIOGRAFIA

Luh Oliveira é baiana, professora, poetisa. Mãe de duas garotas, vive no litoral da Bahia, Ilhéus – terra de Jorge Amado. Quando adolescente encontrava nos versos a forma de dialogar com o mundo as suas angústias e indagações. Mantinha o hábito de escrever um diário em versos. Apenas em 2005, graças ao mundo virtual, a poetisa lançou seus poemas em sites de literatura e em um site de relacionamento. A partir daí conheceu vários poetas de diversos lugares do país e do mundo e contou com o apoio de alguns deles, dos quais recebeu críticas motivadoras. Desde lá tem participado de saraus, exposições, participações em Antologias, sites idôneos de literatura, é colunista do Jornal CF4( virtual), participa do Congresso Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves-RS, colabora com o site Almadepoeta.com. Já teve algumas premiações em Concursos Literários e fomenta a poesia nas escolas onde leciona.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

LUH OLIVEIRA - Sou professora de Língua Portuguesa e Redação no Ensino Fundamental e Médio. Leciono em escola particular e em escola pública.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

LUH OLIVEIRA - Na adolescência. Fui uma menina muito tímida, tinha muita vergonha de falar em público. Mas quando o assunto era escrever, a coisa mudava de figura. Foi assim que comecei a rabiscar meus primeiros versos que eram uma espécie de diálogo comigo mesma a respeito dos conflitos próprios da adolescência. Aos poucos a poesia começou a fazer parte de meu dia a dia. Escrevia todos os dias.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

LUH OLIVEIRA - Ainda não publiquei um livro só meu. Faz parte de um sonho. Mas tenho participações em diversas coletâneas literárias, além de diversos sites. Em 2008 fiz uma exposição poética intitulada 'Poesia Subterrânea' onde meus poemas eram mostrados junto com desenhos feitos pela artista Soraya Monteiro. Foi uma experiência muito interessante.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?

LUH OLIVEIRA - Acredito que qualquer coisa. Tudo que está em volta é atmosfera para produzir poesia. O segredo está no olhar. Poesia é olhar profundo para todas as coisas. Quando algo te toca, vira poesia.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

LUH OLIVEIRA - Muitos.... Os clássicos Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Saramago, Mario de Andrade, Pablo Neruda... Os novos poetas, Tonho França, Andréa Motta, Ademir Bacca, Tanussi Cardoso, Luiz Fernando Prôa, Cairo Trindade, Telma da Costa... São muitos.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

LUH OLIVEIRA - Escrever poesia é maravilhoso. Viver dela é uma luta.

POEMAS

Insônia

fantasmas rondam a sacada da casa
perambulam pela madrugada
na penumbra desenhada pela lua cheia
que já some no negro céu

percorrem os cômodos
à procura de lembranças guardadas
em alguma gaveta velha
escondidas por debaixo de roupas inúteis

murmuram incógnitas em meu ouvido
gritos agonizantes que abrem os olhos
e espantam os sonhos comuns

íris cor de mel se apavoram
diante da dança insolúvel de almas inomináveis

pela janela entreaberta entram
os primeiros raios da manhã
que afugentam todos os medos
enraizados no ventre encolhido

dentro de mim apenas o desejo
de um dia normal

****

Incondicional

enfiaste no peito
a estaca da dor apócrifa
inescrutável criatura
cuja lágrima é rio manso
anestesia-me
com heréticos sentimentos
que antagonizam
a dúvida de um ser
padece-me num paraíso
onde ervas daninhas
ramificam sobre meus pés
enterrados em areia roxa
por alguns instantes
sou o nada
sou o tudo
nada em mim assola em vão
Eva maldita
Lilith, Macabéia, Helena, Maria Madalena
faces de inúmeras mulheres
perdidas numa só face
no seio túmido
todos os elos dilaceram
hemorragia incontida
vestígios de um ser podre
em todas as partes
de um caminho findo
mas meu perfume exala no ar
a presença infinita
de um amor que se esvai

****

Conflito

Há um silêncio
ensurdecedor
dentro de mim
na calada
desta noite
sem fim

Barulhos de
carros na rua
e o tic-tac
do relógio
por vezes conseguem
penetrar neste
diálogo incessante
que a cada segundo
torna-se mais
conflitante

Desejos evasivos
invadem pensamentos
que viajam inutilmente
em torno
do próprio eixo

-solitariamente-

Solidariamente
sonhos abarcam
a dor à deriva

resgatam do alto mar
o pulsar desfacelado
pela rotina do desdém

Pela janela
entram os primeiros
raios de sol
que apartam
o cruel duelo
entre meus eus

***

In perceptível

languidamente
atravesso tuas entranhas
tão voraz e singela
que mal me sentes

adentro teu desejo
teso membro
que anuncia
noite sem fim

penetras em minhas ancas
derramando prazer
pelas coxas
salpicadas de ti

quase me percebes
por um vago instante
em que sussurro
delícias

deita-te de lado
e adormeces
em meu corpo
como se fôssemos
apenas um

****

Jardins do Éden

pássaro arredio,
sobrevoas marés
alcanças bandos
em todas as planícies
por onde pousas

vento solto
acaricia a face
dono do próprio vôo
segues sem destino
a trilha das estrelas

até aterrissares
em minha janela
e beber auroras
em meus dedos

gorjeio indeciso
rumo incerto
bates as asas afoito
pairando entre
meus jardins

e voltas
sempre voltas

sem correntes
sem amarras

adentras os vitrais sagrados
secreto templo oculto
onde plantas tulipas
e colhes poemas líricos

sinos anunciam
a tua chegada
procissão de anseios
rosário de desejos

e voltas
sempre voltas

pássaro afoito,
não há grades
em minha janela

domingo, 7 de fevereiro de 2010

CLAU ASSI - ENTREVISTA

CLAU ASSI

PEQUENA BIOGRAFIA

Clau Assi nasceu em Teodoro Sampaio, SP e reside em Barueri, SP. Professora de Língua Portuguesa, poeta e de namoro com as crônicas.
Obras publicadas (poesia/antologias): Poetas Del Mundo em Poesias (2008); Antologia Alimentos da Alma – Vol. II (2009); Antologia Poemas à Flor da Pele – Vol. II (2009).
02 Prêmios na área de educação: 3º lugar no Concurso Giz de Ouro (edição 2006) com seu projeto “Leitura: sonho, pensamento, ação” e 4º lugar no mesmo concurso na edição 2008 com seu projeto “Oito metas do milênio, e agora, José?”.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

CLAU ASSI - Sou poetisa em tempo integral, porque os versos pulsam constantemente em nossas veias. Nas “horas vagas”, ou nas horas de obrigação social e financeira sou Professora de Língua Portuguesa (mas, acreditem, tenho versos escritos nas minhas apostilas, nos meus livros de trabalho, nos cadernos onde preparei aulas... até lá os versos me visitam, o que dou graças a Deus!).

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?

CLAU ASSI - A primeira vez que resolvi que seria leitora foi aos 13 anos, quando numa festa junina usei o único dinheiro que tinha pra comprar O livro “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco. Foi amor à primeira leitura (até então lera apenas os “cobrados em prova”) De lá pra cá leitura tem sido o meu hobby mais constante (salvo navegar na Internet). Porém, escrever era atividade que me fascinava, mas em igualdade me amedrontava. Formada em Letras participei de um curso na USP (Universidade de São Paulo). Numa das aulas a atividade proposta era após audição do poema em inglês - “The Raven” (O corvo) de Edgar Allan Poe - produzir um texto. Escrevi meu primeiro poema “Brigas de Amor” (inédito e fraquíssimo). Foi quando redescobri meu sonho de infância de lançar um livro. Tinha no momento 30 anos. Passei a registrar em versos tudo que vejo, tudo que sinto, que gostaria de sentir e ver. Meus sonhos e realidades.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País?

CLAU ASSI - Ainda não tenho um livro solo editado (embora esteja “prontinho” aguardando um patrocínio).
Muito me orgulho de ter participado de três antologias poéticas:
Poetas Del Mundo em Poesias, Brasil, 2008.
Antologia Alimentos da Alma – Vol. II, Brasil, 2009.
Antologia Poemas à Flor da Pele – Vol. II, Brasil, 2009.

Participo, também, na Antologia Alimentos da Alma – Vol. III a ser lançado no Brasil em março/abril de 2010.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz (es) de produzir poesias?

CLAU ASSI - Tudo é poesia. Tudo vira poesia. Do barulho do avião que terminou de passar nos céus aqui até os sentimentos mais intrínsecos da vida humana. Cabe ao poeta, ou a quem deseja escrever versos, saber captar a poesia ao seu alcance. Porém, acredito firmemente, que é necessário que saibamos que pra escrever versos é preciso ler versos, é preciso conhecer poesia, é preciso estudar poesia, buscar um vocabulário amplo. Ou seja, DEDICAÇÃO! Contar apenas com a inspiração é contar com a sorte. E sorte, apesar de poética, não nos bate à porta todos os dias. Em suma, é preciso manter a humildade do “sou aprendiz” sempre. Muita sensibilidade ao olhar (de verdade, com os olhos da alma) e trabalho resultam na atmosfera perfeita.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

CLAU ASSI - Nossa! Difícil responder, né? Mas vou me prender ao que me trouxe aqui: a poesia.
Fernando Pessoa. Meu sonho de poeta. Para uns, louco, para outros, aficionado. Pra mim: poeta. Ele, como poucos, conseguia por em versos o ser humano. Que atire a primeira pedra quem (dos que realmente lêem poesia) nunca “se viu refletido” num verso dele.
Ta bom, você há de perguntar: Você é “poeta virtual” (odeio essa classificação – poesia é poesia, oras!) e no mundo virtual quem admira? Não citarei Théo Drummond, como tantos devem estar pensando que citaria, por um motivo muito simples: um poeta que tem mais de 15 livros publicados, não pode ser classificado apenas como poeta virtual. Concordam? Théo Drummond é meu parceiro e poeta mor.
Cito e indico a leitura de alguns grandes poetas que me enchem os olhos cada vez que seus versos me chegam ao alcance: Sigrid Spolzino, Marçal Filho, Kedma O’liver, Sandra Almeida, Verônica de Nazareth- Noic@... Um grande número de poetas ainda encabeçaria a lista. Poetas que têm feito a poesia virtual valer a pena. Como você, caro poeta, Selmo Vasconcellos.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

CLAU ASSI - Como ainda sou aprendiz divido meu norte: Leia poesia! Sinta poesia! Enxergue poesia! E, acima de tudo, ame poesia.

POEMAS

CARPINTEIRO DAS PALAVRAS

Uma palavra
Corta
Marca
Martela na mente
Cola
Prega
Alisa
Trabalha o poeta, carpinteiro das palavras
Emoção entalhada
Sentimento envernizado.
Nas gavetas revestidas de sonhos:
Eu
Você

PRESENÇA

Como um grande girassol
Tua presença
Me acompanha durante o dia.

Como uma estrela brilhante
Lá está ela
Clareando minhas noites.

Como tatuagem indelével
Doce presença
Noite e dia.

TORMENTO

Adoece o coração
Adaga afiada
Rompendo o peito.
Deus louco
Tresloucado
Que a sanidade retira
Instala-se
Tempestade
Medo
Solidão.

Inveja.

Do dia
Da noite
Companheiros teu.
Tua roupa
Teu perfume
Tua imagem no espelho
Todos grudados a ti.

Inveja.

Do sonho
Pensamento
Desejo
Sorriso
E até a lágrima
Todos dentro de ti.

Desejo.

De você aqui.
Junto de mim.

Tormento...
De quem ama.

RIBANCEIRA

Um tombo apenas
Rola abaixo,
Lama,
Sujeira,
Tristeza.
Tudo!
Correnteza carrega
Sonhos afogados
Ilusões perdidas.

Prostrada na ribanceira
Vejo a vida sumindo
Na curva do rio.

TUA

No meio da noite
Fantasma de amor
Seu nome
Me ronda
Me tira o sono
Me leva a sonhar
Ardente sonho real
Me toco
Me sinto
Nesse momento
Em intensa explosão
Sou tua.

Um agradecimento especial

Meus sinceros agradecimentos ao incansável, Selmo Vasconcellos, que luta pela literatura nesse país. Com seu trabalho on-line, com seu trabalho impresso. Tive a honra de ver meus versos publicados em jornal impresso em Rondônia devido ao seu carinho com os novos poetas, aos quais incentiva, ajuda, e cria oportunidades.
Isso é poeta de atitude. É poeta que realmente ama a poesia. Esse é meu sonho para todos que querem ser chamados de poetas. Um belo exemplo.
Muito obrigada pela oportunidade de expor meus versos naquela e nesta vez.
Sou sua fã.

Clau Assi

sábado, 6 de fevereiro de 2010

RITA ALVES - ENTREVISTA

RITA ALVES

BIOGRAFIA

Rita Alves, paulistana, formação em História, Arte e Letras. Estudiosa de Mitologia Indígena, é membro fundadora do Instituto Orlando Villas Bôas, junto com Noel Villas Bôas, filho do grande indigenista. Membro do Centro de Estudos Pessoanos, por convite de João Alves das Neves, escreve para a Revista Lusofonia, dos países de língua portuguesa. Curadora de artes plásticas, acaba de encerrar uma grande exposição no Forte de Copacabana, Rio de Janeiro, com 47 grandes nomes das artes no Brasil e prepara atualmente, junto com Emanoel Araújo, a exposição do acervo dos irmãos Villas Bôas, no Museu Afro Brasileiro, no Parque do Ibirapuera.
Terá seu primeiro livro de poemas publicado no Brasil, TELA DE LETRAS, com apresentação do crítico português Joaquim de Oliveira, e capa de Marysia Portinari.
Morou em Portugal, tem dois filhos, vive atualmente em São Paulo, ao lado do Parque Modernista, onde, garante, se inspira em nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila, ente outros, para criar seus poemas.

ENTREVISTA

Foto : Thiago de Melo, Rita Alves e Antônio Cândido
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

RITA ALVES - Sou historiadora, junto com a família Villas Bôas, tenho a imensa responsabilidade de dar um destino ao acervo de Orlando Villas Bôas, o que está em processo aqui no estado de São Paulo. Curadora de Arte, preparo exposições, escrevo crítica de arte e literatura. Dou palestras de história e literatura. Preparei livros de Arte de alguns pintores, como Élon Brasil, Adélio Sarro, Inos Corradin, Fang...

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

RITA ALVES - Leitora desde muito cedo, aos 10 anos ganhei as coleções: Obra completa de Machado de Assis e Filósofos. Percorri todos os meandros da consciência humana, li, antes dos 15 anos, psicanálise, biografias, história da humanidade e da arte. Descobri a poesia através da música, encantada com a estrutura melódiaca palavras, passei a ler poetas de todo o mundo e a estudar crítica literária. Escrever foi decorrência destas descobertas. Manuseei as ferramentas que me deram. Aprendi a carpintaria da escrita.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

RITA ALVES - Publiquei alguns poemas e contos em coletâneas no Brasil, um pequeno livro em Portugal, POEMAS, contos e poemas em diversos jornais e revistas pelo mundo. Em março fica pronto o TELA DE LETRAS, incentivada por Thiago de Mello a publicá-lo, este livro reflete a minha relação com as artes plásticas, um percurso meu nos últimos 10 anos de produção, até 2 anos atrás. Já tenho outros em fase de elaboração, um de contos e outro de poemas.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?

RITA ALVES - Poema não precisa de grandes impactos, creio, inclusive, que são os pequenos fatos, as pequenas situações que me despertam para a necessidade de produzir esteticamente o belo, através das palavras. Manuel Bandeira, poeta que reverencia situações do cotidiano, sempre me foi um guia. Assim como Drummond. Antonio Candido já atentou para "a vida ao rez-do-chão"... penso que podemos falar sobre o mais profundo do ser notando as pequenas coisas que estão a nossa volta ou no mais íntimo de nós.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

RITA ALVES - No topo da lista Fernando Pessoa. Eugénio de Andrade, Miguel Torga. James Joyce, T.S.Eliot, Drummond, Manuel Bandeira, coleciono edições de DON QUIJOTE, de Miguel de Cervantes, cito uma em comemoração aos 350 anos de sua publicação, com ilustrações de Gustave Doré além da primorosa edição ilustrada por Salvador Dalí. Todos os de Filosofia.

Mas, especialmente sou leitora de Guimarães Rosa, que estudei, estudo, leio e releio, dou cursos, analiso, enlouqueço...

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores ?

RITA ALVES - Leitura. Muita leitura. Escrever é labor, trabalho árduo. Mas comece este trabalho brincando, escreva 20 palavras, brinque com elas, mova-as. Troque sílabas, ouça o que elas lhe dizem, seus sons, sua melodia... verá que é uma festa. As palavras têm vida própria e quando se juntam a outras, perdem um pouco de suas personalidades, somam com as das outras... mudam de opinião de acordo com a ordem em que as colocamos... Escrever é isso: uma grande brincadeira. Ao final, o produto, o objeto poema finalizado, deverá ser o resultado sério, a extensão do seu corpo e do seu pensamento. Um filho. Escrever é dar vida nova à palavra.

POEMAS


AS PALAVRAS

Entre o pensamento e a palavra
Entre palavra e o sentimento
Há um enorme espaço deserto
Plátano, oásis, miragem

Até que a mão chegue ao caderno
Para libertar as palavras
Agarradas ao tinteiro
Leva uma vida e o mundo inteiro

Paridas e ainda molhadas
Não se reconhecem nos pais
Tomam formas inesperadas
Em desespero se agitam

Presas às folhas, condenadas
A serem postas à prova
Pelos olhos de quem as lê,
Não dizem o que são

São o que se vê.

RITUAL

Ofereço-me
Como o corpo de Cristo
A desmanchar-me pelo teu sangue.

Trago em meu corpo
A dor de todos os meus pecados
Solúveis
Palatáveis.
Ofereço-me a ti:
Corpo e alma,
Mal venturada.

Do claustro
Estendo minhas mãos e não te alcanço:
Chagas laceradas pela prisão do espaço.

Ofereço-me a ti:
Xale roto (profano sudário)
Desfraldado pela brisa das marés.

E os espinhos a lanhar-me a fronte
São as gotas prepotentes do tempo.

QUARTA MARGEM

Não vou à fonte
Incomoda-me o nascer incessante
das águas
A urdir passagem

Talvegue desenhado no tempo
Gozo interminável de reticências

É na foz que finco meus pés

Visto detritos:
Despojos do viajante manancial

E deste espaço em que me fecundo
– Fundo turvo de margens incomunicáveis –
Vislumbro o horizonte marinho.

O POETA PARTIU I
Ao Thiago de Mello

Apartados os dentes,
sombra e pedra.
A rua, o rio.
E o sabor adocicado
de calcário e lua
acorrentando a aurora.

A UMIDADE DAS ROCHAS

Para além da acidez da distância
Cai a chuva rogando às rochas seu sal
Nuvem a nuvem
(viajadas observadoras das insensatas armadilhas)
A água se espreme: caldo lacrimal, perfilado
Despojo dos avessos do amor.
Foi o homem atado às franjas frias da renda
Desfeita e mal tecida
Deixou um rastro de rochas semeadas no céu
Aquoso:
Rósea poeira pluvial, registro quase rubro da chuva
Sangüínea,
Escarlate seqüência de precipitação
Séqüito ao panteão de mim
Legião ladeante de lúgubres sombras
Que percorrem teu caminho atávico.

Chuva ácida
Suicida chama

De memória morta minimamente molhada
No árido corpo que me habita.

O CAPACETE DE VIDRO
(Ao José Roberto Aguilar)

Todos os capacetes são de vidro
Areia impura fundida no molde da cabeça

Mas eu vejo a guerra
E uso o capacete de vidro:
Terceiro globo do terceiro olho embaçado

De pólvora
De fumaça

Num tempo em que o vidro cega
E a morte liberta a vida em estilhaços

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MARCIA BARROCA - ENTREVISTA

MARCIA BARROCA

Cromoterapeuta e poetisa.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

MARCIA BARROCA - Sou Cromoterapeuta. Trabalho com cores, que também é, uma linda forma de poema.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

MARCIA BARROCA - Desde criança. Aprendi a ler aos 4 anos. Daí em diante, nunca mais parei. Minha casa tinha muitos livros e todos liam.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

MARCIA BARROCA - Além das Antologias que participei, tenho dois livros publicados no Brasil; Marés e Semeaduras e Desclausura, o verniz da unha na boca, os dois pela Editora Alcance R/S.

No prelo, tenho mais dois livros. 50 poemas escolhidos pelo Autor; Editora Galo Branco RJ e um outro ainda sem nome, que será bilíngüe (português/espanhol), para lançamento em Buenos Aires, Ediciones AQL.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?

MARCIA BARROCA - A poesia explode dentro de mim. Impulsivamente, vivo poemas. O amor, em todas as suas variações.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

MARCIA BARROCA - São tantos...
Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Álvares de Azevedo,Cecília Meireles, Manoel Bandeira, Carlos D. de Andrade, Florbela Espanca, etc.e tantos.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores ?

MARCIA BARROCA - Nunca desista dos seus sonhos.

POEMAS


O mar predisse

Trago na boca
além do sabor
da saliva e do vinho
a língua roxa
do arrocho do beijo
e da uva

Pouco me importa
o mundo
Supremo é o gosto
que não mais sufoca

Nus em abraços invasivos
Momentos de ruídos

Inutilmente nossa vontade
importa

O mar predisse:
Netuno ressuscitou
sua deusa morta


A voz erguida

O poeta ressuscita na palavra
a voz que grita no silêncio
o traço fúnebre
que baila no texto ritmado
a ausência da febre
queimando matéria morta

O poeta descarta, desdobra,
desdiz o som escorregadio
na garganta que berra
Cordas vocais, vocábulos
cavernas ambíguas
letras flutuantes
em papel de original efeito

O poeta cresce na essência
disforme de seu vício


Paridas palavras

Rasga-se o útero adormecido
ao compasso dos versos

Soluçam poemas
que cumprem sua sina
Desafios lavrados,
plantados,
repletos de sons

Desde sempre
estive entre a amargura
e a poesia

Apagou-se impetuosamente
o amor
O poema ressurge
único a construir afetos


Pecados e paisagens

Pecados são paisagens
no lamento da chuva de inverno
Lembranças de inéditos versos
que nunca foram escritos

Na voz do vento
o pio das corujas
lembram escondidos suores
Orgasmos múltiplos
na nudez plena do poema

O meu desejo grávido
liberta demônios
que pousam sedentos
martirizando a carne

Não dói libertar a alma
por entre frestas
antes apagadas
Inexoravelmente,
aprendi a pecar


Frida Kahlo

De minha prisão
vejo quadros
Quadrados
quadros de Frida Kahlo

Somente eles
colorem meu cansaço

Minha janela
para o mundo
Minha visão distorcida

Meu sinal fechado
para a vida

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

BELVEDERE BRUNO - ENTREVISTA

BELVEDERE BRUNO

Nasceu no dia 17 de outubro em Niterói/RJ, onde reside.
Despertou cedo para as letras, fato que deve ao incentivo do pai, que sempre presenteou os filhos com livros.
Atualmente, dedica-se às prosas, gênero onde mais se identifica.
Tem várias antologias publicadas, como diVersos - Scortecci, @teneu.poesi@ - Scortecci, Com licença da palavra - Scortecci, O Conto Brasileiro hoje - Volumes VIII, Volume X e Volume XII - RG Editores. Possui extenso material divulgado em mídias diversas.
Vinho Branco, safra especial de contos e crônicas, seu voo solo, será lançado em março de 2010.
É colunista do Jornal Santa Rosa - Niterói.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

BELVEDERE BRUNO - Sou enfermeira e jornalista . Estudo idiomas, como inglês e espanhol . Participo de oficinas literárias e, acima de tudo, leio à exaustão. Tenho consciência de que só através da leitura é possível um aperfeiçoamento na arte da escrita. Como hobby, tenho a fotografia.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

BELVEDERE BRUNO - Desde criança fui incentivada à leitura pelo meu pai. Para você ter uma ideia, muito cedo comecei a ler clássicos, o que, na maioria das vezes, pode ser um desestímulo, mas me fascinei por Dante,na Divina Comédia e daí foi um pulo para Camões e outros. Um universo maravilhoso se descortinou para mim. Ainda adolescente, me enveredei pelas letras, escrevendo redações no colégio, e nos concursos sempre alcançava o primeiro lugar, o que muito me estimulou . Escrevia também poemas satíricos, que faziam grande sucesso entre os amigos. Depois, um silêncio nas letras, que durou vinte anos. Há cerca de sete, retomei a escrita.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

BELVEDERE BRUNO - Tenho várias antologias no Brasil e lanço meu livro solo - Vinho branco, safra especial de contos e crônicas - Editora LivroPronto - em março de 2010. Não tenho livros publicados fora do país.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?

BELVEDERE BRUNO - Partidas, dores, saudade e nostalgia são temas recorrentes em minhas poesias. Gosto de textos concisos, e há algum tempo venho me dedicando mais às prosas. É onde me encontro e tenho mais satisfação.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

BELVEDERE PRUNO - Cito alguns: Machado de Assis,Thiago de Mello, Bernardo Carvalho,Katherine Mansfield, Rubem Fonseca,Hemingway, Mia Couto. Recentemente, descobri um escritora carioca residente em Curitiba, que me encantou com suas letras: Helena Sut.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores ?

BELVEDERE BRUNO - Leiam muito e estudem. Tenham disciplina na escrita, porque escrever é, acima de tudo, trabalho e muito suor!

PROSA

Uma vida em sonhos
Belvedere Bruno

Vivia imersa em sonhos. Decerto, neles existiam as cores, os sons e os sabores, que, há muito, haviam sido subtraídos de sua vida, sem que soubesse a razão. Era enternecedora a suavidade em seu semblante quando adormecia se aconchegando entre perfumados travesseiros e edredons. A vida ao vivo já perdera a graça. Acordada, não sabia quem era filho, neto, bisneto, sempre trocando seus nomes e falando sobre fatos remotos como se fossem atuais. O ontem parecia o hoje de forma fragmentada.
Afagando seu rosto, a chamávamos pelo nome, suavemente, para que não despertasse assustada: "- Marta, Marta..." Ela entreabria os olhos, e sorríamos, ao perceber que ainda se reconhecia . Esperávamos suas palavras, a interação no nosso dia-a-dia, mas logo buscava o ontem, proferindo frases desconexas, com o olhar vago, constantemente a murmurar : "- Pedro...Pedro...."
Os dias se passavam e mais Marta se isolava da vida fora dos sonhos, cujo enredo só ela sabia. Eram paragens que sequer imaginávamos como seriam.
Naquela madrugada, talvez pela força do vento, caiu a imagem do santo de sua devoção, juntamente com o vaso de margaridas, espatifando-se ambos. O amanhecer , no entanto, chegou pleno de azul, e Marta parecia sorrir, como se abrisse os braços para o mundo. Os olhos já não miravam o vazio.
Pedro conseguira, enfim, transpor a barreira do tempo e do espaço e, delicadamente, a conduzia para outra dimensão, ali, onde ela, de fato, sempre fora feliz. De mãos dadas, atravessaram o grande portal . Do outro lado da margem, enternecida, ainda ouvia vozes que a chamavam: " - Marta....Marta .... "
Seguindo o caminho, não olhou para trás.

POEMAS

A porta

A porta fechou. Inesperadamente.
Ficou um cheiro de jasmim,
e a lembrança suave das palavras
sempre tecidas em ternuras...
No porta-retrato, aquela alegria serena.
Tudo permanece
como num quadro de memória.
Só ele não está mais aqui.

FICA

Peço que não vás.
Fica mais um pouquinho.
Como passarei os dias
sem ouvir teu riso e sem fitar
o verde- musgo de teus olhos?

Peço que não vás.
Há um chamado do mar, do sol,
das flores, (sobretudo das azaleias),
pedindo que fiques.

Por isso, não vás!
Diz-me que nada do que falam
é verdade,e que nunca houve
prenúncios de partidas...

Voos

Um bem-te-vi nesta manhã
não cantou.
O sol se escondeu...

À noite, uma estrela parecia brilhar,
mas logo se esquivou.

Risos desapareceram.

Um silêncio imponente
ocupou o espaço onde antes
habitava um menino
que voou...

Tragam terços, haicais,
óleo ungido,
cantos de corais...

E Paz.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO - ENTREVISTA

CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO

MINI BIOGRAFIA

Célia Lamounier de Araújo nasceu em 19.07.43, tem 03 filhos, 6 netos e reside em Itapecerica MG. Exerceu atividades variadas, funcionária aposentada do TCEMG. Foi jurada e participou de desfiles no Carnaval de Rua. Sempre gostou de cantar. É poeta e advogada, atualmente pesquisando sobre as Famílias LAMOUNIER para publicar um livro de Genealogia. Quando casada, residiu em várias cidades mas, voltou para Itapecerica MG. Foi editora de jornais, de Suplementos Literários, é sócia de várias Academias de Letras. Já publicou sete LIVROS e tem premiações e participação em 80 antologias nacionais..

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO - Advogada, aposentada TCEMG, Vice-presidente subseção OAB- Itapecerica, Vice-presidente clube ACII, Presidente Conselho Patrimônio Histórico Cultural.

Fui editora de jornais, ativista cultural publicando páginas de Literatura, fundadora e Presidente de Academia de Letras.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO - Estudante, desde o curso primário, ativa nas festas e promoções escolares, declamando e discursando.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?

I-Livros publicados, editados em MG

1-Entardecer de Lágrimas -1978
2-Cidades e Trovadores -1982
3-Sirgas e Organsins –1986
4-Itapecerica antologia 01 –1993
5-Passo a Passo –1998
6-Dicionário dos Padres de Itapecerica -2001
7-Cadinho de Sonhos - 2009

Vários ébooks no Site Scribd
Participação em 80 antologias com premiações
Anuário de Poetas Brasileiros Aparício Fernandes RJ 1981 e 1982
Verbete - Dicionário de Poetas Contemporâneos Francisco Igreja RJ/91
Dicionário Biobibliográfico - Adrião Neto - Teresina PI/98
Dicionário de Mulheres de Hilda Hubner – RS/99 (e outros)

II-Jornais

1-Colaboradora em jornais com suplementos literários 79/81:
Jornal Vale do Aço – Sempre – Transa - Diário do Aço – Diário da Manhã
2-EDITORA dos jornais: Janelão – O Itapecerica - Quatro Bicas – Impacto
No jornal Gazeta do Oeste de Itapecerica: coluna Movimento PAP-99/00
No jornal Tribuna do Vale/2006 - suplemento Literário, Histórico e Social CALADO

Alguns sites com trabalhos da autora:

Usina de Letras, Blocos, AVBL, AVSPE, Poetas Del Mundo, Ateneu
www.rebra.org - www.notivaga.com.br
http://www.rauldeleoni.org/academico_correspondente_celia_lamounier.html
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=622
http://www.lunaeamigos.com.br/varal/
http://www.celialamounier.net/

SELMO VASCONCELLOS - Qual o impacto que propicia atmosfera capaz de produzir poesias ?

CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO - O impacto emocional da música, de um fato, de uma foto, um pedido, e às vezes uma palavra qualquer.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO - Muitos. Desde criança, gostava de ler, mas não lia um livro; eu lia "coleções" de livros (escritores brasileiros e vários estrangeiros).

Quando adolescente o J G de Araújo Jorge era meu poeta predileto. Lembro Cronin , Saint Exupery, Richard Bach, muitos outros.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO - O estudo linguístico e um conhecimento geral são essenciais como alicerce para qualquer profissão.

Mas, ESCREVAM, se existir um motivo, uma vontade de escrever, uma pendência natural.

POESIAS

B R A S I L

Célia Lamounier - Itapecerica MG
Publicado no livro CADINHO de SONHOS


Vamos cantar nosso país com fé
500 anos, praias-sol-estrelas,
esta riqueza tinha e tem até
o infinito de se olhar e vê-las.

Vamos mostrar ao mundo a alegria
de viver bem no azul-verde-amarelo,
plantando o amanhã no dia a dia,
vivendo o tempo agora mais singelo.

Vamos deixar o mundo embasbacado
ante a beleza arco-íris-carnaval,
paisagem diferente em cada Estado,
na cultura que engendra arte mural.

Vamos fazer festa por nossa vida,
a Deus rendendo graças com mesura
pois terra-ouro-luz-água e comida
nosso país Brasil tem com fartura.

Vamos buscar o encontro, aquele abraço,
variado encanto raça-terra-gente
que canta forte o hino e deixa o traço
num Brasil menino de um país contente.

http://www.celialamounier.net/

PARALELOS

Célia Lamounier de Araújo - 1981
Publicados no Livro SIRGAS e ORGANSINS


I – Mar canoa
água enjoa
céu resplande
e sol e brisa
bamboleia enleia
a mim
que jovem velho
já conheço
o engano
de ano em ano
remar
contra a maré.

II – Um carretel de linha
marca a estrada
branca começada
que ao terminar
cheia de nós
é cor do pó.
A linha fraca
ora mais bamba
ora esticada
já se arrebenta
ou se embaralha
mas chega ao fim.

S O N H O

Célia Lamounier de Araújo
Publicado no Livro Entardecer de Lágrimas

É sonho, poeta, é sonho...
Em tuas mãos nenhuma outra esteve
E nem teus olhos viram um doce olhar.
A felicidade há muito que te abandonou
E sabes muito bem que ela não vai voltar.

E o poeta responde à razão:

Se é sonho não sei, mas... nele creio.
É tão bom sonhar! E querer também!
Ontem vivia eu triste, é verdade,
Agora, no entanto, quer seja sonho ou maldade
Volto a viver e a sonhar com alguém.

T R O C A

Célia Lamounier de Araújo
Publicado no livro Sirgas e Organsins

A vida é uma troca
de corpo
de amor
de palavras
de bondade
de constante doar-se.

Trocar é viver
trocar passos
trocar idéias
trocar tempo
trocar ternura
trocar embaraços.

A morte é uma troca
trocar de passos
trocar de idéias
trocar de tempo
trocar de espaço
trocar de corpo e voltar.

NEUROSE

Célia Lamounier de Araújo

A música nas entranhas... estranham
porque não sabem mais senti-la.
E não tem sentido falar-lhes em céu,
estrelas, lua ou cores da beleza.
Tudo estranham, nada sentem e formam
esta realista humanidade cega.

A neurose da solidão te enlouqueceu, dizem,
E para sempre agora, poeta,
os cegos te dirão: "Poeta, és louco!..."
Só não sabem quão bonito é ser assim.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

RENATA PACCOLA - ENTREVISTA

RENATA PACCOLA

Renata Paccola é advogada, formada pela Universidade Mackenzie ( SP ). Autora dos livros de poemas “De Vulto A Volta” ( Ed. Mirante, 1983 ), “Tempo” ( Ed. Scortecci, 2003 ) e “Grilhões de Vidro” ( Ed. Scortecci, 2003 ). É Presidente Estadual da Sociedade de Cultura Latina do Brasil ( SP ) e 1ª Secretária da União Brasileira de Trovadores ( UBT ), seção São Paulo. Premiada em centenas de concursos literários, no Brasil e em Portugal.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

RENATA PACCOLA – Sou advogada e atriz, além de vender meus livros de poemas pela noite paulistana.

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário ?

RENATA PACCOLA – Após uma violenta crise existencial, fiz 10 anos de análise e nesse período comecei a escreve. Posso dizer que a poesia salvou minha vida.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

RENATA PACCOLA – Somente tenho livros publicados dentro do País. : DE VULTO A VOLTA ( 1983 ), TEMPO ( 1998 ) e GRILHÕES DE VIDRO ( 2003 ).

SELMO VASCONCELLOS – Qual(is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

RENATA PACCOLA – Acho que o principal é desilusão amorosa, em especial para a criação poética, Há ainda a perda de entes queridos – especialmente filhos – enfim, impactos que gerem crises existenciais.
Acredito que a literatura seja fruto do processo dialético : comportamento dogmático – experiência negativa – conversão filosófica.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira ?

RENATA PACCOLA – Em poesia, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Alphonsus Guimarães, entre outros.
Em prosa, o livro que mais apreciei foi “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. Gosto também dos contos de Machado de Assis e como autor de suspense, sou fã de Robin Cook.

SELMO VASCONCELLOS – Que mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

RENATA PACCOLA – Eu diria para não desanimar diante dos obstáculos – que são muitos – para os que pretendem se dedicar à poesia como carreira. E procurar evoluir sempre através de muita leitura, já que a poesia requer um constante aprendizado.

POESIAS

Esqueço o redemoinho
de frases soltas ao vento
quando, em silêncio, sozinho,
falo com meu pensamento...

***

Quando me esqueço do tempo,
sinto que ele está parado,
e acabo me convencendo
de que correu demasiado.

***

Embora possa se falar
que o tempo é uma abstração,
ele é algo que se meça.
Faço tudo devagar,
para ter a sensação
de que o tempo passa depressa.

***

Para curar o tédio
das paixões mais daninhas,
contra cravos e espinhas,
tempo... o único remédio.

***

NASCER DO SOL

Maravilha incontestável,
espetáculo indefinível,
é a natureza que tenta,
inutilmente,
dar à luz
meu espírito ainda cansado.

***
CATEDRAL DA SÉ

Meio-dia.
Toca doze vezes
o sino da Catedral,
chamando para o almoço
os corpos fatigados,
chamando ao paraíso
as almas cansadas.
Bate meio-dia
o sino da Sé,
chamando à poesia,
alimento e céu
em doze versos.